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Aqui mandam as mulheres

Em Castelhanos, no litoral paulista, elas são as lideranças da comunidade

Lucas Loconte Do Eder Content, em Castelhanos (SP)
Lucas Loconte/Eder Content/UOL

Quando os homens saem para pescar na pequena comunidade caiçara de Castelhanos, no litoral paulista, deixam para trás suas mulheres.

E elas não se limitam a cuidar de suas casas e famílias.

Ali, as mulheres são as lideranças locais: comandam negócios e discussões políticas e sociais. Em busca de melhorias, como escolas para seus filhos e netos, formaram associações e lutam por suas reivindicações junto à prefeitura.

Foi uma reação ao desinteresse da população masculina da comunidade. "Os homens são muito distanciados, estão sempre envolvidos com os afazeres deles. São as mulheres que precisam dar um passo à frente deles para conseguir as coisas", diz Janete Igino da Silva de Moraes, 44.

Para Vivian Gonçalves de Souza, 40, as mulheres ocupam um espaço que os homens não querem. "As mulheres vão quando sentem a necessidade de ter alguém no comando. Isso em qualquer situação. Não vamos deixar a peteca cair nunca", diz.

Ela e a irmã estão entre as mais ativas na comunidade e comandam pequenos negócios. Vivian é dona de um restaurante e de chalés para turistas, e Cilene (na foto abaixo), de uma mercearia.

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Essa independência das mais jovens não causa estranhamento entre as caiçaras mais velhas.

Laurinda Maria de Moraes Lúcio, 57, que já foi pescadora e hoje produz artesanato, diz que não é "muito feminista", mas acha "bacana a mulher ter direitos".

E quem está envolvido no trabalho comunitário pensa em deixar um exemplo para os mais novos. "Às vezes, por estar aqui, meio recuado, os mais jovens ficam meio bicho do mato. É importante a molecada saber que os direitos deles são os mesmos daqueles que moram na cidade", afirma Cilene de Souza, 38.

Isolados até os anos 70

Castelhanos é parte do arquipélago de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, distante 207 km da capital.

O acesso é bastante difícil e se dá através do mar ou de uma estrada mal conservada de 22 km que tem acesso restrito e controlado.

São seis comunidades: Sombrio, Figueira, Praia Mansa, Praia Vermelha, Canto da Lagoa e Canto do Ribeirão. Segundo o Censo de 2010, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ao todo, há 116 moradores que trabalham com pesca, lavoura e turismo.

A comunidade é formada basicamente por descendentes de espanhóis da região de Castela --muitos deles piratas que teriam naufragado na costa tortuosa da ilha ou teriam desistido do mar e se estabelecido ali.

Até muito recentemente, a ilha também tinha uma história curiosa de casamentos consanguíneos. Afinal, a comunidade ficou isolada até a década de 1970, quando a estrada que dá acesso à praia foi inaugurada. Como os jovens dificilmente saíam dali, acabavam se unindo. Laurinda (foto abaixo) é casada com um primo de segundo grau.

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Com a aproximação da cidade, o aumento do turismo e a presença de outras mulheres que desenvolveram projetos dentro da vila, como professoras e médicas, o comportamento das mulheres caiçaras mudou, avalia a pesquisadora Mariana Pirró.

"As mulheres começaram a ter uma perspectiva mais ampla, seja no trabalho ou no posicionamento social", afirma a professora de geografia e educação ambiental, que acompanha o desenvolvimento da comunidade de Castelhanos há 12 anos. "Elas perceberam que existia uma oportunidade de agir diferente."

Papel ativo é antigo

As mulheres não sabem dizer quando suas antepassadas começaram a se envolver nas discussões políticas e sociais da comunidade.

Cilene conta que a avó já falava sobre um papel feminino ativo. "As mulheres sempre foram trabalhadeiras, sempre lutaram pelas coisas aqui", afirma. "Há algum tempo, nós começamos a participar mais das conversas e da política quando observamos que as coisas aconteciam se estivéssemos presentes. Quando sabíamos que haveria a discussão sobre algum assunto polêmico, participávamos. Temos que cobrar os nossos direitos", completa Cilene, a dona da mercearia.

