Ainda falta um pouco

Rosberg está próximo do título, mas precisa se precaver contra a força da Red Bull

Eduardo Anizelli/Folhapress
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Muita cautela para prova nos Emirados

Nico Rosberg será campeão na última corrida do ano, em Abu Dhabi, se chegar pelo menos na terceira colocação. Parece fácil para quem venceu ou foi vice em 13 das 20 provas disputadas até agora. Só que a vida do alemão, que ficou com 12 pontos de vantagem sobre o inglês Lewis Hamilton após o GP do Brasil, pode não ser tão simples assim. Muito distante de todas as rivais ao longo do ano, a Mercedes já vê a Red Bull com capacidade de andar muito perto e, de fato, atrapalhar. 
 
Em Austin, há duas corridas, Ricciardo passou Rosberg na largada e tinha tudo para se meter entre os líderes do campeonato até que um safety car virtual atrapalhou a estratégia da Red Bull e fez o australiano cair para terceiro. No Japão, uma prova antes, foi Hamilton quem vacilou na largada e despencou no grid. Na reação, parou justamente em Ricciardo. Em outros tempos, a superioridade da Mercedes bastaria para uma reviravolta. Em Suzuka, o inglês não conseguiu e ficou na terceira colocação. 
 
O GP do Brasil viu esse roteiro se repetir. Depois da segunda bandeira vermelha, Verstappen passou Rosberg e estava seguro na vice-liderança quando resolveu arriscar. Colocou pneus intermediários para tentar a vitória, foi prejudicado por um novo safety car e caiu para a 16ª colocação. Com a Red Bull em forma, talvez Nico não possa mais de dar ao luxo de só seguir Hamilton de perto.
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O adeus de Massa

Tem coisas que só acontecem com Felipe Massa em Interlagos. Essa frase fez sentido por diversas vezes na carreira do brasileiro, desde que ele correu -e ganhou- com um macacão verde e amarelo pela Ferrari, em 2006, quando teve de abdicar de uma vitória em casa para ajudar o companheiro a ser campeão em 2007 e foi mais forte do que nunca quando esteve com o título nas mãos por 17s no ano seguinte. Em sua despedida do circuito em um carro de Fórmula 1, o GP do Brasil pregou mais uma peça em Massa: vivendo o final de semana mais fraco da carreira correndo em casa, o piloto teve, batendo, uma despedida muito mais única do que poderia imaginar.

Massa vinha fazendo uma corrida apagada, nas últimas posições, depois de ter sido um dos que optaram por colocar os pneus intermediários no início da prova. Sofreu uma punição por ultrapassar Esteban Gutierrez sob Safety Car e tentava se recuperar novamente apostando nos intermediários, quando perdeu o controle de sua Williams na subida do café, ponto mais perigoso da pista e que vitimou vários pilotos ao longo da prova, e bateu forte. Ironicamente, sua Williams destruída parou logo à frente do setor A, um dos maiores e mais populares do circuito, e o acidente trouxe outro Safety Car à prova, gerando o timing perfeito para uma despedida apoteótica.

Com a bandeira brasileira em punho, Massa deixou seu carro em pedaços para andar lentamente aos pits sendo ovacionado pelo público. Mais do que isso, viu equipes inteiras, espontaneamente, irem ao pitlane para aplaudi-lo. Foi a despedida ironicamente mais perfeita que um piloto que vai deixar saudades no paddock poderia ter. E também mais única, como sempre foi a relação do piloto brasileiro que mais pódios conquistou em casa com Interlagos.

F-1 agrada, mas também irrita

  • Interlagos merece ficar

    O GP do Brasil de Fórmula 1 está ameaçado por questões financeiras. Esportivamente, porém, resta pouca dúvida de que ele deve permanecer no calendário. Mesmo com duas bandeiras vermelhas, muito safety car na pista e pouca ação na disputa pela liderança, a corrida em Interlagos foi emocionante e cheia de alternâncias, com muitas ultrapassagens, destreza dos pilotos e emoção nos poucos momentos em que os carros de fato correram.

  • Por que o medo da chuva?

    O público não gostou das duas bandeiras vermelhas diante de uma chuva fina e vaiou a FIA no autódromo. A cautela irrita até os pilotos, que apontaram um culpado. "Nós já fizemos corridas com mais água. É um problema dos pneus", disse Lewis Hamilton. Na visão deles, os compostos de pista molhada da Pirelli não são suficientemente bons para dar segurança, e por isso o cuidado é redobrado. Já a empresa culpa a falta de testes e desenvolvimento pelo problema.

Os cinco vencedores da corrida

  • Hamilton afasta a zica

    Foi depois de 10 tentativas, mas não poderia ter sido em um momento melhor: Lewis Hamilton finalmente dominou do começo ao fim um GP que ele mesmo considera um dos mais difíceis do ano. Completamente à vontade com o carro mesmo sob condições muito difíceis, o inglês foi um dos poucos que não levou grandes sustos durante a prova. E até saiu dizendo que esta foi uma de suas vitórias mais fáceis da carreira. Fácil e importante: nas últimas três provas, Lewis tem feito o que pode para evitar o título de Rosberg, conseguindo o que não parecia tão provável assim há algumas semanas: levar a decisão para a última prova.

