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Os médicos jogam a toalha

150 equipes de saúde do Rio ficam sem médicos após demissão, e pacientes voltam à fila da emergência

Wanderley Preite Sobrinho* Do UOL, em São Paulo
Ricardo Borges/UOL
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Já faltava dipirona, seringa e até papel de impressora. Agora faltam médicos. Modelo elogiado, a saúde preventiva adotada no Rio de Janeiro há nove anos agora é sucata. Em uma questão de meses, os salários dos funcionários começaram a atrasar, os remédios sumiram das prateleiras e agora quem pede para sair das Clínicas da Família são os próprios médicos: levantamento a que o UOL teve acesso revela que, em seis meses, 150 especialistas pegaram o jaleco e se demitiram, deixando suas equipes de saúde sem profissional.

Criadas pela prefeitura em 2009, as Clínicas da Família tinham por meta se estabelecer nas comunidades para diagnosticar doenças com antecedência a fim de acelerar o tratamento, reduzir filas e os custos nos hospitais, muito mais onerosos. Quem é diabético, hipertenso, gestante, trata tuberculose ou HIV, procura atendimento direto com uma equipe. É ela quem acompanha os dois primeiros anos de vida dos nascidos e cuida de pequenos procedimentos, como unha encravada e drenagem de abcesso. 

A prefeitura nega que a renovação do quadro de médicos de família ofereça prejuízos à assistência, e afirma em nota que alguns dos profissionais deixaram a rede pública para investir em especializações ou por convites da rede de atenção privada. 

A crise na cidade se agravou a partir de 2015 e, desde agosto do ano passado, o município atrasa o repasse de verbas para as organizações sociais que cuidam das clínicas. Os salários começaram a demorar para cair na conta, até que a paciência dos médicos acabou. Nos últimos meses, pelo menos 150 médicos abandonaram a saúde pública, deixando 90 das 217 unidades de atenção básica sem um profissional.

Como cada médico da família é responsável por uma área de 3 mil pessoas, estima-se que 450 mil pacientes deixem de receber atendimento nas comunidades, a maioria em áreas em vulnerabilidade social, como Acari, Maré, Alemão e Santa Cruz. Na prática, cada médico realiza 400 consultas e 20 visitas domiciliares por mês. São 63 mil atendimentos a menos a cada 30 dias.

A pesquisa foi tocada pelo Comando de Greve dos Médicos da Atenção Primária do Rio, formado pelos próprios especialistas das clínicas, em greve parcial desde que os salários começaram a atrasar. O número de médicos demitidos é provavelmente maior porque o levantamento conseguiu coletar as informações de 30% das 1.297 equipes da família --composta por um médico, um enfermeiro, um técnico de enfermagem, cinco agentes comunitários e, para cada três equipes, um dentista. 

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'Ficamos sem remédio, sem copo d'água'

Graciele Guerra de Andrade, 36, é uma delas. Foi demitida com outras 15 dentistas, 15 auxiliares e 31 técnicos de saúde bucal em outubro do ano passado. Ela trabalhava há seis anos na atenção básica carioca. “Quando anunciaram as demissões, me coloquei como opção. Já estava cansada.”

O atraso salarial foi só a gota d’água. “A saúde da família começou a ser difundida, a odontologia nos postos estava funcionando, e, então, a atenção básica foi abandonada. Já trabalhava em comunidade, em ambiente hostil, mas de repente [algumas clínicas] ficaram sem remédio, sem copo d'água. Eu não tenho mais vontade de voltar.”

Em seus últimos meses, viu algumas clínicas sem ácido fosfórico, “que a gente passa no dente antes da restauração. Sem ele não dá”. Também começou a faltar compressor de ar, responsável por ativar o famoso “motorzinho”, indispensável na hora de obturar dentes. 

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Júlia Morelli Rosa, 36, pediu demissão em fevereiro. Trabalhava na clínica Ana Maria Conceição, zona norte do Rio, formando novos residentes em medicina da família.

Eu não tinha a mínima vontade de sair, gostava muito de trabalhar ali, me dói ter saído. Mas foi uma questão salarial. O meu trabalho é uma renda importante, mas, desde os atrasos, eu não conseguia organizar as contas.”

Em seguida, “teve a crise da farmácia”. “Eu sentia mais falta dos medicamentos para doenças mentais. A gente lida com pacientes que não têm dinheiro para comprar dipirona na farmácia, quanto mais os remédios de esquizofrenia e depressão.”

Médico da família há oito anos, Luís Henrique Gonzaga, 40, foi o primeiro na comunidade do Acari, zona norte. Ele decidiu pedir demissão em dezembro do ano passado. “O salário estava atrasado há mais de 40 dias. Recebi uma proposta da rede privada, pesei e vi que valia a pena.”

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Na Clínica Molequinho do Império, em Madureira, o médico Gustavo Treistman, 30, conta que duas equipes estão sem médicos e, em outras três, os especialistas trabalham 20 horas, metade do tempo necessário. “Precisamos de 240 horas de trabalho médico, mas contamos com apenas 100 horas.”

A solução encontrada pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), para reduzir os pedidos de demissão gerou polêmica. Em fevereiro, ele anunciou a substituição de 300 contratados --que ganham em média R$ 12 mil por 40 horas semanais-- por servidores que já trabalham na rede municipal e que passariam a ganhar R$ 9 mil.

“A adesão é incipiente”, garante o médico Carlos Vasconcellos, 52, da Clínica da Família Jeremias Morais da Silva. “Até agora, tivemos relatos de 13 comparecimentos de médicos nas três reuniões com servidores agendadas para este fim.” Questionada sobre essas adesões, a prefeitura não respondeu até o fechamento da reportagem.

