O herói improvável do tetra

No dia do aniversário do tetra, Branco usa as próprias palavras para contar foi a sua Copa de 1994

Branco Especial para o UOL, em São Paulo
Arquivo

Cabeça a milhão

Quando eu fui bater o pênalti não passava uma agulha no meu rabo.

Esse filha da mãe do Pagliuca me conhece. Ele espera a porrada. E eu fui com a intenção de dar essa porrada. Olha como é louco isso. Passa um filme na tua cabeça do meio do campo até o pênalti. E aí eu mudei.

Por quê? Para um goleiro pegar uma porrada, ele tem que escolher um canto e sair antes. Se não sai, ele não tem poder de reação. Botei a válvula para mim. Eu só batia na válvula. E tomei distância.

Vou para bola olhando para ele. Esperando ele escolher o lado. Mas ele não saia, não saia... Puta que pariu... O cara tá parado...

Daí, a dois passos da bola, ele foi para o lado direito. Ele saiu, eu tum no lado esquerdo. Tô procurando ele na foto até hoje.

Quando a bola tocou na rede, parceiro... Eu fui no juiz, dei a mão para o cara e saiu um peso dos ombros. Situação filha da puta...

Tem que ter culhão

A primeira e única Copa decidida nos pênaltis foi a nossa. E mais: a gente estava há 24 anos sem ganhar. Como que faz para ir lá bater o pênalti? Tem que ter muito equilíbrio emocional, muita frieza. Olha o Baggio. O cara só batia por baixo, mas foi lá, na final, meteu por cima e errou. Não é fácil, cara!

Imagina se eu erro o pênalti e o país perde uma Copa? Digo pros meus amigos que estaria numa ilha do Caribe até hoje. Do jeito que é essa nossa cultura, do jeito que o Barbosa morreu por causa do jogo em 50 com aquele estigma de perdedor, de frangueiro, eu ia morrer igual a ele.

Nossa cultura é assim. No dia anterior à final da Copa a gente pensa onde vai marcar, onde vai correr, onde vai cabecear, onde vai bater falta, onde vai colocar o escanteio. Passa tudo na sua cabeça. É lógico que você pensa mais coisas positivas, mas as coisas negativas também surgem.

Tu pensa: E se eu errar, como que faz? Você quer o melhor, mas só tem um ganhador. Quantos queriam, mas não chegaram? Mesmo merecendo ser campeões.

Será que os caras da Copa de 82 não pensam porque não marcaram mais os jogadores da Itália? O Paolo Rossi fez três gols na gente. O problema é sempre o ‘se’. Só que esse ‘se’ não existe. Se eu marcasse, se eu corresse, se eu cruzasse...

“Em Copa, se fechar o olho tu paga. O Brasil fechou o olho seis minutos e tomou 4 gols contra a Alemanha. Nem em pelada tu toma isso”

Nota da redação

Se dependesse da imprensa, principalmente a paulista, Branco não estaria na seleção. Ele tinha 30 anos e era tratado como ex-jogador em atividade. E Roberto Carlos surgia no Palmeiras, pedindo passagem na seleção brasileira.

Certeza do corte

Em 1994, eu cheguei na seleção sentindo um pouquinho. Jogava a base de Voltaren, um anti-inflamatório forte. Um dia, lá em Los Gatos nos Estados Unidos, o Moracy Sant’Anna, o preparador físico da seleção, fez uma sessão de pique curto. Na metade, eu não aguentei. Caí.

Faltava uma semana para estrear e eu digo: Tô fora, acabou. Eu sabia que era inflamação no ciático. Quando te ataca, você não tem força nem para levantar a perna para caminhar.

A pior hora foi depois de um almoço. Estava eu e o Gilmar Rinaldi e bateram na porta do quarto. Era o Luisão, o massagista, chamando para uma reunião. Achei que eu ia ser cortado. Foi o contrário.

O doutor Lídio Toledo, o médico da delegação, falou que ia me recuperar em uma semana. O Carlos Alberto Parreira, o nosso técnico, completou: “Tu foi, tu é e tu vai ser importante”. Aquilo ali foi, com certeza, o mais importante. Nesse momento, cabeça é tudo. Aquela conversa foi mais eficiente no processo de recuperação que as cinco injeções que tomei.

Privada vira divã

Eu fazia fisioterapia até duas horas da manhã. Fazia duas, três sessões por dia. Era foda. Lutei contra dor. Se eu não fosse importante pro grupo, tinha sido cortado. Mas eu era um dos comandantes, um pilar. O Parreira fala isso.

Depois que tomava as injeções, não treinava no gramado. Botei gelo localizado por dois dias e só fazia banheira de hidromassagem. Treinava num clube perto da concentração, numa piscina, com colete e uma corda elástica para não ter atrito com o solo.

Durante todo esse trabalho, os jornalistas iam para esse clube achando que eu ia ser cortado. Um deles falou assim: “Você vai nadar, nadar e morrer na praia”. Bem assim.

Eu chegava no hotel de madrugada. O Gilmar já estava dormindo e eu ia para o banheiro, para não acordar o cara. Naquela Copa, tinha um negócio que chamava "Correio da Seleção”. A minha parte tinha uns dois, três sacões de cartas.

