Atropelamento e fuga

Motorista fala após 5 anos: "Não o atropelei"; vítima diz que o perdoa: "Nada trará meu braço de volta"

Gabriela Fujita Do UOL, em São Paulo

O encontro entre as vidas de David Santos Sousa e Alex Siwek foi muito rápido, mas tão chocante que deixou sequelas permanentes. Os rapazes se cruzaram na avenida Paulista (região central de São Paulo) em uma madrugada de março de 2013: um de bicicleta, o outro de carro. Os dois tinham 21 anos de idade. A colisão entre os veículos deixou o ciclista David sem o braço direito, e Alex passou a ser conhecido como o motorista que fugiu sem prestar socorro e atirou o membro decepado de uma pessoa num córrego.

A reportagem do UOL conversou com os dois jovens cinco anos e meio depois. Pela primeira vez, Alex fala publicamente sobre o caso – na época, a história foi amplamente divulgada pela imprensa e nas redes sociais.

Nos relatos dos dois, não há rancor nem desdém. Talvez um pouco de consternação sobre o que eles já poderiam ter alcançado se não tivessem se encontrado naquelas circunstâncias. Porém, as versões deles sobre o que aconteceu não coincidem: o ciclista diz que foi atropelado pelo motorista; o motorista afirma que não provocou o acidente. Até hoje, não se chegou a um acordo na Justiça, e os processos criminal e de indenização ainda correm.

Durante as entrevistas, David foi fotografado com a bicicleta que usa no dia a dia como meio de transporte e deu entrevista sozinho, sem a presença do advogado; Alex pediu para não ter suas imagens publicadas, por receio de ser reconhecido e insultado, e estava acompanhado do advogado e do pai.

Como estão agora os dois envolvidos nessa triste história? O que mudou em suas vidas? O que um diria para o outro cara a cara? Veja trechos das entrevistas nos tópicos abaixo.

Amanda Perobelli Amanda Perobelli

Duas histórias para o mesmo fato

O choque entre a bicicleta de David e o carro de Alex aconteceu na madrugada de um domingo, por volta de 5h30. O ciclista estava a caminho do trabalho. Ele limpava fachadas de prédios para uma empresa de rapel industrial. Alex voltava de uma balada com um amigo. Testemunhas afirmaram que ele dirigia em zigue-zague pela avenida Paulista.

De acordo com a investigação policial, o motorista fugiu sem prestar socorro e se apresentou a um posto da Polícia Militar momentos mais tarde, quando foi preso em flagrante. Ele confessou que ingeriu bebida alcoólica naquela noite -- investigadores da Polícia Civil encontraram o seu cartão de consumo em um bar com três doses de vodca marcadas.

Segundo informações divulgadas na época pela polícia e pelo Ministério Público, Alex estava sob efeito de álcool no momento do acidente. O rapaz se recusou a fazer coleta de sangue ou de urina, mas passou por um exame clínico, seis horas depois, que deu negativo para embriaguez.

Embora tenha, num primeiro momento, se apresentado como o autor do atropelamento, os advogados do motorista defendem uma versão diferente para o que aconteceu: a defesa de Alex contratou a realização de um laudo técnico (além do que foi feito pela polícia) com base nas evidências recolhidas pelos peritos no local.

Esse documento, apresentado pelos advogados à Justiça mais de um ano depois do acidente, aponta que o motorista não conduzia acima do limite de velocidade e que, a partir das imagens de câmeras no local e das provas reunidas na investigação policial, não há como concluir que ele atropelou o ciclista.

Há divergências entre o que cada um dos envolvidos conta sobre o episódio:

  • David afirma que, após ser atropelado pelo carro de Alex na ciclofaixa, caiu no chão sem o braço direito. Ele foi amparado por dois homens que passavam a pé pelo local e fizeram os primeiros socorros. O ciclista diz que os integrantes de um Celta preto, que também trafegava pelo lado da avenida Paulista onde se deu o acidente, testemunharam à polícia e confirmaram sua versão.

  • Alex afirma que se lembra de flashes do que ocorreu e diz que não invadiu a ciclofaixa nem provocou a colisão. O Celta, em sua versão, seria o veículo mais próximo do ciclista. Seu carro estaria no meio da avenida. Ele diz que bebeu, mas apenas uma dose de vodca com energético, no início da madrugada, o que não teria interferido na sua conduta ao volante, em sua opinião. As outras doses marcadas em seu cartão do bar foram pagas a duas amigas. Um amigo de Alex que estava no banco do passageiro afirmou em depoimento que estava dormindo no momento da colisão e não viu o que aconteceu, mas foi ele quem alertou o motorista sobre o braço da vítima dentro do carro.

