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Criador e criatura

Como os EUA transformaram a Coreia do Norte em uma potência nuclear

Jeffrey Lewis* Da "Prospect"
AP

A Coreia do Norte é agora, inquestionavelmente, uma potência nuclear. Ao longo do último ano, sob a liderança de seu ditador Kim Jong-un, ela concluiu um esforço de uma década para contar com capacidade de lançar uma arma termonuclear contra grandes cidades nos Estados Unidos.

Ela testou um novo míssil balístico de longo alcance, projetado e produzido domesticamente, capaz de atingir alvos a milhares de quilômetros de distância, assim como uma arma termonuclear para armá-lo, com um poder destrutivo 10 vezes maior do que a bomba que destruiu Nagasaki, Japão. Esse aumento de poderio militar tem sido acompanhado por fala dura por Kim.

Os Estados Unidos responderam ao seu modo, adicionando bombardeiros aos exercícios militares com a Coreia do Sul e posicionando novas defesas antimísseis. O presidente Donald Trump fez uso do Twitter para declarações que com frequência superam o estilo bombástico das próprias declarações de Kim. Trump falou em desencadear "fogo e fúria como o mundo nunca viu", usou um discurso nas Nações Unidas para zombar de Kim como "homem foguete" e ameaçou "destruir totalmente a Coreia do Norte".

O fantasma de uma guerra nuclear parece nos assombrar de novo, à medida que a única superpotência do mundo se vê ameaçada por uma de suas nações mais pobres e isoladas.

AP

EUA subestimaram os norte-coreanos

Os Estados Unidos não experimentavam o surgimento de uma potência abertamente hostil, detentora de armas nucleares, desde os momentos mais tensos da Guerra Fria. Enquanto isso, os americanos esqueceram a lógica fria e incansável do equilíbrio do terror. A União Soviética estava estagnada e miserável, mas manteve metade da Europa acorrentada e os Estados Unidos a distância por 40 anos. Esse é o poder terrível das armas nucleares, algo aparentemente esquecido após a vitória americana na Guerra Fria. A situação não familiar resultou em uma espécie de choque. Como isso aconteceu?

Mas a própria pergunta é absurda. Nenhuma grande potência manteve um domínio ilimitado, muito menos a invulnerabilidade que atualmente é considerada como certa em Washington. A presunção de que os Estados Unidos se manteriam à parte de um mundo problemático, onde poderiam intervir com força e impunidade é por si só uma aberração. O choque de 2017 vem das ilusões de 1991.

Aquele foi o ano do triunfo dos Estados Unidos. Em fevereiro, as forças armadas americanas venceram rapidamente as forças iraquianas na primeira Guerra do Golfo, libertando o Kuait e destruindo aquele que na época era o quarto maior exército do mundo e, juntamente com isso, a relutância pós-Vietnã em fazer uso de tropas terrestres no exterior. Então, em agosto, um golpe contra o líder soviético, Mikhail Gorbatchov, fracassou, levando a uma rápida desintegração da União Soviética.

Em um espaço de meses, os Estados Unidos se livraram do legado doloroso do Vietnã e viram desaparecer a ameaça representada pelas dezenas de milhares de armas nucleares soviéticas. Em meio a essa exuberância, o general Colin Powell, o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, deu uma entrevista celebradora. "Estou ficando sem demônios. Estou ficando sem vilões", disse Powell ao jornal "Army Times". "Restaram apenas Castro e Kim Il-sung."

Um quarto de século depois, o sentimento é menos jubiloso em uma América assediada por demônios e vilões, tanto em casa quanto no exterior. O retorno ao Iraque em 2003 foi um desastre absoluto. Ele continua sendo um atoleiro após mais de uma década de envolvimento americano, repleto de ecos do Vietnã. Enquanto isso, a Rússia de Vladimir Putin ressuscitou posturas e comportamentos distintamente soviéticos no palco mundial, ignorando os acordos de controle de armas que considera injustos e modernizando suas forças nucleares.

