
Para se tornar a primeira mulher brasileira a ganhar uma medalha olímpica em esportes aquáticos, Poliana Okimoto precisou superar o medo de nadar no mar.
Arraias, leões marinhos, peixes, pinguins, a maré agitada, a água fria - a natureza incontrolável -, tudo afastava a nadadora do oceano. Quando a maratona aquática se tornou esporte olímpico, porém, ela decidiu fazer a transição das piscinas ao oceano.
"Eu me preparei para água fria e mar mexido, porque todos diziam que Copacabana era assim", disse ela, friorenta nata, após o bronze inédito. Mas o mar de Copacabana nesta segunda estava tranquilo e quente. "Deus é brasileiro e me deu as condições ideais. Eu fiz a melhor prova da minha vida."
Poliana foi a quarta mais rápida depois dos 10 km, mas herdou o bronze porque a francesa Aurelie Muller, que tinha chegado em segundo, foi desclassificada por ter obstruído uma rival no fim da prova.
Demorou para que Poliana Okimoto conseguisse superar o trauma de Londres-2012, quando teve hipotermia e precisou abandonar a maratona aquática. Pensou em desistir, perdeu apoio, trocou de clube. A recuperação começou no Mundial de Barcelona-2013, quando trouxe três medalhas para casa. Para o Rio, a preparação também se intensificou.
"Eu nunca treinei tanto como nesse ano, minha preparação física, meu aspecto psicológico, meu treino, está muito bom. Todos os dias que eu treinava, eu imaginava ganhar uma medalha e dava meu máximo em cada treino", disse a medalhista. "Depois que eu saí de Londres, eu não imaginava que na próxima eu ia estar melhor ainda, fazendo melhores tempos e poderia estar disputando uma medalha depois de quatro anos", salientou Poliana, que ressaltou ter feito trabalhado com a psicóloga Regina Brandão para superar o trauma de Londres.
A paulista ainda teve de enfrentar os questionamentos. "Mais uma vez, me chamaram de velha, desacreditaram, e eu tive que dar a volta por cima. É difícil, mas com essa Olimpíada, o Brasil precisa aprender que tem vários atletas, não é só um atleta ou uma medalha que conta, é nosso esforço, nosso dia a dia, o que representamos para população e novos atletas, novos talentos".
Mais uma vez, me chamaram de velha, desacreditaram, e eu tive que dar a volta por cima. O Brasil precisa aprender que tem vários atletas, não é só um atleta
![]()
Eu já fiz ela chorar em muitos treinos, a gente faz tudo muito intenso. Ela chora, mas faz. Agora tudo valeu a pena,
![]()
Nosso esporte fez medalha, Poliana foi ao pódio. A maratona entrou para história com uma medalha em Jogos, e faço parte desse esporte. Estou triste pela minha colocação, mas foi digna
![]()
A nadadora Poliana Okimoto soube que tinha sido medalhista olímpica por meio da TV Globo. Depois de ter completado os 10 km da maratona aquática em quarto lugar, ela já dava entrevistas para os repórteres da emissora quando soube da decisão dos árbitros de desclassificar uma das competidoras.
“Quando fiquei em quarto, saí satisfeita da prova porque eu dei meu máximo, sabia que não tinha o que dar mais”, explicou ela depois de subir ao pódio. “Mas quando veio o terceiro, eu chorei, foi muito emocionante. O pessoal da Globo avisou. As meninas ali atrás já tinham dito que tinha acontecido alguma coisa, mas não era oficial. Aí eu não consegui segurar as lágrimas.”
Depois de desistir da maratona aquática na Olimpíada de Londres, quando desistiu por hipotermia, chegando a desmaiar, Poliana Okimoto pensou em desistir da distância de 10 km. No entanto, voltou em 2013 e foi campeã mundial na distância olímpica, prata nos 5 km e bronze por equipes.
Tem o marido, Ricardo Cintra, como treinador há mais de uma década. Os dois se conheceram nas piscinas, em Santos, quando Poliana era atleta da Unisanta. Desde então, eles formam uma equipe dentro e fora das águas. Foi o treinador quem não deixou Poliana desistir da carreira depois de 2012, trabalhando até mesmo como psicólogo da mulher.
O biótipo de Poliana Okimoto é um pouco diferente das outras nadadoras de maratonas, mais fortes e altas que a brasileira. Com 1,65 m, ela é considerada baixa para a modalidade. Além disso, pesa apenas 52 kg, o que a fez rever a estratégia antes da Olimpíada de 2012, quando chegou a ganhar um pouco de peso, mas desistiu, pois o aumento de massa muscular a faz piorar a técnica dentro d´água.
Por suas características físicas, Poliana Okimoto recebeu um apelido carinhoso: Pocahontas, uma das heroínas da Disney. Para os íntimos, a nadadora é "Poli Pocahontas" por conta dos olhos puxados, o cabelo escorrido e a pele morena, que lembram a personagem.
Poliana Okimoto já era uma veterana quando ganhou uma companheira brasileira nas competições: Ana Marcela Cunha. As duas disputaram lado a lado a primeira maratona aquática de uma Olimpíada, em Pequim, 2008, e a rivalidade na época acabou atrapalhando o desempenho das duas na prova.
Agora, no Rio, com Poliana conquistando a medalha de bronze, o discurso é outro. “Nosso esporte fez medalha, Poliana foi ao pódio. A maratona entrou para história com uma medalha em Jogos, e faço parte desse esporte”, comentou Ana Marcela.
Na ocasião, Poliana Okimoto terminou em 5º lugar e Ana Marcela, em 7º. As duas admitiram que a briga pessoal prejudicou o desempenho na prova. “Uma atrapalhou a prova da outra, perdemos o vácuo e aí brigar quando se está mais distante é mais difícil”, comentou Poliana depois daquela prova em Pequim-2008, deixando claro que a briga foi dentro d’água. “Somos que nem o Prost e o Senna, uma não existiria sem a outra”.
Até quem ficou na frente de todo mundo e ganhou o ouro percebeu a rivalidade das brasileiras e se sentiu prejudicada também. A russa Larisa Ilchenko disparou contra Poliana e Ana Marcela: “Isso aqui é natação e não boxe”.