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Proposta incrível

Recebeu convite para investir em um clube de bitcoin? Então fuja, porque é golpe

Téo Takar Colaboração para o UOL, em São Paulo

A valorização surpreendente do bitcoin, de mais de 1.000% apenas no ano passado, fez explodir o número de golpes que usam a criptomoeda para atrair investidores desavisados. São supostos fundos, clubes de investimento ou grupos de ajuda mútua. Todos prometem ganhos espetaculares para quem decide aderir à "proposta" de investimento.

Na verdade, trata-se de uma nova roupagem para um velho golpe: a pirâmide financeira.

Especialistas estimam que há mais de 100 casos suspeitos em atividade no Brasil hoje. No mundo, as possíveis fraudes chegam a 5.000. Nesta semana, autoridades dos Estados Unidos conseguiram fechar a BitConnect, um suposto sistema anônimo de empréstimo de criptomoedas. No Brasil, em setembro, foi descoberta a fraude da falsa moeda kriptacoin.

Veja nesta matéria os nomes de algumas empresas e sites suspeitos de praticarem esse tipo de golpe no Brasil e no mundo. Aprenda como identificar um possível esquema criminoso e, principalmente, como investir em bitcoins de forma legal e segura.

Receita: convite de amigos, seguidores nas redes e PowerPoint

Propostas de investimento "tentadoras" de supostos fundos ou clubes de bitcoin têm circulado pelas redes sociais e nas conversas no escritório ou na faculdade. 

Em geral, as pessoas ficam sabendo da proposta por meio de algum colega ou amigo de trabalho que entrou recentemente no tal investimento "promissor", que garante que a aplicação está rendendo de forma meteórica e tenta convencer você, a todo custo, a se juntar ao clube ou fundo. É exatamente assim, na base do boca-a-boca, que os golpistas conquistam novos investidores. O seu colega ou amigo provavelmente não faz ideia que caiu em um esquema criminoso.

Seguidores nas redes e eventos com PowerPoint 

Para dar mais veracidade à proposta, os fundos ou clubes usam páginas no Facebook com milhares de supostos seguidores, muitos deles vítimas do golpe. Também recheiam o YouTube com vídeos explicativos e mantêm sites com áreas de perguntas e respostas. As informações fornecidas, porém, são quase sempre incorretas ou incompletas.

A ousadia não para aí. Os golpistas também promovem grandes encontros em auditórios, teatros, hotéis e centros de convenções para fazer as pessoas acreditarem que aquele grupo de investimento realmente existe, não é uma fachada. Desenvolvem apresentações convincentes em PowerPoint, aproveitando o interesse que a simples menção da palavra bitcoin tem despertado nas pessoas nos últimos meses.

Dizem que é marketing multinível, mas é pirâmide disfarçada

Os supostos clubes e fundos têm uma grande preocupação de tentar convencer os futuros "sócios" de que a proposta não é uma pirâmide financeira. Tanto nas apresentações em vídeo ou presenciais, como nos sites, os golpistas costumam ter o cuidado de mostrar esquemas de supostas bonificações para quem trouxer mais pessoas para o grupo.

Atualmente, os golpistas têm usado muito os conceitos do marketing multinível para mascarar a pirâmide.

Alan De Genaro, professor da FEA/USP

O marketing multinível, ou marketing de rede, é uma ferramenta legal, usada principalmente por grandes empresas de venda porta-a-porta, como Avon e Natura. Basicamente, consiste em um programa de bônus e promoções de cargo para quem tem bom desempenho nas vendas ou quem consegue recrutar novos vendedores.

"No marketing multinível, os ganhos vêm principalmente da venda dos produtos. Nos EUA, há uma regra que estabelece que pelo menos 70% da receita seja proveniente das vendas. Caso contrário, teremos uma pirâmide, ou seja, uma estrutura que é mantida basicamente pelos investimentos feitos pelas novas pessoas que entram no esquema", diz De Genaro.

Se a proposta do tal investimento diz que você vai ganhar mais se trouxer um número maior de convidados para participar do grupo, pode ter certeza de que se trata de uma pirâmide.

Guto Schiavon, da corretora de bitcoins Foxbit

Retorno garantido? Não existe, afirmam especialistas

As supostas propostas de investimento costumam apresentar projeções de rendimento tentadoras, como 1% ao dia ou 30% ao mês. Além disso, geralmente vêm acompanhadas da expressão "retorno garantido".

Desconfie de qualquer empresa que prometa investimento em bitcoin com "retorno garantido". O bitcoin é uma moeda virtual e, como qualquer moeda, está sujeita a oscilações, para cima e para baixo.