Quanto a Fidel Castro e Kim Il-sung, ambos administraram um processo de sucessão, transmitindo a membros da família o controle de Cuba e da Coreia do Norte, respectivamente. O governo Obama fez as pazes com Cuba. Mas a ameaça da Coreia do Norte, agora governada pelo neto de Kim Il-sung, apenas aumentou.

A ideia de que a Coreia do Norte possa atacar os Estados Unidos com armas nucleares antes era considerada inimaginável por muitos. Parecia impossível que aquele país ridículo, liderado nos últimos anos por um "pigmeu" e depois por um "garoto gordo", seria capaz de ameaçar uma chuva de morte e destruição contra prósperas cidades americanas.

Por esse motivo, porque parecia impossível, muitos americanos simplesmente não previram a era de vulnerabilidade que se aproximava. Não apenas porque os americanos subestimaram os norte-coreanos, mas porque os americanos colocaram os mitos nacionais de excepcionalismo e poderio militar acima das evidências que estavam à vista de todos.

A compreensão repentina de que a Coreia do Norte pode, de fato, representar uma ameaça aos Estados Unidos produziu uma espécie de pânico. O que a atual situação exige não é apenas um mero repensar das políticas americanas para a Península Coreana, mas também pensar de modo diferente o lugar dos Estados Unidos no mundo.

De maníaco a suicida

Damir Sagolj/Reuters

Triunfo dos anos 90

Aqueles que trabalharam no Projeto Manhattan, para o desenvolvimento da bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial, viam claramente que as armas nucleares criavam um risco compartilhado que nos levava a trabalhar até mesmo com Estados considerados inimigos.

Robert Oppenheimer, o diretor do laboratório que desenvolveu as bombas, tentou capturar esse destino compartilhado quando comparou os Estados Unidos e a União Soviética a dois escorpiões em uma garrafa, "cada um capaz de matar o outro, mas apenas colocando em risco sua própria vida". Muitos soviéticos também notaram isso. Foi um projetista de armas nucleares soviético que refletiu pesarosamente que os dois países estavam "condenados" a cooperar.

Mas sempre houve muitos outros americanos que não aceitavam a ideia de que os Estados Unidos viviam em um estado de vulnerabilidade às armas nucleares soviéticas. Nos anos 60, esses americanos pressionaram por medidas de defesa civil. Nos anos 80, o foco dos esforços deles se voltou para as defesas antimísseis. Eles imaginaram que o que passou a ser chamado de "Guerra nas Estrelas" de alguma forma protegeria os Estados Unidos do mundo da mesma forma que os oceanos fizeram no passado.

Essa escola de pensamento foi com frequência caracterizada como irremediavelmente ingênua, mas 1991 mudou tudo isso. A guerra no Golfo pareceu validar as esperanças mais loucas dos fantasistas tecnológicos, quando Israel, aparentemente, conseguiu se defender com sucesso de ataques com mísseis.

E o colapso da União Soviética pareceu sinalizar que o custo de manter os avanços técnicos americanos faliriam qualquer adversário. O fato de as defesas antimísseis israelenses não terem realmente funcionado só se tornaria de conhecimento muito depois. E os vários motivos para o colapso da União Soviética eram complicados demais para observadores casuais. Muitos americanos chegaram à conclusão simplista e sedutora de que havia uma saída tecnológica da garrafa de Oppenheimer.

Ao mesmo tempo, entretanto, líderes políticos e militares hostis ao redor do mundo estavam chegando a conclusões diferentes a respeito de sua vulnerabilidade ao poder americano e a respeito das rotas certas de fuga. Muitos observadores por todo o mundo concordavam com a posição, geralmente atribuída a um general indiano chamado Sundarji, de que a lição era simples: "Nunca enfrente os Estados Unidos sem armas nucleares".