Já caí sem respiração e sem batimento cardíaco, até o Thiago e o Agenor [os homens que o ajudaram] saírem do metrô e fazerem os primeiros socorros. Foi quando eu retornei à vida. Eles fizeram massagem cardíaca e trabalho de estancamento de sangue até a ambulância chegar. Se eles não tivessem feito os primeiros socorros, eu estaria morto. Eles conseguiram salvar a minha vida

David Sousa, ciclista

Ouvi muitas pessoas gritando: 'Para! Filho da puta'. Fiquei com muito medo de linchamento, na hora. Por causa disso, eu parti com o carro. Fui deixar meu amigo, porque não queria que ele se envolvesse. Ele não tem nada a ver com isso. Eu fiquei desesperado, me deu um choque, um desespero repentino mesmo, eu não conseguia pensar em nada, só pensava que eu havia matado o David

Alex Siwek, motorista

O braço que nunca foi encontrado

A primeira coisa que David ouviu dos médicos no hospital foi que ele não ia mais poder fazer algumas coisas como antes. "E que, a partir dali, eu era uma pessoa especial. Não falei nada, mas fiquei com aquilo na cabeça. Quando eu vi minha mãe, pensei: Isso não pode acontecer comigo, não posso me tornar dependente dela. Falei que ela não tinha motivo para estar chorando, porque eu ainda estava vivo e isso era um motivo de alegria, não de tristeza."

O braço do ciclista foi jogado fora por Alex no percurso do local do acidente até o prédio onde mora com os pais. O membro nunca foi encontrado. "Descartei o braço em um córrego, deixei o carro em casa e me entreguei para a polícia. Achei que tinha matado o moleque", diz o motorista. "Foi tudo muito rápido. Desde o acidente até eu descartar o braço e me entregar foi uma coisa que foi piorando, uma bola de neve mesmo, eu fiquei muito nervoso."

Isso eu fiz errado, estava fora de controle, mas não deveria ter descartado o braço."

Alex Siwek, motorista do carro

Eu o perdoo, mas nada trará meu braço de volta."

David Sousa, ciclista

David passou por oito meses de fisioterapia para se adaptar à perda do braço e às dores no local da amputação. "Eu aprendi que o cérebro é o que manda em tudo. Cada dia depois do acidente, eu tinha que colocar na minha cabeça que eu não tenho mais o braço", diz o ciclista. "Eu ainda o sinto, só que, na minha cabeça, já está colocado que eu não tenho mais o braço."

Quatro meses após a amputação, ele ganhou um braço biônico (avaliado em R$ 300 mil) de uma empresa de Sorocaba (SP) especializada em próteses. A peça é muito sensível aos comandos e permite movimentar todos os cinco dedos, o punho e o cotovelo, mas, na prática, é de pouca utilidade nas atividades de David. Ela não pode ser usada para andar de bicicleta nem para dirigir. No transporte público, em um dia muito quente, é preciso vesti-la com o suporte de uma faixa no tórax. E com o suor, a peça de 2,7 kg escorrega do coto e cai.

Como os processos estão em andamento na Justiça, David ainda não recebeu os valores solicitados de indenização. E afirma que, para ele, é muito caro fazer a manutenção da prótese biônica.

"Eu me sinto mal porque eu joguei o braço", afirma Alex. "O que realmente poderia ter sido diferente nessa história, se eu não tivesse perdido o controle, é ter devolvido o braço, que as coisas voltassem ao normal, que não fosse uma coisa tão horripilante, um negócio tão macabro."

Em junho de 2014, Alex foi condenado por lesão corporal em um primeiro julgamento.

Sonhos interrompidos

A vida adulta dos dois jovens estava se iniciando quando a colisão entre eles aconteceu. David estava concluindo o ensino médio, por meio de um curso supletivo. Alex não trabalhava e estava no segundo ano de psicologia na faculdade.

"A minha intenção era me tornar um psicólogo, poder ajudar as pessoas, poder ser uma pessoa solidária, ter contato com o ser humano", afirma o motorista.

"Na época, eu era muito inocente. Eu não via quanto o ser humano podia ser ruim. Eu tinha essa vontade de poder ajudar as pessoas. Isso não aconteceu."

O rapaz, que hoje tem 27 anos, ainda mora com os pais. Suspendeu o curso de psicologia e agora está no último ano de administração.

David, com a mesma idade, está desempregado desde 2017. Antes do acidente, queria fazer faculdade de arquitetura. Hoje, mora com a namorada, com quem divide os gastos.

"Com 21 anos, eu já estava trabalhando em uma empresa, já estava terminando o ensino médio e já ia começar um curso técnico na área em que eu estava trabalhando [segurança do trabalho]. Terminaria o curso em um ano e meio, faria faculdade de arquitetura para mexer com plantas [de edifícios]", afirma o ciclista.

