O vingador trapalhão

Como Chris Pratt abandonou a fama de comediante gordinho para injetar humor em "Vingadores: Guerra Infinita"

Natalia Engler Do UOL, em São Paulo
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Quando "Guardiões da Galáxia" foi anunciado, em 2012, muita gente reagiu com ceticismo.

A Marvel ainda estava nos primórdios da criação de seu universo cinematográfico e parecia sem sentido gastar energia e dinheiro com um grupo de heróis obscuros, que pouco tinham a ver com os personagens já apresentados, e com um tom mais cômico que não casava com os filmes lançados até então ("Homem de Ferro" 1 e 2, "Thor", "Capitão América: O Primeiro Vingador" e "Vingadores").

"Quando 'Guardiões da Galáxia' saiu [em 2014], ouvi pessoas dizendo que haviam acabado as ideias da Marvel. As pessoas diziam para mim: 'Como você se sente de estar no primeiro filme da Marvel que não vai funcionar?", relembra a estrela do filme, Chris Pratt, 38, em entrevista ao UOL.

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Quatro anos depois, é fácil para o ator que interpreta Peter Quill, vulgo Senhor das Estrelas, rir desses comentários. Juntos, os dois "Guardiões" arrecadaram mais de US$ 1,6 bilhão no mundo todo, e alçaram Pratt ao primeiro escalão do estrelato, liderando também outra grande franquia de sucesso, "Jurassic World".

"É o diferencial da Marvel, eles investem em todos os gêneros, não tem uma coisa só", acredita. "O primeiro 'Guardiões da Galáxia' é menos um filme de super-herói do que uma ópera cósmico-espacial, com um lado de comédia, e acho que isso desafiou as expectativas das pessoas, o que foi chave para o sucesso do filme".

Foi uma guinada para a Marvel, e parte desse sucesso é mérito do personagem de Pratt: um caçador de recompensas, filho de uma terráquea com uma entidade cósmica, que depois da morte da mãe passou a viver com um bando de foras da lei espaciais.

Depois de se aventurar com seus companheiros da galáxia, Quill finalmente se junta aos maiores heróis da Terra em "Vingadores: Guerra Infinita", que estreia na próxima quinta-feira (26), e tem tudo para roubar a cena com seu charme, senso de humor, preferências musicais e dancinhas de gosto duvidoso.

Mas o ator é modesto. "James Gunn [diretor de 'Guardiões'] escreveu um roteiro incrível e fez um filme ótimo, que girava em torno de Peter Quill se juntando a essa gangue de foras da lei. Acho que as pessoas se identificaram porque a história era muito boa. Era divertido, irreverente, inesperado, tinha músicas ótimas e uma profundidade real de emoções. Isso o distinguiu, em termos de tom, de tudo que havia sido feito antes", diz.

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Mundos colidem

Agora esse universo vai colidir com o de outros personagens mais tradicionalmente heroicos, como Thor, Tony Stark e Capitão América, o que vai render bons momentos, segundo o ator.

"Estamos adicionando um novo sabor. Com o sucesso de 'Guardiões da Galáxia Vol. 1' e 'Guardiões da Galáxia Vol. 2', as pessoas sabem o que esperar. Esses filmes têm um tom específico, e vamos injetar um pouco do DNA dos Guardiões da Galáxia em um filme dos Vingadores", revela.

Mas não estamos falando apenas de misturar comédia e irreverência com uma ação mais dramática, mas também de um verdadeiro choque de personalidades.

"Os Guardiões da Galáxia são definitivamente mais como foras da lei do que os Vingadores. Os Vingadores são um time de mocinhos, e os Guardiões são um pouco mais excêntricos na sua maneira de salvar o mundo. Então sim, é um bom material para comédia", acredita.

Em um evento com fãs durante sua passagem por São Paulo, no início do mês, Pratt também já tinha dado dicas do que vamos ver. "Não tem nada mais engraçado do que uma pessoa com um ego enorme encontrar outra que também tem um ego enorme. O Homem de Ferro, o Doutor Estranho e Peter Quill têm egos enormes. Os personagens, não os atores, não existem atores egocêntricos", brincou.

Mas Quill deve ter mais problemas com um desses personagens específicos.

Olhando para os dois grupos, ele está propenso a colidir com Tony Stark. Talvez porque cada um deles se considere o líder do grupo. E os dois são espertinhos. Veremos um pouco disso nesse filme, com certeza.

Chris Pratt

"Vingadores: Guerra Infinita" vai reunir os maiores heróis da Marvel

Frazer Harrison/Getty Images Frazer Harrison/Getty Images

Espertinho e engraçadinho

Embora o ator minimize seus méritos, a personalidade engraçada e espertinha de Quill, que torna o personagem tão cativante, tem muito do próprio Pratt, que mesmo longe dos sets de filmagem mantém a imagem de boa praça irreverente: está sempre de bom humor, tem muitas piadinhas prontas quando participa de programas de entrevistas, é conhecido entre jornalistas por distribuir abraços e esbanja caras e bocas para os fotógrafos nos tapetes vermelhos.

Muito disso faz parte da persona pública que criou (ele mesmo admitiu, em entrevistas antigas, que gosta de fingir que está improvisando, quando na verdade perdeu horas aperfeiçoando uma tirada), mas Pratt admite que há alguma intersecção entre realidade e ficção. Ele conta que tenta imprimir seu "espírito" em cada personagem, e que se pergunta que circunstâncias de sua vida teriam que ser diferentes para se tornar como ele.

Tem uma parte grande de mim em cada personagem que interpreto. Peter Quill, por exemplo: sua mãe morreu quando ele tinha 9 anos, ele foi sequestrado e levado para o espaço, e pôde se tornar um fora da lei e construir sua própria persona. Eu sinto que, se isso tivesse acontecido comigo quando eu tinha 9 anos, eu teria me tornado Peter Quill.