Kim Il-sung não discordou. Já nos anos 60, muito antes do fim da Guerra Fria, a Coreia do Norte expressava interesse por armas nucleares. A Coreia do Sul também deu início a um programa de armas nucleares durante seu período de ditadura militar. Mas enquanto a Coreia do Sul se democratizou e voltou sua atenção para o desenvolvimento de sua economia, Pyongyang seguiu em frente, construindo com sucesso um reator de gás-grafite para produção de plutônio para armas nucleares nos anos 80, juntamente com uma usina radioquímica para recuperação desse plutônio.

Os Estados Unidos e outros países pressionaram a Coreia do Norte a assinar o Acordo de Não Proliferação Nuclear como um "Estado de armas não nucleares" e que aceitasse inspeções pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). Mas em 1992 e 1993, os inspetores da AIEA descobriram uma série de inconsistências e mentiras nas declarações da Coreia do Norte a respeito de suas atividades nucleares, provocando uma crise, uma que aprofundou assim que a Coreia do Norte apresentou um lote de barras de combustível contendo plutônio suficiente para várias armas nucleares.

A Coreia do Norte e o governo Clinton tentaram desarmar o impasse com um acordo diplomático assinado em 1994, chamado Acordo de Bases. Segundo seus termos, a Coreia do Norte desativaria suas instalações conhecidas para produção de plutônio para armas nucleares em troca do fornecimento de assistência em energia, incluindo dois reatores nucleares de água leve, além promessas de melhora nas relações. Os norte-coreanos, isolados após a perda de seus protetores soviéticos e sem saber se seu programa nuclear no final seria bem-sucedido, aparentemente calcularam que o Acordo de Bases removia o risco de guerra e oferecia um caminho para um relacionamento menos hostil com os Estados Unidos.

Muitos daqueles que acreditavam que os Estados Unidos poderiam escapar de risco por meio do uso de força ficaram chocados com o acordo diplomático que parecia recompensar a Coreia do Norte por abrir mão de armas nucleares. O senador John McCain comparou desfavoravelmente o acordo a Munique, dizendo:

Se grasna como pato e anda como pato, é apaziguamento"

Nos triunfalistas anos 90, muitos tinham dificuldade em entender por que os Estados Unidos deveriam fazer concessões ou compensar um país pequeno e bizarro como a Coreia do Norte.

Sean Adair/ Reuters

Paralisados pelo medo

Apesar de George W Bush ter criticado o acordo nuclear com a Coreia do Norte durante sua campanha de 2000 à presidência, as indicações iniciais eram de que seu governo daria tempo para que o acordo funcionasse. Powell, na época o secretário de Estado americano, até mesmo deixou escapar que Bush pretendia "retomar de onde o presidente Clinton parou". Mas então veio o 11 de setembro de 2001.

Talvez o impulso individual mais poderoso provocado por aquele dia foi o de restaurar a suposta invulnerabilidade perdida dos Estados Unidos. O país não invadiu o Iraque porque seus líderes acreditavam falsamente que Saddam Hussein perpetrou os ataques, mas porque para muitos americanos a lição do 11 de Setembro foi a de que o país não se esforçou para eliminar as ameaças ao redor do mundo.

Dick Cheney, o vice-presidente de Bush, teria explicado o que chamou de "doutrina do 1%", dizendo que se há "1% de chance" de que uma ameaça aos Estados Unidos seja real, "temos que tratá-la como uma certeza em termos de nossa resposta".

O ataque do 11 de Setembro e os preparativos para a Guerra no Iraque adiaram qualquer esforço para lidar com a Coreia do Norte. Antes que o governo Bush pudesse retomar de onde Clinton tinha parado, as agências de inteligência americanas descobriram que Pyongyang estava tentando abrir uma nova rota para produzir armas nucleares.

Funcionários do governo Clinton sabiam há algum tempo do interesse da Coreia do Norte pelo enriquecimento de urânio, incluindo seus laços com um cientista paquistanês chamado Abdul Qadeer Khan. A própria existência de Khan deveria ter sido um alerta para aqueles que acreditavam que os Estados Unidos poderiam desfrutar de um período ilimitado de invencibilidade.