As irmãs Vivian e Cilene nasceram e cresceram em Castelhanos. Para acompanhar os problemas da comunidade, contam com alianças com outras mulheres, como Alaíde Rafael de Sousa, 54. Moradora da Praia Vermelha, Alaíde faz o elo entre moradores de lá e também da Praia Mansa com as associações.

"Para muitas coisas, os homens consultam a gente. Não é porque a gente sabe mais, mas porque as mulheres se unem com mais facilidade. Essa força é capaz de resultar em algo positivo para todo mundo", explica Vivian.

No final de 2016, a instalação de um ponto de internet tanto na Praia Mansa como no Canto da Lagoa foi uma vitória para os moradores. Além do benefício geral, Vivian (foto abaixo), que tem alguns chalés para locação, agora faz reservas por aplicativos.

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A mobilização feminina se deu de dentro para fora das famílias, quando os homens deixaram de se interessar por problemas comunitários.

Ajudante de cozinha nos quiosques de Castelhanos, Janete (foto abaixo) tornou-se uma liderança no Canto do Ribeirão ao perceber que poderia fazer diferença debater assuntos que muitas pessoas nem queriam ouvir falar.

Foi assim que ela trouxe à tona o tráfico e consumo de drogas dentro da comunidade. "Se a gente não falar, não resolve. Estou numa luta muito grande para realizar as coisas por aqui. Se eu não tivesse nessa lida, já teria acontecido muita coisa pior."

Outro desafio para as mulheres da comunidade tem sido a questão da posse das terras. Quando forasteiros apareceram e se apresentaram como donos de muitos terrenos, muitos caiçaras entraram em pânico.

Lentamente, a prefeitura está regularizando as propriedades e alguns, inclusive, já pagam IPTU. "No Canto do Ribeirão, a gente não paga. Você vai na prefeitura e eles dizem que a gente não paga porque não tem o que pagar. Todos nós sabemos que devemos pagar alguma coisa. Cada um precisa pagar pelo seu lugarzinho, pelo seu pedacinho de terra", afirma Janete, inconformada.

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Cilene diz que a briga é antiga e uma solução definitiva está distante. Moradores mais idosos e menos informados são as principais vítimas, afirma.

"Algumas pessoas de fora dizem que essas terras são deles, mas a gente nunca dá o braço a torcer porque conseguimos cadastrar e registrar tudo no cartório. Mesmo assim, eles afrontam a gente", afirma.

Escola e posto de saúde

Apesar de ser um vilarejo minúsculo, Castelhanos tem duas associações de moradores: a Castelhanos Vive, que trabalha apenas com problemas sociais no Canto da Lagoa e no Canto do Ribeirão, e a Amor Castelhanos, que discute os problemas de toda a comunidade.

Irineu de Sousa Luz é presidente da Castelhanos Vive, mas é o único homem na diretoria. Vivian é secretária e a irmã, Cilene, é tesoureira.

"As mulheres participam ativamente, tanto das atividades econômicas quanto das discussões políticas e sociais. Elas tomam a frente e, em muitas situações, elas oferecem alternativas ou estratégias que são interessantes", explica o solitário representante masculino.

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Atualmente, o que mobiliza as mulheres da comunidade é a construção de uma escola e de um posto de saúde. As escolas que existem em Castelhanos estão divididas entre as praias, com aulas em casas alugadas. As lideranças femininas querem a construção de um imóvel que reúna todos no mesmo local.

Em 2016, elas conseguiram apresentar um projeto arquitetônico, definir o terreno para construção e enviar toda a documentação necessária para a prefeitura.

A pressão surtiu efeito: foi esse movimento que fez com que o novo prefeito, Márcio Tenório (PMDB), priorizasse a demanda, segundo o representante da administração local e diretor das comunidades tradicionais de Ilhabela, Dito Dória.

A previsão, diz ele, é que a escola e o posto de saúde fiquem prontos ainda em 2017.

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