O "infocalipse" vem aí

Ele previu a crise das notícias falsas. Agora teme pela democracia

Gabriel Francisco Ribeiro Do UOL Tecnologia, em São Paulo
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Faz mais de dois anos que Aviv Ovadya fez o alerta: algo estava muito errado com a internet. Até aí, quem nunca pensou isso? Na época, já havia inclusive estudos apontando, por exemplo, que mais da metade das notícias mais compartilhadas no Facebook na semana do impeachment de Dilma Rousseff (PT) eram falsas.

Mas, o chefe de tecnologia do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais e engenheiro formado pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) foi além. Ele levou suas preocupações aos tecnólogos da baía de San Francisco e avisou que haveria uma crise de desinformação. E, sem cidadãos informados, a democracia estava ameaçada.

A apresentação, que ele intitulou de "Infocalypse" (uma referência a apocalipse da informação), foi ignorada. Logo depois, Donald Trump foi inesperadamente eleito presidente dos Estados Unidos. Meses depois, explodiu o escândalo de manipulação de dados do Facebook.

Agora, em entrevista exclusiva ao UOL Tecnologia, Ovadya faz novo alerta: a situação piorou e estamos vendo apenas a "ponta do iceberg".

Divulgçaão Divulgçaão

Imagine viver numa civilização que não distingue verdade e mentira, sem um sistema confiável e de cooperação e sem ferramentas para resolver conflitos. Esse é o futuro que Ovadya (foto) enxerga: vai rolar uma crise existencial, que afetará a democracia.

Segundo ele, o aumento da desinformação provoca duas reações: a fragmentação da realidade (quando há um profundo sentimento de incompatibilidade e incompreensão da realidade) e a apatia (quando as pessoas simplesmente desistem de tentar dizer o que é real).

A democracia não funciona se qualquer um desses dois fatores for muito comum. E, sem ela, tanto guerras civis quanto guerras internacionais vão se tornar progressivamente mais comuns

Acha exagero? Ovadya dá um exemplo muito próximo dos brasileiros. 

Até a saúde será afetada. Como parar uma epidemia se as pessoas são rapidamente convencidas por informações falsas no WhatsApp de que o tratamento é perigoso?

A problemática relação dos brasileiros com o WhatsApp foi tema de um artigo da Wired, importante revista do mundo da ciência e tecnologia. No texto, a escritora Megan Molteni traz um panorama de como o mensageiro foi usado para espalhar boatos que ajudaram a febre amarela correr o país, infectando mais de 1.500 pessoas e matando centenas

Notícias falsas sobre reações fatais à vacina, uso de mercúrio e conspirações governamentais foram propagados a uma velocidade alarmante, conta ela aos desavisados, explicando que o WhatsApp é usado por 120 milhões de brasileiros.

Arte/UOL Arte/UOL

Quem lembra? Num primeiro momento, Mark Zuckerberg ridicularizou a influência de notícias falsas no Facebook. Hoje, já se sabe que elas têm 70% mais chances de viralizar do que uma real e são capazes, sim, de influenciar eleições, plebiscitos e comportamentos de massa, por exemplo. 

Zuckerberg, claro, foi colocado contra a parede, se arrependeu do que disse e precisou correr atrás do prejuízo. O combate à desinformação virou uma prioridade da rede social. Mas, ele está atrasado.

"Há um ou dois anos, o problema da desinformação ser espalhada por plataformas de tecnologia não era reconhecido pela maioria das pessoas. Eu desejava que tivesse sido abordado antes, quando eu e outros falamos pela primeira vez? Com certeza", diz Ovadya.

Mas estou feliz por ver que Facebook, Twitter e outros estão mudando. De achar que não tinham responsabilidade para ativamente apoiar discursos saudáveis. O lado bom é que plataformas, governos e financiadores estão levando as coisas mais a sério

As coisas estão ficando piores, infelizmente. Muitos dos sinais de alertas foram ignorados quando apareceram, então estamos brincando de 'pega-pega' agora. Há tanto a ser feito, que nem deu pra começar... Enquanto lentamente respondemos a problemas que já aconteceram --propagação de fake news, bots e contas falsas espalhando desinformação, etc--, novas ameaças são desenvolvidas e precisam ser prevenidas

Aviv Ovadya

Ver para crer?

Tipos mais rebuscados de fake news não param de surgir. Recentemente, pesquisadores mostraram como é fácil criar um vídeo falso, mas muito real, de Obama. O que fazer quando deixamos de acreditar naquilo que os nossos olhos vêm?

É nesse contexto dominado por WhatsApp e Facebook que chegamos na véspera das eleições no Brasil. O cenário é desolador: a desinformação contamina e acirra os ânimos, polarizando o eleitorado como nunca antes.

