Saem as bombas, volta a música. Diminui a guerra, voltam os casamentos.
Ao menos em Damasco, a capital da Síria, parte da população consegue aproveitar uma quase normalidade. Desde maio, os combates na região cessaram, o que faz da área um oásis em meio à guerra.
Mantido a salvo pelo governo, o centro da capital sofreu muito menos danos do que as áreas controladas pela oposição - evidência do enorme abismo de poder de fogo entre os dois lados.
Marko Djurica/Reuters Partes da região de Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco, foram totalmente destruídas durante uma ofensiva do governo na última primavera para derrotar os rebeldes.
Quando a área se rendeu, milhares de combatentes e civis evacuaram Ghouta, sob escolta, e foram para as áreas controladas pela oposição no norte da Síria. Outros decidiram ficar.
Ao lado, o distrito de al-Khalidiya, na cidade de Homs, retomada pelo governo após uma série de bombardeios aéreos em 2013. Hoje, é uma cidade fantasma.
O risco de ser atingido por balas ou foguetes perto da capital já passou, mas as condições no centro de Damasco, com sua vida noturna agitada e o movimentado distrito comercial, parecem um mundo distante das dificuldades de Ghouta Oriental.
O sucesso do presidente Bashar al-Assad na guerra deve muito à Rússia, que em 2015 entrou no conflito apoiando-o. Agora, os soldados russos fazem parte da paisagem das áreas controladas pelo governo.
Mesmo durante os combates, as pessoas em Damasco saíam à noite para comer, beber e dançar. Mas neste verão, os bares e restaurantes da Cidade Velha estavam muito mais movimentados.
Marko Djurica/Reuters Durante a guerra, quando as bombas caíam, podia haver vários dias sem clientes, mas nunca paramos de trabalhar", Dana, atendente de bar de 24 anos.
Ela falava com a reportagem da Reuters enquanto preparava um coquetel.
Barbearias fazem bons negócios e cafés se espalham pelas ruas de paralelepípedos da Cidade Velha nas noites de fim de semana.
Marko Djurica/Reuters Este foi o primeiro verão desde 2011 sem o som de combates em Damasco. Em um casamento fora da cidade, o barulho vinha da banda de rock estudantil Kibreet - um baterista, dois guitarristas e uma cantora.
O noivo era carregado nos ombros de seus amigos e familiares, enquanto as pessoas aplaudiam. Ele girou a noiva nos braços, e o vestido branco balançava ao vento.
Apenas a alguns quilômetros de distância, na cidade de Douma, em Ghouta Oriental, o entulho está por toda parte. Em um prédio com marcas de balas, um jovem no quinto andar removia detritos de uma sacada, preparando o apartamento para ser reutilizado.
Ruas inteiras estão destruídas. Em um dos maiores hospitais da região, onde enormes buracos de bombas decoram as paredes, médicos operam no porão.
Uma mulher segurava um menino em uma cama, que fazia careta enquanto esperava a injeção. Nas ruas devastadas, um garoto empurrava um carrinho vendendo espigas de milho cozido entre edifícios arruinados.
Os bombardeios em Douma só terminaram há alguns meses, e a reconstrução é algo ainda distante.
A Síria não pode pagar por isso. Seus aliados mais próximos, Rússia e Irã, também não deram sinais de que vão ajudar. E as nações ocidentais não dão dinheiro sem uma transição política.
No distrito de al-Khalidiya, em Homs, retomado pelo governo em 2013, fica evidente que a reconstrução avança muito lentamente. Grande parte do local ainda é uma cidade fantasma, desabitada e fechada pelo exército.
Em uma área, meninos jogavam bola próximo de prédios tão bombardeados que pisos e tetos estavam pendurados. O gol era feito de dois tambores de petróleo enferrujados. Duas hastes espetadas nos tambores davam apoio para uma corda amarrada, formando um travessão.
Marko Djurica/Reuters "O souk (espécie de bazar) coberto costumava ser cheio de gente, mas agora poucas pessoas chegam a esta área" Abu Fares, dono de uma loja na Cidade Velha de Homs.
Mesmo entre os jovens que desfrutam da vida noturna em Damasco, o desafio da longa e lenta recuperação econômica à frente faz muita gente pensar em partir.
Marko Djurica/Reuters "Eu gosto do meu trabalho. Eu gosto de bares e da vida noturna aqui. Mas no final eu gostaria de sair da Síria. Eu não vejo um futuro aqui" Rasha, 30 anos e dona de um bar.
Quando houve guerra aqui e tivemos bombas caindo todos os dias, nunca quis sair. Mas agora, sim
![]()