Chris Pratt

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Chris Pratt e Anna Faris em 2011 Chris Pratt e Anna Faris em 2011

A guinada

Se hoje o ator é um dos principais embaixadores do universo Marvel e seu rosto se tornou indissociável do Senhor das Estrelas, quando o estúdio anunciou "Guardiões da Galáxia", ele não seria a primeira opção de nenhum diretor para interpretar um super-herói. Gordinho e conhecido por papéis de coadjuvantes engraçadinhos --como o namorado bobão da série "Parks and Recreation", ou o amigo advogado sarcástico de "De Repente Pai"--, nem Pratt acreditava ser o cara certo para um papel como aquele.

"Eu estava meio que em uma encruzilhada como ator, em crise de identidade. Não tinha certeza de como o mundo me via, ou de como eu mesmo me via. Quando era bem mais novo, eu costumava estar em forma, mas não conseguia os testes para os papéis que queria, em filmes de ação ou como protagonista", relembra ele, que despontou atuando em séries como "Everwood" e "The O.C.".

Pratt havia se casado com a também comediante Anna Faris pouco antes, em 2009, e isso também não o ajudou muito a alcançar o físico ideal para um astro de ação (os dois se separaram no ano passado e têm um filho juntos, Jack, 5).

Eu só conseguia os papéis de namorado babaca, ou do atleta popular, ou do idiota de quem ninguém gosta. Esses eram os personagens para os quais eu estava fazendo testes. Estavam me fechando nesse nicho. Quando entrei em 'Parks and Recreation', dei uma engordada.Estava apaixonado, e me divertindo, e saindo muito. Dava para ver isso no meu corpo, e funcionava muito bem para o personagem de Andy Dwyer.

Chris Pratt

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Pratt continua: "Naquele ponto, achei que minha carreira seria aquilo. Eu faria coadjuvantes, o que não era mau. Estava ganhando bem e gostava muito, estava me divertindo. E fiz testes para coisas que eram parecidas com filmes da Marvel, protagonistas de filmes de ação, mas nunca me chamavam e eu não achava que era o cara certo, nunca estava em forma para os papéis. Nesses casos, o aspecto físico e estético importa muito. Você é como um objeto de cena".

Foi então que surgiu a oportunidade de atuar no drama sobre a captura de Osama Bin Laden "A Hora Mais Escura" (2012), e Pratt decidiu agarrar a chance e se esforçar para conseguir o físico de um fuzileiro naval. Na mesma época, James Gunn estava com dificuldades para encontrar seu protagonista, mas havia rejeitado o nome de Pratt --que também não demonstrara interesse quando soube do papel.

"Eu não queria fazer 'Guardiões da Galáxia', mas depois de 'A Hora Mais Escura', comecei a redefinir a maneira como me enxergava. E pensei: 'Essa é provavelmente a minha chance para entrar em forma e me dedicar, e ver o que isso faz pela minha carreira'. Foi o que fiz. Mas também queria fazer algo engraçado e irreverente, e não tinha nada assim sendo feito, com exceção de 'Guardiões da Galáxia'. Então minha agente me convenceu: 'Talvez você deva dar mais uma olhada nesse "Guardiões da Galáxia", isso pode ser o certo a se fazer'. E foi assim que aconteceu."

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Famoso e cheio da grana

E como aconteceu. Presente em dois dois maiores filmes da temporada, com "Guerra Infinita" sendo lançado agora e "Jurassic World: Reino Ameaçado" em junho, Pratt deve garantir mais uma vez seu lugar nas listas da revista "Forbes" de atores mais bem pagos e mais rentáveis do mundo, um posto que ele já ocupou por ali em 2016 e 2017.

O garoto que nasceu em uma família humilde do estado de Minnesota e passou alguns anos à deriva antes de se tornar ator, conseguiu concretizar algo totalmente improvável, que um dia prometeu ao treinador de sua equipe de luta da escola, quando foi questionado sobre o que planejava fazer da vida: "Não sei, mas vou ser famoso e ganhar uma porrada de dinheiro".

Pratt ri quando se lembra da promessa.

Eu estava trocando mensagens com aquele treinador ontem. Ele está no México, estava bebendo Coronas e disse: 'Queria que você estivesse aqui. Acabei de te ver na TV. Tem gente no mundo todo que gosta de você. Você nem os conhece, mas eles se importam com você. Queria que você estivesse comigo'. E eu respondi: 'Eu também queria'.

Chris Pratt

Jesse Grant/Getty Images for Disney Jesse Grant/Getty Images for Disney

Mas Pratt é modesto e pé no chão ao refletir sobre seu enorme sucesso.

"Você apenas vive um momento após o outro. Sou muito grato de trabalhar com as pessoas com quem trabalho, que se esforçam para me manter são. É uma existência estranha. Não há muitos livros sobre como se comportar, ou exemplos de pessoas que passaram por isso, mas você tenta manter a cabeça fria e saber quem você é, manter seus valores e focar nas coisas reais. Porque é tudo fumaça, vai tudo desaparecer tão rápido quanto chegou. No fim das contas, não é isso que vai fazer alguém feliz. Mas não significa que você não deve ser muito grato enquanto está passando por isso".

E como ele pretende aproveitar a maré de boa sorte?

"Temos 'Vingadores: Guerra Infinita', e, claro, um segundo 'Vingadores', o grand finale. E teremos 'Guardiões da Galáxia Vol. 3', que começamos a filmar em janeiro. Depois, não sei. As possibilidades são ilimitadas".

Charley Gallay/Getty Images for Disney Charley Gallay/Getty Images for Disney

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