Numa tentativa de consertar o estrago, o Facebook lançou uma parceria com renomadas agências de checagem de fatos para dizer quais notícias são verdadeiras ou falsa. A ferramenta, vale dizer, gerou revolta de parte das pessoas, e grupos de direita passaram inclusive a atacar os jornalistas e seus familiares.

Mas faltou Zuckerberg olhar para outro vilão de sua empresa: o WhatsApp.

Metade dos boatos que circularam sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) foi em grupos de família, apontou pesquisa da Universidade de São Paulo. O aplicativo é visto como uma das redes mais propícias para a difusão de notícias falsas, porque as mensagens são privadas, sem caráter público e são difíceis de rastrear.

"Eu sei que o WhatsApp é um meio dominante de comunicação no Brasil. Estou preocupado com países onde a comunicação dominante é por grupos criptografados, como os do WhatsApp. Gosto da criptografia, mas ela torna bem difícil ver o quão penetrante a desinformação é", diz o engenheiro.

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Desinformação é um problema desde que a informação existe, da "imprensa marrom" ao spam. A diferença agora é que as plataformas permitem que ela se espalhe mais rápido, e novas tecnologia deixam mais fácil não apenas mentir, mas criar falsas informações que se parecem exatamente como a coisa real. Isso dá uma oportunidade tentadora para pessoas que queiram ganhar dinheiro ou manipular o público, seja para fins políticos, para espalhar uma ideologia ou só para roubar.

Aviv Ovadya

Aviv Ovadya

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E agora?

Existe um movimento global por mais regulamentação das redes sociais, numa tentativa de impedir a proliferação de notícias falsas. Mas, mudar a lei, por si só, não vai resolver, acredita Ovadya. 

"Precisamos que todas as partes trabalhem juntas em busca de uma solução", diz.

Governos, por exemplo, podem criar penalidades para quem cria algo falso e chame de verdade, assim como copiar uma obra de arte ou forjar documento é considerado crime

Mas, as empresas também precisam ser envolvidas no combate à crise. Falas como a de Zuckeberg, de que "o Facebook é uma empresa idealista, no começo pensamos em todas as coisas boas que poderíamos fazer", não colam mais.

Claramente as companhias precisam fazer muito mais que pedir desculpas repetidamente. Chegamos aqui por muitas razões, mas o 'tecnotimismo' (crença de que a tecnologia sempre melhora o mundo) teve grande parcela

As empresas precisam trabalhar o potencial de consequências negativas daquilo que estão construindo e amenizar o impacto antes que seja tarde, defende ele. 

Um caminho para solucionar a crise seria elas destinarem 5% dos seus orçamentos para combater os malefícios trazidos por seus produtos à sociedade. Algo parecido é feito por farmacêuticas norte-americanas, que são obrigadas a combater os efeitos colaterais dos remédios, e por construtoras, que precisam mitigar impactos ambientais, por exemplo.

Gostaria de ver as empresas e as organizações de pesquisa (inclusive universidades) que desenvolvem e disponibilizam tecnologias de inteligência artificial dedicarem pelo menos 5% do seu orçamento para diminuir as consequências não intencionais das tecnologias que criam

Precisamos também de novas inovações para construir uma infraestrutura de autenticidade no ecossistema da informação, um modo de ter certeza do que é real ou falso. Eu adoraria, por exemplo, ver todas as novas câmeras com uma opção de salvar o horário e local de modo que seja difícil forjar. Assim, num cenário de abundância de informações falsas, as pessoas possam ter algo para garantir o que é verdade [por exemplo, aquele vídeo enviado no grupo do WhatsApp]

Aviv Ovadya

1) Verifique se a notícia foi publicada por uma empresa, pessoa ou organização conhecidas. Isso não é um atestado de credibilidade, mas pessoa jurídica ou física corre o risco de processo e tende a tomar mais cuidado

2) Evite sites que não trazem a pessoa ou equipe que produziu o conteúdo. Não dá para zerar o risco, mas checar se a pessoa existe já ajuda

3) Não compartilhe nada sem ler. Ler só o título não é suficiente

4) Veja se a foto não é antiga ou se tem sinais de manipulação no Photoshop. Cheque a data da publicação do texto

5) Desconfie de textos que não trazem fontes confiáveis, como entrevistados e pesquisas de instituições conhecidas, para defender as informações e números divulgados

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6) Há diferença entre texto opinativo e narrativo. Desconfie de textos que querem se fazer passar por notícias, mas são opinião pura. Exija provas

7) Links para documentos, áudios, vídeos e imagens não são, necessariamente, provas. Eles precisam fazer sentido

8) Ao ver uma denúncia, verifique se algum veículo de comunicação mais conhecido, progressista ou conservador, deu também. Desconfie de notícias que circulam apenas entre sites anônimos e grupos de WhatsApp

9) Uma notícia não é verdadeira simplesmente porque você concorda com ela ou porque ela reforça sua visão de mundo

10) Ficou na dúvida? Não compartilhe.

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