Khan comandava o que posteriormente foi chamado de "Walmart nuclear", uma rede de fornecedores que ajudou países a construírem centrífugas para enriquecimento de urânio para armas nucleares. Entre os clientes de Khan estavam a Líbia, o Irã e a Coreia do Norte. Mas o governo Clinton acreditava que o problema era uma preocupação de longo prazo, um problema sério, mas um dos muitos que poderiam ser tratado no momento oportuno, por meio da diplomacia.

Mas os falcões no governo Bush adotaram uma abordagem muito diferente, vendo a inteligência como uma validação de que a diplomacia tinha fracassado, assim como uma oportunidade para abandonar o Acordo de Bases como os verdadeiros linhas-duras sempre quiseram. O governo Bush pode ter sido encorajado pela convicção de que a Coreia do Norte logo entraria em colapso.

Sendo ela uma relíquia do já falecido Império Soviético, e com os especialistas americanos naquele mesmo momento prevendo que a Operação Liberdade Iraquiana seria "moleza", os Estados Unidos não precisariam "negociar com o mal". Bush abandonou o Acordo de Bases. Mas a Coreia do Norte não entrou em colapso. Três anos depois, ela testou sua primeira arma nuclear.

Não muito depois do teste nuclear da Coreia do Norte em outubro de 2006, um Bush talvez mais humilde deu meia-volta e começou a explorar a possibilidade de uma solução negociada para os programas nucleares da Coreia do Norte. Mas havia um problema: como persuadir Pyongyang de que caso abandonasse suas armas nucleares, não ficaria tão vulnerável quando Saddam?

Condoleezza Rice, tendo àquela altura substituído Powell como secretária de Estado, até mesmo considerou usar a Líbia de Muammar Gaddafi, com a qual os Estados Unidos tinham feito temporariamente as pazes, como um canal indireto para as negociações. Apenas as preocupações da Coreia do Norte com a caráter intrusivo das cláusulas de verificação impediram o governo Bush de fechar um acordo.

O governo Obama foi igualmente frustrado seis anos depois. Em 2012 ele negociou o malfadado Acordo de 29 de Fevereiro, um par de declarações unilaterais para congelamento de certas atividades para que pudesse ocorrer um avanço das negociações. Mas ele fracassou em poucos dias, quando ficou óbvio que as declarações unilaterais continham disparidades significativas, particularmente a insistência da Coreia do Norte em seu direito de lançar um satélite ao espaço para celebrar o centenário do nascimento de Kim Il-sung.

Como foram os atentados de 11 de Setembro

AFP

Avanços contínuos

Cada acordo fracassou por diferentes motivos, mas havia um elemento comum em todos os fracassos para se chegar a um acordo. A Coreia do Norte estava avançando, obtendo progresso ano após ano. As autoridades americanas tentavam encontrar uma forma de voltar àquele momento triunfal no início dos anos 90, quando Pyongyang não tinha armas nucleares. Mas aquele momento tinha passado. A nostalgia cegou o que deveria ter sido um reconhecimento frio de que o poder da Coreia do Norte estava crescendo de forma constante. Quando Washington aceitou fazer concessões, elas passaram a ser muito pouco, tarde demais.

E, é claro, os norte-coreanos tinham cada vez menos motivos para se sentirem confiantes nas promessas dos Estados Unidos. Grupos armados se ergueram contra Gaddafi em 2011. A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental), liderada pelos Estados Unidos, Reino Unido e França, fez uso de poder aéreo para apoiar esses rebeldes que buscavam derrubar Gaddafi.

Durante esse período, John Bolton, o neoconservador que era um alto funcionário do Departamento de Estado quando Bush fechou o acordo com a Líbia, pediu para que os Estados Unidos assassinassem Gaddafi, argumentando que o acordo de desarmamento com o líder líbio nunca foi um "cartão vitalício para sair da cadeia livremente".