Galeno Garbe, diretor da corretora Mercado Bitcoin 

"Antes de fechar qualquer negócio, procure pesquisar ao máximo a reputação da empresa com a qual você está negociando ou investindo", diz Garbe.

No mundo dos investimentos não existe isso de "retorno garantido". Qualquer investimento está sujeito a riscos, ainda mais em um mercado extremamente volátil, como o do bitcoin.

Guto  Schiavon, fundador e diretor da corretora Foxbit

O bitcoin é um investimento de altíssimo risco, maior até do que investir em ações. Portanto, se você nunca investiu em ações, não se aventure com bitcoins porque estará sujeito a perdas. É preciso entender os riscos envolvidos.

Alan De Genaro, professor da FEA/USP

O bitcoin já se desvalorizou quase 50% desde o pico de preço atingido em dezembro e hoje está na casa dos US$ 10 mil.

Fundos estão proibidos de investir em bitcoin no Brasil

No começo de janeiro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) proibiu todos os gestores e administradores de fundos de investirem em bitcoins ou outras criptomoedas. "As criptomoedas não podem ser qualificadas como ativos financeiros (...). Por essa razão, sua aquisição direta pelos fundos de investimento regulados não é permitida", disse a entidade.

A CVM é o órgão do governo responsável por autorizar e fiscalizar o funcionamento de fundos e clubes de investimento e também por permitir a negociação no Brasil de qualquer ativo financeiro, como ações, dólar e ouro.

Embora a Bolsa de Chicago, nos EUA, tenha sido autorizada recentemente a oferecer contratos futuros baseados no preço do bitcoin, a CVM considera que há questões jurídicas sobre as criptomoedas que ainda precisam ser esclarecidas, antes de liberar sua negociação no Brasil para grandes investidores, como bancos e fundos.

"Em relação a tal investimento, há ainda muitos outros riscos associados à sua própria natureza (como riscos de ordem de segurança cibernética e particulares de custódia), ou mesmo ligados à legalidade futura de sua aquisição ou negociação", avalia a CVM.

MinerWorld: Que tal minerar bitcoins no... Paraguai?

Autoridades do Brasil e do Paraguai estão atrás dos responsáveis pela MinerWorld, uma suposta empresa de mineração de bitcoins que afirma ter sede em Ciudad del Este, no Paraguai, e unidades de produção na China. A empresa mantinha escritório no Mato Grosso do Sul, onde atraía novos "sócios".

A MinerWorld prometia aos seus investidores retornos de até 100% sobre o valor investido, além de bônus para quem indicasse novos investidores. O site da empresa (minerworld.com.br) ainda está funcionando, mas o item "plano de negócios" não está mais acessível.

"Minerar bitcoins é um processo que envolve computadores potentes e um gasto enorme de energia. Você precisa ter uma estrutura muito grande. Não é tão rentável quanto parece. Além disso, você está sujeito às oscilações de preço do próprio bitcoin", afirma o professor Alan De Genaro, da FEA/USP.

Em agosto do ano passado, o Ministério Público Federal (MPF) apresentou denúncia contra a MinerWorld pela possível prática de pirâmide financeira, o que caracteriza crime contra a economia popular.

A MinerWorld afirmava ter autorização da Comissão de Valores Mobiliários do Paraguai para operar no país. A CVM paraguaia divulgou comunicado, em outubro, alertando que não concedeu nenhuma autorização à empresa (veja aqui o comunicado original, em espanhol).

AirBit Club oferece "pacotes" de até US$ 63 mil

O AirBit Club (airbitclub-br.com/) se auto intitula como o maior clube de investimento em bitcoins do mundo. A empresa afirma ter sede no Panamá, um conhecido paraíso fiscal. No Brasil, "consultores" de investimento fazem o papel de representantes do AirBit, que não tem escritório no país. Eles agem principalmente no Rio Grande do Sul e na Grande São Paulo.

Os consultores oferecem "pacotes" de investimento que vão de US$ 250 até US$ 63 mil. O dinheiro é depositado na conta pessoal do consultor, que fica responsável por fazer a troca por bitcoins e o envio para o AirBit Club no Panamá.

Segundo o site do AirBit Club, os ganhos da empresa são gerados a partir de operações de arbitragem na compra e venda de bitcoins nas principais plataformas de negociação em todo o mundo. As promessas de retorno variam de 40% a 140%, dependendo do tamanho do investimento. E quanto mais amigos levar para o clube, maior também será a participação nos bônus e premiações.

