Batalha naval feminina

Com baixa natalidade, Japão tem falta de homens na Marinha e tenta ampliar espaço para mulheres

Kim Kyung- Hoon Da Reuters
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No maior navio de guerra do Japão, o Kaga, um grupo de mulheres assumiu a linha de frente de uma missão especial: transformar a Marinha japonesa -- onde os homens são 90% do contingente -- em um lugar mais inclusivo.

A Força de Autodefesa Marítima (FAM) precisa de mulheres, já que as taxas de natalidade em queda impactam em poucos homens para tripular navios de guerra ou porta-helicópteros, em um momento em que o Japão se prepara para conter a crescente influência regional da China.

"No mundo inteiro, mulheres estão trabalhando em cada vez mais áreas, e acho que o Japão precisa fazer parte disso", disse a oficial Akiko Ihara, 31, ao lado de um dos helicópteros que ela ajuda a manter.

A proporção de mulheres na equipe de 450 militares do Kaga é de cerca de 9% -- acima da média vista no exército japonês (6%). O país quer chegar a essa proporção em todas as Forças Armadas até 2030. Ainda assim, o Japão ainda ficaria aquém dos EUA, onde 15% dos militares são mulheres, e do Reino Unido, com 10%.

"Todos trabalhamos em equipes diferentes no navio, mas somos todos amigos", acrescentou Ihara. "Às vezes nos lamentamos um pouco sobre nossos colegas homens".

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Há nove anos na Marinha, a veterana diz que não enfrentou discriminação no local de trabalho e desafia os homens que acham que as mulheres não são adequadas para a vida militar.

Mais mulheres recrutas estão tornando a FAM uma organização mais equilibrada, disse Ayako Yoneda, 29, bombeira e engenheira do Kaga.

"Quando entrei há nove anos, havia poucas mulheres e parecia que os homens não sabiam como lidar conosco", disse ela. "Eu acho que os homens agora veem as coisas mais da nossa perspectiva. A FAM se tornou um lugar mais gentil."

No entanto, as mulheres enfrentam o assédio sexual. Em julho, a Marinha dispensou um suboficial homem por beijar e apalpar três marinheiras durante vários meses.

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As preocupações demográficas do Japão forçam o país a tomar um caminho trilhado anos antes pelos Estados Unidos, que suspendeu a proibição de mulheres em navios de guerra em 1993.

A FAM, que permitiu mulheres em navios há uma década, pode em breve eliminar a última grande barreira enfrentada pelas marinheiras e acabar com a proibição de trabalho em submarinos.

O Japão tem uma das maiores marinhas do mundo, com 45 mil tripulantes em mais de cem embarcações, incluindo cerca de 20 submarinos, mais de 40 destróieres e quatro porta-helicópteros, como o Kaga.

O Kaga estava a caminho do Sri Lanka após exercícios no contestado Mar do Sul da China, como parte de um treinamento de dois meses em águas que se estendiam do Pacífico Ocidental ao Oceano Índico.

Encomendada em 2017, a embarcação faz parte de uma nova geração de navios de guerra projetados para tripulações mistas, com mais banheiros e vestiários do que embarcações mais antigas.

Sinais na entrada dos quartos exclusivos para mulheres alertam para que os homens fiquem de fora. As mulheres no interior do navio carregam pagers eletrônicos que podem ser contatados por meio de teclados numéricos ao lado das portas.

Essas melhores instalações e salvaguardas de privacidade atrairão mais mulheres, espera a FAM.

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A Marinha do Japão tem mais dificuldades para encontrar recrutas do que a Força Aérea ou o Exército. Os jovens não querem se desligar das redes sociais durante os longos destacamentos.

Em 2016, por exemplo, a Força Aérea recebeu 6.900 inscrições, contra apenas 3.927 para a FAM, embora ambas tenham aproximadamente o mesmo número de funcionários alistados.

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Miku Ihara, 22 anos, cadete da Kaga, diz que lê ou estuda quando está de folga no navio, mas sente falta do acesso a aplicativos como o Line e o Instagram. Os marinheiros são limitados a enviar quatro e-mails de texto todos os dias quando estão no mar.

"Você só tem que se acostumar a não ter acesso e aproveitar ao máximo quando tem", acrescentou.

A presença de mulheres a bordo trouxe uma mudança de comportamento nos homens, disse o comandante-chefe do comando Yasuharu Tohno, o mais graduado marinheiro a bordo.

"Eles fazem a barba regularmente e passam suas roupas", afirmou Tohno, que se juntou a uma frota exclusivamente masculina há 35 anos.

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