Quando Gaddafi teve um fim terrível pelas mãos de seus captores, os norte-coreanos notaram. O destino dele é um tema ao qual a agência de notícias estatal da Coreia do Norte, a "KCNA", retorna repetidas vezes. "A Líbia abriu mão de seu programa nuclear de décadas, depositando suas esperanças nas grandes potências e cedendo à pressão delas e ao apaziguamento, perdendo sua dissuasão nuclear", ela escreveu. "No final, ela caiu vítima de agressão."

Reuters e Kyodo

Aceitação

Nos anos que se seguiram à humilhação do Acordo de 29 de Fevereiro, o governo Obama adotou uma política amplamente ridicularizada como "paciência estratégica", uma frase cunhada por Hillary Clinton. Os funcionários do governo Obama odiavam o termo, mas ele capturava bem a abordagem.

Havia uma relutância óbvia em lidar com os norte-coreanos. Eles eram propensos a interpretações tendenciosas dos acordos, a ponto de clara trapaça. E a situação deplorável de direitos humanos na Coreia do Norte significava que qualquer engajamento ocorreria a um alto custo político. Quem deseja oferecer um opulento jantar de Estado ao líder de um país passando fome e que exige rotineiramente ajuda alimentar?

O regime norte-coreano nunca facilitou as coisas. Quando uma autoridade visitou Washington em 2000, ele participou de suas reuniões no Departamento de Estado de terno e gravata. Mas quando se encontrou à tarde com o presidente Bill Clinton, ele chegou trajando uniforme militar, completo com uma medalha da Guerra da Coreia. A expressão de Clinton na foto resultante é um estudo de frustração calada. Os norte-coreanos parecem ter prazer em tornar tudo o mais difícil possível. É fácil ver por que nem Bush e nem Obama estavam ávidos em correr riscos extraordinários em negociações com Pyongyang.

Mesmo assim, durante esse período, as capacidades nuclear e de mísseis de Pyongyang continuaram crescendo. A Coreia do Norte realizou cinco testes nucleares durante os anos Bush e Obama, estocou plutônio para um crescente arsenal nuclear e concluiu o desenvolvimento de um foguete capaz de lançar um satélite ao espaço.

Ao longo do mesmo período, os norte-coreanos enfatizaram repetidas vezes que sua meta era o desenvolvimento de um arsenal nuclear capaz de manter os Estados Unidos a distância. Eles até mesmo lançaram um filme de propaganda de quatro horas expondo o tema de que as capacidades nuclear e de mísseis da Coreia do Norte eram essenciais para sua sobrevivência. O filme tem uma espécie de final feliz, ao menos se você for norte-coreano: Bill Clinton viaja para Pyongyang para reconhecer oficialmente a Coreia do Norte como uma potência nuclear.

Poucos americanos imaginariam que a versão da vida real dos eventos também terminaria assim. A maioria dos americanos disse a si mesmo que a Coreia do Norte entraria em colapso. Ou que os cientistas e engenheiros da Coreia do Norte nunca conseguiriam dominar a tecnologia de armas nucleares ou mísseis balísticos. Ou que se conseguissem, as ogivas seriam grandes demais para o míssil ou que queimariam na reentrada da atmosfera da Terra.

As sanções os deteriam ou deixariam este ou aquele Kim de joelhos. Que uma defesa antimísseis poderia abatê-los. No final, as autoridades americanas estavam insinuando que havia um programa secreto de sabotagem que adiaria o dia do acerto de contas. Os americanos imaginaram todo tipo de motivo para manter viva a fantasia de que ainda era 1991.

O problema é que poucos políticos ou oficiais americanos tinham a menor ideia de que como fazer isso acontecer. E quase nenhum estava disposto a reduzir as expectativas.