Eu ficava sentado no vaso, com a tampa fechada, até 3h, 4h da manhã, lendo as cartas que o povo mandava pra mim. Era santinho, mensagem de apoio. Aquilo ali foi sensacional! Me dava um gás emocional. Era muita carta. Sou grato até hoje ao torcedor brasileiro.

Nota da redação

A imprensa não deu trégua. Continuou pedindo a cabeça de Branco. Parreira bancava porque dizia que em Copa experiência e personalidade vale mais que talento.

Briga com Parreira e Zagallo

Na estreia, eu ainda estava zuado. Eu só fui voltar para o banco contra os Estados Unidos, nas oitavas de final. Antes disso não conseguia. Quando o Leonardo foi expulso por aquele lance com o Tab Ramos, eu não entrei. Eu era o lateral esquerdo reserva. O titular foi expulso, mas quem entrou foi o Cafu, reserva da direita!

Na hora, fiquei puto. Muito. Até discuti com o Parreira e com o Zagallo. Meio que xinguei... Me senti desrespeitado. E aí o Parreira falou: pede desculpas para o Zagallo. Eu disse que não ia pedir desculpas pra ninguém. Respondi que quem tinha de pedir desculpas era ele. E pra mim.

Depois, ele me chamou e explicou que como eu estava voltando de lesão, não joguei nas oitavas, mas ia entrar no próximo jogo, contra a Holanda. No outro dia, fui esperar os coletes para ver se vinha pra mim o de titular. E veio. O Parreira cumpriu com tudo o que falou.

Folha Imagem/Arquivo Folha Imagem/Arquivo

Branco decide

Tinha uma pressão toda em cima do meu jogo contra a Holanda. Digo MEU JOGO porque aquela partida marcou toda a minha vida. Foi outro sufoco. A gente tava ganhando de 2 a 0 e os caras fizeram um gol de lateral, depois empataram com o Winter, de cabeça, e foram pra dentro. A gente não conseguia trocar dois passes.

Se fosse pra sair um gol nosso, só do jeito que eu fiz, com uma bola parada. Achei que eu ia me complicar de novo nos pênaltis. Em 86 eu perdi para França nos pênaltis. Quando eles empataram, pensei assim: Meu Deus, de novo!

Mas parece que Deus preparou aquele lance pra mim. Todo mundo achava que eu ia levar um banho de bola do Overmars. O cara era o ponta direito mais rápido do mundo, era titular do Barcelona. Eu, aquele cara que tinha tudo para ser cortado, estava jogando pela primeira vez. Mas o aconteceu? Foi ele quem me marcou o jogo inteiro!

Tanto que, no meu gol, eu dei uma “afastada” nele com carinho. Não foi falta. Eu cavei. Ali entrou a malandragem do jogador brasileiro. E aí fiz aquele gol que tirou a gente do sufoco. Chamei de gol cala boca.

Com a mesma perna em que levei cinco injeções, fiz o gol mais importante daquela Copa. E nós ganhamos de 3 a 2 da Holanda.

Nota da redação

Na comemoração, Branco correu para o banco com o dedo em riste. Apontava para Lídio Toledo, transbordando gratidão.

Proteção materna

Essa é uma história espiritual. Vou explicar.

Quando eu jogava na Itália, a mãe e o pai foram me visitar. Levei os dois para conhecer o Vaticano. A mãe comprou um terço para todos os parentes. Antes da minha viagem para a Copa, a minha cunhada mais nova, que ainda mora em Bagé, sonhou com a mãe. No sonho, ela dizia que era para mandar aquele terço pra mim.

Eu havia perdido minha mãe dois anos antes daquele sonho. Foi ela que escolheu meu nome, Claudio. Eu era o único dos nove filhos que dava selinho nela.
Todo dia, antes de sair para os treinos ou para os jogos, eu colocava esse terço dentro da fronha do travesseiro. Esse travesseiro era especial, eu tinha levado do Brasil.

No dia de Brasil e Holanda, peguei o terço, me ajoelhei e fiz uma oração para a véia lá em cima me ajudar. E para Deus me proteger.

Fui pro jogo e fiz o que fiz. Fui para entrevista da Fifa com o Bebeto, mas estava com a cabeça no hotel, no terço. Porque a mãe falava para mim que, um dia, eu seria campeão do mundo.

Quando chegamos no hotel, os caras foram para o restaurante. Eu fui para o quarto. Cheguei lá e não tinha mais terço. Até me emociono. O terço desapareceu. Fui na lavanderia e nada. Esquece. Zero.

Tem gente que não acredita. Acho que a véia levou aquela bola na falta, fez aquela curva para que eu fizesse o gol. Parece que aquele jogo foi feito pra mim. Aquela desconfiança. Aquele papo de “o cara vai deitar em cima de você”. Cavei a falta. Fiz o gol. Para mim, aquele terço cumpriu sua missão.

