! Entrevista com Paulo Chapchap, presidente do hospital Sírio-Libanês - UOL Líderes

Política faz mal à saúde

Troca de ministros por jogo político afeta saúde pública, diz CEO do Sírio-Libanês

Armando Pereira Filho Do UOL, em São Paulo
Lucas Lima/UOL
Lucas Lima/UOL Lucas Lima/UOL

As diretrizes da saúde pública no Brasil mudam de acordo com a ideologia do governo, o que impede a continuidade de trabalho num setor tão essencial à população. A avaliação é do médico paulistano e neto de imigrantes libaneses Paulo Chapchap, 61, presidente do hospital Sírio-Libanês e especialista em transplante de fígado.

De dentro de uma das instituições mais respeitadas e caras do país, critica a exclusão dos brasileiros de uma saúde de qualidade, propõe que hospitais privados participem mais do atendimento público e defende menos hospital e mais prevenção. Ele participou da série de entrevistas mensais do UOL com líderes de grandes empresas.
 

Interesses da política atropelam necessidades da saúde

O Brasil não tem consistência nos projetos de saúde pública porque tudo recomeça do zero quando muda o governo. Esse é um "problema grave" que afeta o sistema, na visão do médico Paulo Chapchap, presidente do hospital Sírio-Libanês, de São Paulo. Veja o que ele fala sobre gestão de saúde.

Política de governo x política de Estado

"É muito difícil fazer planos com ministros da Saúde que mudam a cada ano. O novo ministro vem, bem-intencionado, mas aquele cargo é político e pode ser que o presidente tenha de mudá-lo para compor a sua base no Congresso. E, ao mudar, muda a política [de saúde] também. A gente tem grande dificuldade de ter política de Estado, e não de governo no Ministério da Educação e no da Saúde."

Muita fala, pouca ação

"O que está faltando é a gente passar para a execução. Na Associação Nacional dos Hospitais Privados, discutimos isso à exaustão. Produzimos o 'Livro Branco da Saúde', com várias recomendações. Distribuímos para gestores públicos e privados no país inteiro. Criamos agora o Instituto Coalizão Saúde (que reúne todas as entidades do setor). Produzimos com a consultoria McKinsey um documento profundo com uma série de sugestões, mas essas soluções precisam ser implementadas. Falta integração maior entre público e privado."

Privado e público não são inimigos

"Tivemos nos últimos governos antes do atual uma visão ideológica de separação do que era público e do que era privado. Diziam que qualquer iniciativa de contribuição do setor privado para o setor público era privatização da saúde. Tenho visão absolutamente oposta a essa. O governo deve exigir, mais do que pedir, uma participação maior da iniciativa privada na assunção de responsabilidades pelo SUS, de forma a co-responsabilizar a sociedade civil pelos resultados que a gente espera para a população."

Saúde varia com ideologia

Rede particular tem de ajudar a pública

Para Paulo Chapchap, a separação entre a saúde particular e a pública é causadora de privilégios e não ajuda o país. Ele vê uma situação de colaboração possível, mas admite que o que SUS (Sistema Único de Saúde) paga não é suficiente para remunerar um serviço de alta qualidade.

O Sírio-Libanês tem isenções de impostos por ser uma entidade sem fins lucrativos, mas, por lei, tem de prestar serviços ao sistema público, devolvendo essas isenções. 30% são em forma de atendimento gratuito a pacientes do SUS. Os outros 70% vão para desenvolvimento do sistema público, como treinamento de profissionais.

No Sírio, são feitos transplantes de fígado e tratamento de câncer de mama. "Nós poderíamos ampliar esses projetos, contratados pelo SUS. Isso pode ser ampliado não só no Sírio, mas em outros hospitais privados", afirma Chapchap.

Ele diz que o hospital tem o maior programa gratuito do Brasil de transplante de fígado em crianças. "Ajuda a reduzir fila e provém serviço de alta qualidade gratuita."

No entanto, reconhece que a tabela paga pelo SUS não cobre os gastos para fazer uma eventual ampliação desse serviço. "Com o que o SUS paga, é insuficiente. Mas você pode fazer contratos de gestão pelo custo. Pelas tabelas do SUS é muito difícil, o próprio governo reconhece isso."