"Arbitragem é uma operação em que o ganho geralmente é da ordem de centavos. Você precisa ter uma equipe especializada e uma estrutura grande para tornar o negócio viável. É algo que, normalmente, só os grandes bancos têm. Não é razoável acreditar que um grupo de pessoas consiga tirar um lucro tão grande fazendo arbitragem", afirma o professor Alan De Genaro, da FEA/USP.

Ele chama atenção ainda para o fato de o AirBit Club estar sediado fora do Brasil. "Se, de fato, eles estiverem no Panamá, será muito mais difícil para o investidor reclamar e receber seu dinheiro de volta, caso aconteça algum problema. Não adianta recorrer à Justiça brasileira."

Nas redes sociais e no site Reclame Aqui, há reclamações de investidores que não conseguiram sacar os valores aplicados ou que sofreram algum tipo de desconto, não informado previamente, para realizar o saque.

"Esse é um problema típico de pirâmides financeiras. As regras para retirar o dinheiro nunca são claras. E a chance de a pessoa não conseguir reaver o valor aplicado é grande", diz o professor da FEA/SP.

MMM Brasil: versão tupiniquim de pirâmide russa

Há golpes de pirâmides para todos os gostos e bolsos. E até para pessoas que gostam de insistir no erro, mesmo quando o próprio golpista diz para quem quiser ouvir que se trata de um golpe.

Na MMM Brasil (brazil-mmm.net/pt/what_is_mmm/), por exemplo, com apenas R$ 50 já é possível fazer parte da "comunidade onde as pessoas ajudam umas às outras". A MMM afirma em seu site que não é um banco e que as transferências ocorrem entre pessoas físicas. Não há uma entidade centralizadora.

"Todos os fundos transferidos aos outros participantes são a sua ajuda oferecida por vontade própria a outro participante, de forma absolutamente descompromissada." A orientação do site é que as transferências entre os associados sejam feitas em bitcoins. Dessa forma, cada associado ganha um "bônus extra" a cada operação.

A MMM Brasil (que também aparece com a grafia MMM Brazil, com "z") é a versão tupiniquim da pirâmide criada pelo matemático russo Sergei Mavrodi em 1994. Acontece que a MMM russa desmoronou naquele mesmo ano, depois de prejudicar 10 milhões de pessoas.

Não satisfeito, Mavrodi relançou o golpe em 2011, mas, dessa vez, ele mesmo alertou que se tratava de uma pirâmide. Ainda assim, conquistou mais de 15 milhões de adeptos na Rússia em apenas um ano. Seu "projeto" ganhou versões em vários países e, mais recentemente, foi adaptada para incluir o bitcoin nas transferências que "ajudam" os associados.

Golpistas da kriptacoin desfilavam de Ferrari

Um caso desmascarado recentemente no Brasil e que ganhou notoriedade na mídia foi o do kriptacoin. Os golpistas chegaram a gravar um vídeo a bordo de uma Ferrari para mostrar aos clientes como a empresa estava "progredindo".

Eles inventaram uma moeda virtual falsa, o kriptacoin, prometendo a quem investisse nela ganhos de 1% ao dia, quase 55 vezes mais do que rende a poupança. Além disso, criaram duas empresas, a Wall Street Corporate e a agência Kriptaexpress, que ficariam responsáveis por operar os kriptacoins.

O site do grupo informava que a rentabilidade da moeda virtual era proveniente da "Bolsa de Wall Streett". Além do erro na grafia (o correto é "Street", com um "t" apenas), a informação era falsa. A Bolsa de Nova York (NYSE, na sigla em inglês) não negocia criptomoedas.

Cerca de 40 mil pessoas foram enganadas pelo grupo, que movimentou R$ 250 milhões, segundo a investigação da Polícia Civil do Distrito Federal e do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios.

"Exchanges" são as instituições mais seguras para negociar bitcoins

A forma mais segura de investir em bitcoins no Brasil hoje é comprar a criptomoeda em "exchanges", como são conhecidas as corretoras que negociam bitcoins (veja aqui quais as principais exchanges que atuam no país).

"Quem quer mexer com o bitcoin deve evitar, ao máximo, a participação de intermediários. O jeito mais seguro de negociar bitcoins é operar diretamente com a moeda, nas exchanges", afirma Galeno Garbe, diretor de segurança cibernética da exchange Mercado Bitcoin (www.mercadobitcoin.com.br).

Organização relata mais de 5.000 casos de fraudes no mundo

No mundo, há relatos de pelo menos 5.000 sites suspeitos de promoverem fraudes e golpes usando o bitcoin e outras criptomoedas como pretexto. O levantamento é do site Badbitcoin Project, uma organização sem fins lucrativos que existe desde 2014 e conta com apoio de voluntários anônimos de vários países.

