Fim de uma era

Após 16 anos, Bernardinho põe ponto final em sua trajetória na seleção brasileira

Bruno Braz, Fábio Aleixo, Guilherme Costa e Leandro Carneiro Do UOL, no Rio de Janeiro e São Paulo
Pedro Ladeira/Folhapress

A hora de dizer adeus

Foram 24 anos de seleção. 16 anos no time masculino. À frente das equipes feminina e masculina do Brasil, ele conquistou seis medalhas, duas dela de ouro. A última nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. E foi exatamente em sua casa que ele se despediu da seleção. A história do vôlei brasileiro se confunde com Bernardinho, que deixou o comando nesta quarta-feira.

Está certo que o vôlei foi campeão olímpico e teve nomes grandes antes da entrada dele como técnico. Mas, foi após sua chegada que a modalidade atingiu um patamar, até então, inalcançável no país. Se são 16 anos do técnico no comando do time, são 16 anos da seleção entre os primeiros colocados em Liga Mundial, Mundial e Olimpíada.

Giba, Ricardinho, Bruninho, Maurício, Nalbert, Serginho, Giovane. Todos esses craques e muitos outros foram comandados por Bernardinho neste período.

Com jeito duro e personalidade forte, ele teve de aguentar críticas em derrotas marcantes, como em Pequim-2008 e Londres-2012, bateu de frente até com Ary Graça, presidente da Federação Internacional de Vôlei, e superou até um tumor maligno do rim no mesmo período em que mantinha o Brasil entre as melhores equipes do mundo. 

Longe do banco de reservas, Bernardinho seguirá trabalhando na Confederação Brasileira de Vôlei. Ele será coordenador da seleção masculina e também fará um trabalho integrado com a base.

Renan dal Zotto, que trabalhou como diretor de seleções no último ciclo olímpico, assume o papel de treinador daqui para frente.

Bastidores e motivos da saída de Bernardinho

  • Pressão da família era grande

    Foram quatro meses aproximadamente de negociação. Bernardinho sofreu muita pressão da família para deixar a seleção. Afinal, por ano, o treinador perdia diversos meses longe de seus familiares em viagens com o Brasil. O treinador até falou que sua filha o cobrou recentemente por ele não ter presenciado seu nascimento.

  • O que fazer sem a seleção?

    Após o segundo ouro olímpico, Bernardinho chegou a confessar que pela primeira vez estava pensando em deixar a seleção. A dúvida na cabeça do treinador era o que fazer no tempo livre? Essa era uma das incertezas que passavam na cabeça do técnico, já que eram 16 anos de uma rotina que não existirá mais.

  • Preocupação com a saúde

    Ao conquistar a medalha de ouro, o levantador Bruninho falou que o pai devia escolher entre a seleção e seu time, o Rexona-Sesc. Aos 57 anos, o capitão do Brasil achava que Bernardinho não podia só trabalhar, precisava cuidar da saúde também. Em 2014, após perder o Mundial, o técnico teve de lutar contra um tumor.

  • Longa espera pelo anúncio

    De acordo com dirigentes da Confederação Brasileira de Vôlei, a longa espera para anunciar o novo técnico foi um pedido de Bernardinho. O martelo foi batido apenas na noite da última terça-feira, data limite dada pelos diretores para ter uma resposta do treinador após uma reunião no dia 23 de dezembro.

  • Promessa para Venturini

    Bernardinho prometeu para Fernanda Venturini, em 2012, que ficaria apenas na seleção ou no clube, não continuaria com dois empregos. Mas, depois da derrota na final em Londres e o fato de Bruninho não ter conseguido conquistar o ouro, o treinador decidiu ficar quatro anos mais.

CBV/Divulgação CBV/Divulgação

Renan deve ter começo difícil como técnico da seleção

Oito anos longe da função de técnico, o gaúcho Renan Dal Zotto terá a dura missão de substituir ninguém menos que Bernardinho no comando da seleção brasileira masculina de vôlei. O que esperar do novo treinador depois de 16 anos vitoriosos de seu antecessor?  A tarefa do ex-craque Renan não será fácil e deverá também ser considerada a extensão do papel de Bernardo Rezende como coordenador técnico da seleção masculina.

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Sucessor foi galã e lançou Bruninho

Escolhido pela CBV (Confederação Brasileira de Voleibol) para substituir Bernardinho, Renan dal Zotto já deu uma série de declarações sobre a intenção de dar continuidade ao trabalho que vinha sendo feito. Entretanto, a lista de coincidências entre ambos é bem mais extensa: os dois foram companheiros de seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Los Angeles-1984 e têm extensas carreiras como empresários e palestrantes, por exemplo.

O novo técnico da seleção brasileira ainda tem histórico como galã e referência técnica. Foi um dos precursores da popularização do vôlei no Brasil e recebeu da FIVB (Federação Internacional de Voleibol) em 2001 o título de melhor jogador do século 20.

Há outro elemento que aproxima Bernardinho e Renan. O novo treinador da seleção era gestor de esportes da Unisul quando lançou o levantador Bruninho, então novato, que é filho do ex-comandante da equipe nacional e neste ano foi campeão olímpico como capitão.

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Legado de Bernardinho vai muito além dos títulos

Era Bernardinho foi repleta de conquistas

  • Bicampeão olímpico

    A seleção ganhou as medalhas de ouro nos Jogos de Atenas-2004 e Rio de Janeiro-2016. Além disso, ficou com a prata nas edições de Pequim-2008 e Londres-2012.

    Imagem: Reuters
  • Tricampeão mundial

    O Brasil foi soberano durante três edições dos Mundiais, entre 2002 e 2010. Os títulos vieram na Argentina, no Japão e na Itália. Em 2014, o time foi vice-campeão após ser derrotado pela Polônia na decisão.