"Minha vida mudou bastante, tive que me recuperar o mais rápido possível. Eu morava sozinho [antes], e eu não poderia voltar a depender da minha mãe para tudo. Eu fiquei na casa dela durante oito meses."

O foco é a minha situação financeira. Primeiro, eu tenho que me estabilizar para concluir o curso técnico e para poder fazer a faculdade. Porque, para ter faculdade, você precisa pagar. E para pagar, você precisa ter dinheiro. E para ter dinheiro, você precisa trabalhar. Depois do acidente, eu me coloquei uma meta, mas ficou um pouco difícil com toda essa situação que eu venho passando."

David Sousa, ciclista

O meu futuro? Eu não posso te dizer que tenho algum plano. Eu estou preso, me vejo muito preso a isso [ao acidente]. Eu trabalho, faço minhas coisas, mas eu não consigo me ver num futuro brilhante ou em alguma coisa que vá me fazer uma pessoa de sucesso. Porque eu estou preso a isso. Eu tenho que esperar as coisas se resolverem, o processo terminar."

Alex Siwek, motorista

Depressão e falta de liberdade

No dia da colisão entre seu carro e a bicicleta, assim que se entregou no posto da Polícia Militar, Alex foi encaminhado para uma delegacia. De lá, foi levado para a prisão, onde permaneceu por 12 dias. Ele responde ao processo em liberdade desde então por conta de um habeas corpus conseguido por seus advogados, num primeiro momento, e por uma decisão da Justiça que reduziu sua pena e a substituiu por serviços prestados à comunidade.

O rapaz afirma que, por pelo menos um ano, se isolou em casa, saindo pouco, apesar da insistência dos amigos. Passou por atendimento psicológico e psiquiátrico e teve diagnosticado um quadro de depressão. Diz que toma medicamentos até hoje.

Eu tenho depressão, sou uma pessoa depressiva, tomo remédios por tudo isso. Foi depois do acidente que eu comecei a ter a depressão."

Alex Siwek, motorista

"Eu não saía muito de casa, porque as pessoas me martirizaram muito depois do acidente. Eu estava com muito medo de sair, de até ser reconhecido, a pessoa partir para a ignorância ou falar alguma coisa, porque eu já estava muito fragilizado", acrescenta.

Alex começou a trabalhar seis meses após o acidente como vendedor de máquinas metalúrgicas, na mesma empresa onde o pai é funcionário. Ele conta que, durante uma feira, foi reconhecido e xingado por um homem.

"Eu fui ao banheiro, lembro de um cara olhar para mim e falar: ‘Olha lá o rapaz do braço’. Isso me deixou muito mal na hora", diz.

Outros episódios desse tipo aconteceram, de acordo com Alex. Cerca de um ano e meio depois da colisão do carro com a bicicleta, um veículo parou em frente ao prédio onde ele mora, de madrugada, e alguém gritou: "Cadê o braço, filho da puta?"

"Já aconteceu de um cara olhar para mim e me xingar: 'Você é um filho da puta, você podia ter parado e ajudado o moleque, onde você enfiou o braço, no cu?' Coisas que realmente me traumatizaram."

David, que trabalhava antes de perder o braço, só voltou ao trabalho dois anos mais tarde. Ele tem direito a receber um benefício mensal da Previdência Social e também pôde sacar o seguro de vida pago pela empresa de limpeza de fachadas. Nos oito primeiros meses, porém, ele não recebeu nada.

Estava vivendo às custas da minha mãe e do marido dela. Algumas pessoas chegaram a ajudar, fizeram arrecadação [de dinheiro] no primeiro e no segundo mês. E eu recebi de coração aberto, porque realmente precisava."

David Sousa, ciclista 

Para não perder o ano na escola, ele gravava as aulas, voltava para casa e contava com a ajuda da cunhada, que escrevia tudo em seu caderno. "Eu era destro, não fazia nada com a esquerda. Depois do acidente, tive que fazer tudo ao contrário. Minha mão esquerda tinha que ser a direita, e a esquerda, fazer tudo."

Ele voltou a pedalar cinco meses depois da cirurgia de amputação, com os comandos de freio e troca de marchas das duas rodas adaptados para a mão esquerda.

Marcas para sempre

A mãe de David sempre trabalhou como empregada doméstica e tem o hábito de acordar muito cedo. Foi pela TV que ela soube do acidente com o filho, e o primeiro contato só ocorreu quando ele acordou da cirurgia de amputação. David já não morava com a mãe havia alguns anos, mas foi preciso voltar para a casa dela para fazer a recuperação.