Mike Powell/ALLSPORT Mike Powell/ALLSPORT

Final, este dia que não chega

Passamos pela Suécia na semifinal e estávamos na decisão. A pressão era imensa. Pô, 24 anos sem ganhar! Você vai treinar porque no outro dia tem o jogo mais importante da tua vida, mas dorme às 3h da manhã imaginando os lances, como você marca, como você não marca. Como que cabeceia, como que não cabeceia. Um negócio que só quem passa sabe.

No dia, nós pegamos o ônibus. O Ricardo Rocha, eu, o Dunga e o Mauro Silva lá atrás fazendo um pagode. O Ricardo Rocha cantava uma música horrível que ele inventou chamada Pitomba. Chegamos naquele estádio e tava entupido.

Show do Santana antes da final, nunca vou me esquecer. Estávamos no vestiário, um calor do caralho. Aquele estádio em Los Angeles, o Rose Bowl, tava uns 50 graus. Ele ficava num buraco e virava um forno.

A gente naquela concentração, preparando a faixa do Senna no vestiário. Acabou o show e o Santana quis vir no vestiário. Nós estávamos trocando de roupa e o Santana entrou, tinha uns caras de cueca e uns pelados e a mulher do cara entrou também.

Digo, “Ricardo Rocha, tem uns caras pelados, e agora?" Ele disse “Fazer o que, o povo é maluco”. O Santana esperou os caras botarem o roupão e bateu uma foto com a gente.

Nota da redação

Parreira sofria críticas pesadas por priorizar a defesa. A equipe sofrera a primeira derrota na história das Eliminatória diante da Bolívia. Para mostrar união, os jogadores passaram a entrar de mãos dadas, ideia de Ricardo Rocha.

No outro banco, Arrigo Sacchi era considerado o melhor treinador do mundo. Ele comandou o Milan multicampeão do trio holandês Van Basten, Gullit e Rijkaard.

A bola rola

O Parreira fazia uns treinos na Granja que nós apelidamos de “treino chático”. Eram muito maçantes. Ele repetia muito. Mas nossa maior preocupação era não tomar gol. Nós tínhamos consciência que o Brasil dava show, mas quem ganhava eram os robóticos. Alemanha, Itália...

Nós montamos aquele quartel-general para proteger o Taffarel e jogar para os caras da frente. A gente sabia que os dois lá da frente iam resolver. Romário e Bebeto era a melhor dupla de atacantes do mundo na época. A tática era primeiro não tomar gol. Se tiver uma brecha, damos uma espetada.

A final não foi um jogo bonito. A gente estava muito preocupado em não tomar gol. A Itália é um time tradicional, se deixar marcar um é mais fácil tomar o segundo do que empatar...

O lance que mais me marcou na final foi aquele do Baixinho. A bola passou na área e ele sozinho foi chapar. Digo: é gol. Mas ele pegou mal, de tornozelo. A bola passou do lado. Nossa senhora!

Ela não errava essas bolas. Era o lance típico dele. Estava na hora certa, no lugar certo. E aí o Romário errou, o Mauro Silva acertou a trave e o Pagliuca beijou a trave. A bola não entra, não entra... E quando a bola começa a não entrar você diz: “Opa”. Fica mais cabreiro ainda.

Tanto que deu 35 do segundo tempo, a gente deu uma tirada de pé para não tomar o gol. Tomar o gol é fatal, perde o mundial. Se empata, tem a prorrogação.

Se arrastando em campo

Quando o jogo acaba, todo mundo bota as pernas pra cima. Um calorão, o bicho pegando e uma pressão ainda mais absurda. O Parreira pediu mais atenção. Eu falei com todo mundo: cuidado lá atrás, não vamos tomar.

Em campo, a gente sempre trocava muita ideia. O papo era posicionamento: abre o olho aqui, deu mole ali, erramos nisso. Falava com o Dunga, Mauro Silva, Márcio Santos e Taffarel. Tudo sem melindre nenhum. O objetivo era ganhar o mundial.

Era um jogo tenso, nervoso, num calor infernal. No segundo tempo da prorrogação, quase ninguém andava direito. Muito desgaste. Físico e emocional. A Itália estava muito fechada e a gente estava preocupado em não tomar gol. Claro que terminou 0 a 0 o tempo normal e prorrogação.

Eu sabia que eu ia bater um dos pênaltis porque em 86 eu tinha 22 anos e o Telê me botou para bater.

É tetraaaaa, é tetraaaaa

Vejo aquele chute do Baggio ir pra cima. Digo, cabô. Tu fica maluco. Não sabe o que fazer. Ganhou uma Copa do Mundo. É uma realização do caralho. Não lembro quem tava do meu lado. Saí correndo, pulando.

Então o Dunga foi receber a taça. Parece que é inacreditável, que aquilo ali veio pra gente. Aquela taça que o mundo deseja. É surreal, tu olha aquele troço e diz: Conseguimos! É nossa!

E é bonita pra caralho, linda. Nós tudo chorando. Eu, Dunga e Romário. Igual criança.

Na hora que tava no meu braço, beijei, abracei, queria levar pra casa. Não sabia o que fazer. Tinha que passar para os colegas. Mas como que faz? Tá na tua mão, não tem preço...

Curtiu? Compartilhe.

Topo