    Imagem: Divulgação/FIVB
  • Octocampeão da Liga Mundial

    Nenhuma equipe foi tão soberana quanto a seleção brasileira no torneio enquanto Bernardinho esteve no comando. Foram oito títulos: 2001, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2009 e 2010. Além disso, foram mais cinco vices: 2002, 2011, 2013, 2014 e 2016

    Imagem: AP Photo/Natacha Pisarenko
  • Bicampeão da Copa do Mundo

    O torneio que sempre vale como classificação para a Olimpíada teve o Brasil no alto do pódio nas edições de 2003 e 2007. Em 2011, o time ficou com o bronze. Em 2015, por ser sede dos Jogos no ano seguinte, não disputou.

    Imagem: AFP PHOTO / KAZUHIRO NOGI
  • Outras conquistas

    Na Era Bernardinho, o Brasil ganhou também oito edições do Campeonato Sul-Americano, três Copa dos Campeões, uma Copa América, duas Copas Pan-Americanas e dois Jogos Pan-Americanos.

    Imagem: REUTERS/Yves Herman

Polêmicas também não foram poucas

  • Entregou ou não?

    A maior polêmica envolve a suposta entrega do resultado no Mundial de 2010 contra a Bulgária para ter uma tabela mais fácil pela frente até a decisão. Giba, capitão daquele time, disse em seu livro que de fato o Brasil perdeu de propósito a partida por 3 a 0. Bernardinho garante que não pediu para sua equipe ser derrotada naquele jogo. O time acabou com o título.

  • Convocação do filho

    Bruninho terminou a Olimpíada de 2016 como capitão da seleção e campeão olímpico. Mas, antes de chegar a esse status, enfrentou muitas críticas por ser "filho do técnico". Bernardinho bancou o herdeiro e o convocou para o Pan-Americano de 2007.

  • Corte de Murilo

    A saída do ponteiro Murilo na véspera dos Jogos Olímpicos de 2016 surpreendeu a todos. O nome era tido como certo na lista final de Bernardinho, mas acabou ficando fora depois da Liga Mundial. Seu corte foi anunciado antes do retorno ao Brasil e, ao chegar ao país, o jogador anunciou sua aposentadoria da seleção.

  • Convocação de Sidão

    Bernardinho chegou a ligar para o central durante a preparação para os Jogos Olímpicos, quando a equipe já estava no Rio de Janeiro. O motivo era a lesão de Maurício Souza que preocupava a comissão técnica. Sidão não aceitou o convite por ter sido cortado sem ter tido chances na Liga Mundial.

Brigas e desafetos marcaram a passagem

  • Ary Graça

    A relação entre Bernardinho e Ary Graça não era das melhores nem quando o dirigente comandava a Confederação Brasileira de Vôlei. Quando ele foi para a Federação Internacional de Vôlei, a situação piorou. O treinador reclamou publicamente que o mandatário da entidade tentava prejudicar a seleção e até revelou uma ameaça feita de Ary para Bruninho.

    Imagem: Divulgação / FIVB
  • Serginho

    Na Copa do Mundo de 2011, durante um tempo técnico, Serginho e Bernardinho discutiram feio na quadra, com direito a palavrão. A briga aconteceu no jogo contra a Argentina e Giba teve até de separar os dois. O Brasil vivia uma situação tensa e corria riscos de não conseguir a vaga na Olimpíada de 2012 por meio deste torneio. No fim, se superou e acabou com o bronze.

    Imagem: Reprodução
  • Ricardinho

    Um dos melhores levantadores da história do Brasil ficou afastado da seleção por cinco anos. O motivo foi uma briga com o técnico Bernardinho. Os dois tiveram um problema em 2007 quando o levantador acabou cortado da seleção. Em seu livro, Giba diz que o motivo do corte foi questão de indisciplina após a Liga Mundial. Em 2012, o jogador voltou ao time nacional para a disputa da Olimpíada e acabou com a prata.

    Imagem: AFP PHOTO ALEXANDRE NEMENOV
  • Zé Roberto Guimarães

    A relação entre os dois técnicos da seleção brasileira ficou estremecida depois dos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas. De acordo com especulações, o principal problema era o fato de Bernardinho comentar os treinos do time feminino, comandado por Zé Roberto e que tinha Fernanda Venturini, mulher de Bernardinho, como levantadora. Os dois ensaiaram uma reaproximação antes da Olimpíada do Rio.

    Imagem: Divulgação/FIVB

Força nas opiniões

Se tem alguém que merece é ele (Bruninho). Com a limitação que o time tinha, o Bruno soube achar o potencial de cada um. Falavam que Mauricio era isso, Ricardinho era rápido. Mas Bruno, taticamente, é muito inteligente. Hoje ele entrou no rol dos grandes. Ver seu filho, um rapaz sério, entrar dentro da quadra e fazer tudo que tinha que fazer...não há medalha que pague isso

Elogiando o filho após a conquista do ouro no Rio

Ficou claro que essa punição foi uma retaliação. Tive acesso às denúncias contra mim e pude constatar que existe muita coisa que não é verdade. O mais triste é que, para me retaliar, estão punindo também o Brasil, a seleção. Não que eu seja fundamental ou insubstituível no comando da equipe, mas é triste. Vamos recorrer às instâncias maiores, sem dúvida

Sobre a punição de dez jogos recebida após Mundial da Polônia, em 2014

Eu não pedi aos meus jogadores para jogarem para perder esta noite. Tivemos alguns jogadores com problemas físicos e temos de estar prontos para o jogo de segunda-feira. Com certeza jogar contra a Alemanha e a República Tcheca não vai ser mais fácil do que jogar contra Cuba

Ao comentar a suposta entregada para a Bulgária em 2010

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