É em homenagem a ela a tatuagem que ele tem no antebraço esquerdo: "Antonia". Após a perda do braço direito, o ciclista fez quatro registros na pele. Os mais simbólicos são o nome da mãe e um desenho na lateral direita do corpo, abaixo das costelas: um tigre com as garras para fora se desvencilhando de um dragão.

"O tigre, quando está encurralado, ataca ou foge. Nessa tatuagem, ele está fugindo, porque o dragão é muito maior e muito mais forte do que o tigre. A melhor escolha para ele é fugir", diz David.

No meu caso, eu morri [no atropelamento]. O meu dragão é a morte. É o único mal irremediável, e eu consegui sair dela. O tigre fugindo da morte, ou eu fugindo da morte."

David Sousa, ciclista

Inicialmente, Alex teve a carteira de habilitação suspensa por cinco anos e foi condenado a seis anos de prisão em regime semiaberto. Três anos depois do acidente, sua pena foi reduzida: dois anos de prisão em regime aberto e oito meses de suspensão do direito de dirigir – a prisão foi substituída por serviços à comunidade e pagamento de 50 salários mínimos.

Mesmo autorizado a dirigir, ele diz que nunca mais fez isso.

Eu não dirijo faz cinco anos e meio. E eu ainda tenho receio de tirar carta."

Alex Siwek, motorista

"Hoje, em São Paulo, a gente tem que dirigir pelos outros. Tem que ser uma cautela muito grande, toda hora. Isso consome a gente também, mesmo que seja subconsciente. Isso tem a ver também com o acidente. Eu vejo que as pessoas, hoje em dia, estão dirigindo muito mal", afirma.

"Eu, às vezes, pego um Uber, às vezes, vou de ônibus, metrô, com algum amigo que possa me levar. Mas vou ser bem sincero: recentemente, eu não tenho saído muito de casa. Eu não tenho forças para sair, não tenho vontade. Meus amigos veem que a depressão realmente tomou conta."

O que um diria para o outro?

Em cinco anos e meio, somente uma única vez os dois jovens se encontraram frente a frente: durante uma audiência sobre o caso na Justiça. Mas eles não conversaram. David afirma que tentou fazer contato visual com Alex, "mas ele não olhava para mim". "Eu deixei aberto para ele. Falei na TV [na época], em uma gravação de celular."

Estou aqui. Se ele quiser vir aqui pedir desculpa, eu vou estar esperando. Perdoei."

David Sousa, ciclista

"Eu esperava que tocasse o coração dele, e ele fosse me ver, que ele sentisse mesmo que fez alguma coisa errada. Mas ele não fez isso em nenhum momento. Eu só queria ouvi-lo."

"Aquele clima não proporcionou um momento só entre eu e ele", afirma Alex. "Tinha muita gente em volta, não ia ser uma coisa natural, não ia sair muita conversa de lá. A impressão que eu tinha é que não ia ter uma conversa natural", acrescenta, sobre o dia da audiência.

Eu queria [hoje] comentar mais do braço mesmo, pedir desculpa, primeiramente. Eu estava realmente fora de mim, eu estava em choque."

Alex Siwek, motorista

"Não foi na maldade. Não foi uma coisa que eu fiz para prejudicar ou para esconder. Foi uma bola de neve. Eu queria mais pedir desculpa por causa disso. O acidente não fui eu que fiz. Eu não atropelei o menino na ciclofaixa. Não fui eu."

Processos na Justiça

Os processos relativos ao caso de David e Alex ainda estão correndo na Justiça. Na parte cível, o ciclista moveu três ações diferentes com pedidos de indenização. Uma delas foi julgada improcedente; as duas restantes ainda não foram concluídas. Na parte criminal, o processo está em fase de recursos.

Eu ainda penso que eu vou pagar isso para sempre. Isso é uma coisa que vai me acompanhar pelo resto da vida."

Alex Siwek, motorista

"Eu acho que tudo tem que ser justo nesse mundo. Eu estou aqui para pagar o que tem que ser justo, o que tem que ser pago mesmo. As coisas, na realidade, tomaram uma proporção tão grande, tão grande, que eu só ouço, na cabeça, milhões. 'Eu quero milhões disso, eu quero milhões daquilo.' É sempre um valor exorbitante, fora do normal", afirma Alex.

Não posso opinar sobre meu julgamento, porque eu não seria imparcial, porque eu queria realmente fazer ele pagar, que ele pagasse tudo o que ele causou para mim."

David Sousa, ciclista

"Hoje, eu aproveito muito a minha vida, em coisas boas, mas eu preferia muito mais ter meus dois braços do que ter aproveitado a minha vida desse jeito, sem um braço", completa David.

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