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'Fiquei sem médico'

A aposentada Genilda Nogueira Bocornio, 52, recebia em casa a visita de um médico a cada três meses. Cadeirante desde os 2 anos e hipertensa, ela precisava do atendimento domiciliar para cuidar da saúde. “O médico vinha até o meu quarto me atender. Nunca teve problema de entrar na comunidade. Até dentista já veio me ver.”

De repente, conta, os remédios para a pressão acabaram e seu médico, sem salário, pediu as contas.

Ele me ajudava até com exames. Era um médico de família mesmo. Meu pai, minha mãe, todo mundo tratava com ele.”

Assim que o especialista se foi e ela precisou de uma mamografia, recorreu ao Hospital da Mulher, na Baixada Fluminense. “Na sala de testes não tinha acesso a cadeirante; muitos hospitais públicos aqui não estão totalmente adaptados.”

A doméstica Isabel Cristina dos Santos, 39, se consultava na Clínica da Vila Kosmos, na zona norte do Rio, há quatro anos. Ela cuidou de uma depressão; seu marido, de diabete e tuberculose. “A minha médica me tratava há quase cinco anos. Era de confiança.” No fim de março, buscou ajuda para uma conjuntivite.

Cheguei lá e estava tudo parado e quase sem médico. Agora eles formam grupos e tentam atendimento coletivo, mas não é igual"

Genilda Nogueira Bocornio, aposentada

'Uma tarde toda esperando'

Sem a clínica, o jeito é procurar as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), “mas tem muita fila. A gente passa uma tarde toda esperando e não consegue. Falta remédio lá também.”

Na quarta-feira (21), quem precisou recorrer à Upa de Copacabana, na zona sul, demorou pelo menos sete horas para ser atendido, segundo os próprios funcionários. Um médico que preferiu não se identificar conta que por lá também faltam medicamentos. “Há duas semanas a gente não tinha nem dipirona. Benzetacil é só para sífilis. Não posso fazer para amigdalite. Eles dizem que amigdalite pode ser tratada com amoxicilina,  mas atendemos pacientes que não têm dinheiro para comprar.”

Além da redução de médicos e remédios, os funcionários das unidades estão há dois anos recebendo os vencimentos atrasados, incluindo o 13º salário dos dois últimos anos. “São dois clínicos quando deveriam ter pelo menos três no atendimento”, contou um funcionário da UPA de Copacabana, estadual, mas também administrada por uma OS. 

Eduardo Knapp/Folha Imagem Eduardo Knapp/Folha Imagem

Ao UOL, o presidente do Cremerj (Conselho Regional de Medicina), Nelson Nahon, conta que a falta de médicos no programa da família “ajuda a sobrecarregar” o funcionamento das UPAs. Mas quem não encontra um médico da família também recorre aos seis hospitais municipais, também lotados.

A prefeitura justifica o corte de gastos com a crise financeira enfrentada pelo governo municipal. A redução nos investimentos em saúde básica, no entanto, deve aumentar as despesas gerais, uma vez que é mais caro tratar um paciente com uma doença já estabelecida. 

A Secretaria Municipal de Saúde informou à reportagem que os atendimentos em emergência subiram de 72,9 mil em 2016 para 74,2 mil entre janeiro e novembro do ano passado (os dados de dezembro ainda não foram consolidados).

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Mestre em Saúde Coletiva, Luiza Furtado e Silva defendeu em sua dissertação para a UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) que o Estado de Minas economizaria 20% da verba gasta em saúde caso priorizasse a atenção básica, como acontece em países desenvolvidos. 

“Na Inglaterra, a atenção primária ocupa papel principal da assistência à saúde. O usuário é bem acompanhado em todos os ciclos da vida”, afirmou ao UOL. “Alguns autores afirmam que 85% dos agravos em saúde são potencialmente resolvidos neste nível de atenção”, reduzindo gastos hospitalares."

Consultora especializada em gestão, prevenção e promoção de saúde, Neusa Pellizzer lamenta o desmonte na assistência básica carioca.

Esse é um exemplo de desperdício: depois de estruturar tudo, começa a desmontar porque não consegue pagar as equipes ativas.”

Na iniciativa privada, é o oposto. “Alguns grupos grandes de saúde estão adotando atenção primária para seus funcionários. E se estão fazendo para o próprio grupo é porque já enxergaram resultados.”

Em 2009, quando as Clínicas da Família saíram do papel, a cidade tinha 20% do território atendido pela atenção básica. No final do ano passado, era 70%. Questionada, a prefeitura não comentou o provável aumento de gastos com a saúde provocado pela redução de verba para a atenção básica nem se manifestou sobre a falta de insumos e remédios nas Clínicas da Família. 

“Meu desejo é que não volte tudo pra traz”, torce dona Genilda. 

Que os médicos retornem o mais rápido possível porque precisamos deles como munca"

Genilda Nogueira Bocornio, aposentada

Ricardo Borges/UOL Ricardo Borges/UOL

Outro lado

Em nota, a Subsecretaria de Promoção, Atenção Primária e Vigilância em Saúde do Rio de Janeiro disse que a "renovação do quadro de médicos de família não oferece prejuízos à assistência". O órgão disse que alguns dos profissionais deixaram a rede pública para investir em especializações ou por convites da rede de atenção privada. Também citou a violência como um motivador. 

"Atualmente, 91.3% das 1.292 equipes da cidade estão completas", informou a secretaria, que acrescentou a existência de 300 vagas para residentes de primeiro e segundo anos no Programa de Residência de Medicina de Família e Comunidade. 

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