Casas de garrafa? Será que elas aguentam? Não vão cair? Eu pedia para os meus filhos não se apoiarem nas paredes
A primeira impressão de Lupita Jiménez, que perdeu a casa no terremoto de 19 de setembro no México, foi uma mistura de ceticismo e agonia. Uma organização do país, Viem-MX, propôs construir uma casa com garrafas plásticas que um dia serviram para o armazenamento de bebidas como Coca-Cola, Pesi ou Fanta. Agora, seriam as paredes de onde ela moraria com duas crianças pequenas.
Mas no último mês, ao ver o resultado e receber as chaves do novo lar, no Estado de Morelos, ficou satisfeita. "Estou muito contente e agradecida pelo apoio. Agora que estou vendo, parece forte e resistente", disse.
A ideia de produzir casas com PET (politereftalo de etileno, um tipo de plástico) surgiu durante uma catástrofe. Em setembro do ano passado, um terremoto de 7,1 graus deixou mais de 370 mortos, pelo menos 7 mil feridos e 12 mil pessoas sem casa na Cidade do México e arredores.
Algumas horas depois do acontecimento, em meio a casas no chão e edifícios colapsados, as ruas e praças da capital mexicana se encheram de voluntários levando comida e garrafas d'água. O México é o segundo maior consumidor de garrafas PET para refrigerantes do mundo, atrás apenas dos EUA, e o primeiro mercado em garrafas plásticas para água.
Vanessa Rendón, 25, estava trabalhando na cidade de Querétaro quando sentiu os tremores - os piores no país desde 1985, e por coincidência, também em um 19 de setembro.
Na hora, ela correu para a sua natal Cidade do México e ver como poderia ajudar. Ao ver as montanhas de garrafas de plástico que se acumulavam entre os desabrigados, disse a um amigo arquiteto: "Vamos fazer casas com garrafas PET!". E assim surgiu a "Viviendas (habitações) Emergentes" (Viem MX), uma organização nascida do meio dos escombros da maior tragédia mexicana recente.
Pelas redes sociais, a arquiteta começou uma campanha para arrecadar mais garrafas. Em um mês, recolheu 1 milhão de garrafas e montou uma equipe de arquitetos, engenheiros e assessores de comunicação.
Viem MX / Divulgação Com a matéria-prima em mãos e depois de estudar as áreas mais vulneráveis, começou a construção das casas em zonas rurais atingidas pelo terremoto. O processo inicial foi lento. Quase um ano após o terremoto, foram quatro casas entregues, três em processo de construção e 15 planejadas.
Para as próximas casas, a população será treinada e participará do processo.
"O objetivo é que a comunidade aprenda e não precise da gente para reconstruir. Assim, poderemos migrar para outro lugar para replicar o mesmo programa", disse Rendón.
Os participantes também aprenderão conceitos de economia circular e economia solidária, de forma a saber aproveitar ao máximo muitos os materiais que consomem, evitando desperdícios. Mais do que casas, a ideia é dar aos participantes noções de vida sustentáveis.
Viem MX / Divulgação A primeira casa produzida pela Viem-MX tinha apenas um cômodo e dez metros quadrados. Foram usadas quase 4.000 garrafas PET cheias de areia, terra e entulhos. As garrafas foram encaixadas em estruturas metálicas, posteriormente forradas com cimento. A construção levou dez dias.
Mais tarde, com a ajuda de engenheiros e incorporando outros materiais, como garrafas de vidro, pallets de madeira, papelão e até isopor reciclado, construíram-se casas de 30, 42 e até 90 metros quadrados.
"Levamos aproximadamente três meses em cada projeto (...) São casas com todos os serviços: luz, instalações hidráulicas sanitárias, sala de jantar, cozinha e banheiro. Têm um, dois ou até três quartos. Estamos adaptando as casas às necessidades de cada família para que realmente seja uma residência", disse um arquiteto da Viem-MX.
Segundo a organização, as casas têm durabilidade de 30 anos. São impermeáveis, isolantes, resistentes aos abalos sísmicos e mais baratas do que aquelas feitas com outros materiais.
A casa de Lupita, de 30 metros quadrados, custou 75 mil pesos (cerca de R$ 16 mil). Se produzida de forma tradicional, teria custado até 110 mil pesos (R$ 23,5 mil). Para preencher as paredes, a organização já analisa uma aliança com empresas que fabricam cimento a partir de resíduos de lã.
Segundo a ONU, 8 milhões de toneladas de plásticos terminam a cada ano nos mares e oceanos. Até 2025, estima-se que esse número chegue a 50 milhões de toneladas. Uma garrafa PET leva até 500 anos para se decompor, segundo o Greenpeace.
No México, o uso de garrafas PET é um dos maiores do mundo: o país consome 9 bilhões de garrafas por ano (722 mil toneladas). O país é líder em reciclagem de PET na América Latina, com números de até 50,4%, mas isso se deve em grande parte ao alto nível de consumo de refrigerantes e água engarrafada em plásticos. Em 2014, um mexicano médio consumiu 234 litros de água, o que equivale a gerar até 21 milhões de garrafas PET.
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