Os Estados Unidos agora devem aceitar que a Coreia do Norte tem armas nucleares e não as abandonará pelo futuro previsível. Isso não significa conceder alguma forma de reconhecimento legal ao status nuclear da Coreia do Norte, mas Washington deve aceitar que tem interesses além da simples desnuclearização. Que se importa em dissuadir a Coreia do Norte a atacar seus vizinhos. Que se importa em desencorajar a Coreia do Norte a vender suas tecnologias nuclear e de mísseis. Que se importa em tratar da terrível situação dos direitos humanos na Coreia do Norte. E que se importa em dissuadir aqueles no Japão e especialmente na Coreia do Sul que consideram o desenvolvimento de suas próprias armas nucleares como uma rota para a segurança. E acima de tudo, que tem interesse em evitar uma guerra nuclear na Península Coreana, um interesse compartilhado com a Coreia do Norte.

Não é muito popular nos Estados Unidos observar que tamanha potência compartilha alguns interesses com uma tirania miserável como a Coreia do Norte. Mas é isso o que dissuasão nuclear significa. Também não era uma coisa muito popular de se admitir a respeito da União Soviética ou da China de Mao Tsé-tung. Porém, se os Estados Unidos não reconhecerem isso, o atual ciclo de constantes avanços técnicos norte-coreanos, seguidos por trocas de ameaças e demonstrações cada vez mais provocadoras, continuará.

A Coreia do Norte já fez mísseis de longo alcance voarem por sobre o Japão e ameaçou atacar as águas em torno de Guam. O cenário de pesadelo é que a Coreia do Norte possa armar um míssil com uma ogiva nuclear e testá-lo no oceano, algo que Estados Unidos, União Soviética e China fizeram nos anos 60.

Eugene Hoshiko/AP

Conversar é necessário

Se Washington quiser escapar desse ciclo, é hora de conversar com os norte-coreanos, não sobre desnuclearização, mas sobre formas de acalmar os temores e melhorar as relações. Os dois antagonistas, juntamente com a Coreia do Sul e Japão, precisam encontrar uma forma de reduzir a tensão na Península Coreana. 

Isso pode incluir um congelamento dos testes tanto nucleares quanto de mísseis convencionais em troca de limites aos exercícios militares americanos e sul-coreanos. Eles também precisam pensar em crises de comunicação, como linhas diretas, e em medidas de transparência relacionadas às atividades militares. E, no final, precisam pensar em substituir o armistício, sob o qual os Estados Unidos e a Coreia do Norte permanecem em guerra, por um tratado de paz. 

Se tudo isso soa como uma vitória da campanha da Coreia do Norte para o desenvolvimento de armas termonucleares capazes de atacar os Estados Unidos, bem, realmente é. O primeiro teste nuclear da China ocorreu em outubro de 1964. Em fevereiro de 1972, o presidente Richard Nixon famosamente foi à China. Em 1979, os Estados Unidos tinham relações diplomáticas com a China e Deng Xiaoping fez uma visita de Estado à América. Armas nucleares conferem poder e status, quer gostemos ou não.

Se receber Kim Jong-un, o ditador de um país faminto, para um suntuoso jantar de Estado parece algo difícil de aceitar, isso é o triunfalismo de 1991 turvando o julgamento. Na insegurança de 2017, os americanos precisam aceitar que não contam com poder para simplesmente derrubar todos os ditadores que abusam dos direitos humanos ou ameaçam seus vizinhos.

Se alguém olhar mais atentamente, ficará claro que trata-se de uma ilusão de onipotência, nascida de um momento de triunfo e sustentada por esforços desesperados para prolongá-la, e que nos trouxe a uma Coreia do Norte armada com armas nucleares. Powell não viu as ameaças do futuro porque estava olhando para o lugar errado. Os vilões que perturbam os Estados Unidos e os demônios que desviam Washington nunca estiveram em Cuba ou na Coreia do Norte. Eles estavam em casa, dentro da própria América.

*Jeffrey Lewis

É um acadêmico do Instituto Middlebury de Estudos Internacionais em Monterey, Califórnia

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