No Brasil, uma centena de sites e empresas são suspeitos

Kriptacoin, Hashcoin, Netscoin, XCoin, Mktcoin, MinerWorld, Alcateia Investimentos, Maximus  Investidores ou Maximus Digital, AirbitClub, ATM Coin, TradeCoinClub (TCC), D9Trader Esportivo, Telexbit, MMM Brasil, Bitconnect.

Esses são apenas os nomes mais conhecidos da lista de suspeitos de fraude no Brasil. Ao todo, são mais de 100 sites e empresas que escondem esquemas de pirâmides e outros tipos de fraudes, utilizando bitcoin como fachada.

A lista foi elaborada pelo site Guia do Bitcoin, que cruza as informações internacionais do Badbitcoin Project com as denúncias de casos suspeitos recebidas de pessoas de todo o Brasil. Muitos dos golpes têm origem no exterior e uma "filial" brasileira que replica o mesmo modelo, como o AirBit Club.

Alguns casos já foram desmascarados pela polícia, como a kriptacoin; outros ainda estão em investigação, mas há fortes indícios de práticas ilegais, segundo os especialistas em crimes financeiros.

Veja a lista completa de empresas e sites suspeitos

5 Star Mining
Adscash
Adsply
AirBit Club (antiga Wcm777)
Alcateia Investimentos (ou Maximus Investidores)
Ajuda Bitcoin
AmazonHash.com
ATMCoin (ou ATM Coin)
AWS Mining
AuroraMine
Bit Oportunity
BitCash One (bitcash1.com)
Bitclub Advantage
Bitsblockchain.net
Bitcoin For You (não confundir com a exchange Bitcoin to You, que é séria)
Bitcoin Forever Club
Bitcoin Mais
BitcoinTask
Bitconnect
Bitcosmos.biz
BiteaCoin.com
Bitmoedas.org (envolvido com a MMM Brasil)
BitGarden
Bitiscoin.com
BitOfertas (ligada à MinerWorld)
BitShower
Bitxcube
Biznet
BitNewOrder
Braconsultoria.com
Brokerbets
BR Mine
BTCClock.io
Btcinvestimentos.co.za
Btcinvestimentos.com.br
Btctradefare.org
CCBBMLM (cryptoinvest.ccbmlm.com)
CicloBTC
Cred Club
Coin-lite.com
Coingather.com
ConceptBit
Cryptoinvest.com.br
Cryptogold.com
DavorCoin
D9 Clube de Empreendedores (ou D9 Trader Esportivo)
Doar Online
DoublerBTC
DreamDonation
Dreams Place International
Ecoinplus
Fullomm
Gettycoin
GoldCoin (goldcoin1.co)
Gold Machine
Gladiacoin
GlobalCred (globalcred.co)
Gubits
HashRev
HexaMining
Hibridos.club
Hot Gold Coin
i7 Group
Jockey Bit
Incloude
iMouvin
Kit Mine
LCF Coin
MinerWorld (ou Miner.360)
Miner Banks
MCash (falsa moeda da MinerWorld)
MMM Brasil (ou MMM Brazil)
minerarbtc.com.br
mmmajudamutua.com
Monexchan
My Trader Coin
Mundial Bit ou Mundialbit.com
NetsCoin
Newcoin Blue
NewHopeX
Onlinebitz.com
Opportunity Coins
Options Cooper
Pllacenet
ProspertyClube
Rapid Miners
RendaBitcoin
Redebitcoin.com (promove a AirBit Club)
Sistema Super Bit
SmartCoinClub.com
Sierra Hash
Sizawe
STM Investimentos
STMBit Exchange
TelexBit
TIPSClube
Trade Coin Club (TCC)
Trader Clube (Traderclube.com)
TwiceCoin (novo nome da Gladiacoin)
USI-TECH
Velox10
Virtual Place
Vozex
WC3 Club
W3 Coins
Webitcoin.com.br (promove a MinerWorld)
WalletPlus
Winnex+
Winvest
World Exchange (Worldcoinex.net)
Yourbitcoinbanker.com

Fonte: Guia do Bitcoin

Veja a lista de falsas moedas criadas e manipuladas por esquemas de pirâmides

Kriptacoin (criada pela Wall Street Corporate)
Mktcoin (Paydiamond)
MCash (MinerWorld)
Netscoin (I7 Group)
Onecoin (OneLife)
Proscoin (Prosperity Clube)
VibbeCoin (Bbom)
Xcoin (Newhopex)

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