    Imagem: Divulgação
  • Vitória "torta" para Massa

    Ele fez sua pior classificação da história em Interlagos, saiu sem nenhum ponto e sequer terminou a corrida, mas Felipe Massa saiu vencedor do GP do Brasil. Ganhou o reconhecimento do público e uma rara demonstração de respeito da própria Fórmula 1, cortejando-o em seu retorno emocionado aos boxes após o acidente. Por todo o final de semana, o brasileiro ao mesmo tempo homenageou sua torcida e foi homenageado por ela. A cena que fica da despedida do Brasil com um F-1 não poderia ser outra senão a do torcedor segurando um simples cartaz com os dizeres ?obrigado, Massa? justamente no momento em que o piloto saía de sua Williams aos pedaços.

    Imagem: REUTERS/Paulo Whitaker
  • Dessa vez Max mereceu

    O furor que Max Verstappen vem causando especialmente na Holanda tem feito com que o piloto da Red Bull seja praticamente imbatível na eleição do piloto do dia promovida no site oficial da F-1. Mas desta vez ele mereceu: mesmo tendo quase batido forte na parte inicial da corrida, em uma recuperação incrível, ele não aliviou. Nem quando brigou roda a roda com o líder do campeonato Nico Rosberg. A prova foi tão boa que foi comemorada como uma vitória na Red Bull, com direito a bandeira holandesa ?hasteada? na equipe.

    Imagem: AFP PHOTO / ANDREJ ISAKOVIC
  • Nasr garante R$ 47 mi

    Os pilotos podem justificar o investimento das equipes basicamente de duas formas: trazendo patrocinadores e resultados. No que admitiu ter sido uma das corridas mais duras da carreira, com um carro pouco estável na chuva, Felipe Nasr fez as escolhas certas na estratégia e demonstrou um ritmo surpreendentemente bom para conquistar um nono lugar que deve valer 47 milhões de dólares para a Sauber, diferença entre a 11ª e a 10ª posições entre os construtores.

    Imagem: Andrew Boyers Livepic/Reuters
  • Rosberg mineirinho

    O líder do campeonato pode garantir que está lutando pela vitória, mas ficou fácil de ver o cuidado com que o alemão está pilotando desde que passou a depender apenas de segundos lugares para ser campeão. Na primeira das relargadas, por exemplo, preferiu deixar o líder Hamilton escapar a correr riscos. Afinal, consistência também ganha campeonato.

    Imagem: Xinhua/Rex Shutterstock/ZUMAPRESS
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Reclamaram para o pai dele. Ele não está nem aí

Max Verstappen não foi "só" o melhor piloto do GP do Brasil. O holandês foi um dos personagens do fim de semana. Em uma corrida que tinha tudo para ser da Mercedes, ele roubou a cena desde o momento em que Toto Wolff, chefão da equipe alemã, ligou para Jos Verstappen, seu pai, pedindo cuidado durante a corrida. 
 
O temor do cartola era que a ousadia de Max pudesse colocar em risco a prova das Mercedes, que brigam sozinhas pelo título. A Red Bull não gostou e a história gerou um climão. Verstappen, na pista, não pareceu ligar nem um pouco para o “conselho” da equipe rival. 
 
O holandês largou em quarto e pulou na frente de Kimi Raikkonen logo na primeira largada lançada. Na segunda, após duas bandeiras vermelhas, ele fez o mesmo com Rosberg. Um erro estratégico da Red Bull na troca de pneus o derrubou para a 16ª posição. A menos de 20 voltas para o fim, no entanto, ele escalou todo o pelotão, com direito a belas ultrapassagens sobre Vettel e Perez, e terminou no pódio, eleito como o melhor piloto do dia.

As frases do pódio

Vencer aqui é o que eu sonhei desde que comecei a correr, com cinco ou seis anos. Quero agradecer o carinho de sempre aqui no Brasil. Quando chove é um bom dia para mim

Lewis Hamilton

Lewis Hamilton, após vitória no GP do Brasil

Sem a parada a mais, não acho que daria para vencer, mas o segundo lugar estava garantido. Às vezes tem que apostar um pouco para tentar ganhar a corrida e foi o que fizemos hoje

Max Verstappen

Max Verstappen, depois da ousada corrida no GP do Brasil

Eu consigo viver com o segundo lugar. Eu estava esperando uma vitória, mas foi bom. Lewis teve um grande trabalho, eram condições muito difíceis

Nico Rosberg

Nico Rosberg, após o 2º lugar que o manteve bem na liderança do Mundial

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TV: "fica até difícil falar", diz Galvão

A despedida de Felipe Massa no GP do Brasil de Fórmula 1 causou emoção também na transmissão da TV Globo. O narrador Galvão Bueno e o comentarista Reginaldo Leme defenderam a história do piloto brasileiro na categoria. "Olha que bonito isso. Gente", narrou Galvão, com a voz embargada, interrompendo a fala por alguns instantes. "Felipe, você pode chorar e nós também podemos aqui", justificou. "Uma das mais comoventes cenas da história da Fórmula 1. Equipe por equipe, integrante por integrante, fazendo questão de dar um abraço." Massa abandonou a prova na 48ª volta após rodar com sua Williams na entrada da reta dos boxes.

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