Os privilegiados e o resto

"Essa separação [dos sistemas de saúde] é ruim, cria dois países diferentes: um dos privilegiados, o outro daqueles que não conseguem receber a atenção devida às suas necessidades. Se eu fosse do governo, faria as parcerias com o setor privado, por contrato, com moduladores de qualidade, de produção, e responsabilizaria o não cumprimento dos contratos. Dividiria a responsabilidade pela provisão de serviços com a sociedade civil."

Sírio gerencia três hospitais públicos

"Criamos uma Organização Social (OS), o Instituto Sírio-Libanês de Responsabilidade Social, que faz contratos de gestão com o poder público para a gestão de hospitais 100% SUS. Temos três: Hospital Geral do Grajaú, na zona sul de São Paulo (estadual), Hospital Infantil Municipal Menino Jesus, na região central, e Hospital Regional de Jundiaí. A gente transfere para esses hospitais os mesmos protocolos e busca a mesma qualidade e os mesmos resultados."
 

O melhor é para quem paga

Modelo de hospitais privados hoje estimula desperdícios

Diante da crise econômica, os planos de saúde estão pressionando a mudar a forma de pagamento dos serviços nos hospitais particulares. Hoje se paga por todas as ações, como um exame de raio X e a colocação de um gesso em uma perna. A ideia é bancar um pacote de atendimento completo ao paciente (independentemente do número de procedimentos). O modelo atual favorece os hospitais, mas o presidente do Sírio-Libanês defende a mudança. Diz que é preciso pensar na sustentabilidade do negócio.

"É necessário mudar a forma de remuneração. A forma atual --por quantidade de serviços-- obviamente pode estimular a utilização exagerada e desnecessária de serviços de saúde, o que levaria a maior exclusão: para alguns que podem, uma utilização maior, e excluindo aqueles que não podem", afirma.

"É necessário para a sustentabilidade do setor. Em princípio, os hospitais estariam mais confortáveis não assumindo uma parte dos riscos dos procedimentos. Mas esse conforto é de curto prazo. Hoje o sistema tende a não ser sustentável."

Chapchap diz que as empresas que fornecem o benefício saúde a seus profissionais estão cortando custos para se sustentar na economia. "A despesa que mais aumenta é o benefício saúde. Precisamos conter isso para garantir a sustentabilidade das grandes corporações. Como conter? Evitando desperdícios, trazendo uma parte da responsabilidade ao próprio prestador de serviços [os hospitais]."

Médico precisa ouvir paciente

O Sírio-Libanês é assim

  • Nome completo

    Sociedade Beneficente de Senhoras Hospital Sírio-Libanês

  • Fundação

    1921

  • Unidades

    3 na cidade de São Paulo e 3 em Brasília (DF)

  • Médicos

    231 contratados e 4.000 cadastrados (podem atuar no hospital)

  • Funcionários

    6.000

  • Pacientes atendidos

    58 mil por mês

  • Internações

    2.000 por mês

  • Leitos

    464 (em expansão para 611)

  • Faturamento em 2016

    R$ 1,945 bilhão

  • Faturamento previsto para 2017

    R$ 2,243 bilhões

Histórias de pais e filhos que doam fígado ainda vivos

Formado em cirurgia geral, cirurgia pediátrica e transplante de fígado, o presidente do Sírio-Libanês tem histórias comoventes para contar de sua prática médica, que ainda exerce em paralelo com a atividade administrativa. Veja alguns de seus relatos sobre carreira e vida pessoal.

Histórias comoventes de relacionamento

"A grande maioria doa o fígado para o outro em vida (parte do fígado, que depois se regenera). É o pai doando para o filho, o filho para o pai, irmãos. Existem histórias notáveis de aprofundamento de relação. O reencontro de um pai e uma mãe com um filho, não tem nada mais recompensador para o médico do que exercer uma atividade de alto risco e ver um resultado excelente para o ser humano. Há inúmeras histórias. Mas nem sempre têm sucesso. Temos, com uma equipe muito bem-formada, me orgulho de dizer, os melhores resultados do mundo em transplante de crianças. A gente atinge 97% de sobrevida. Mas ainda há perda, e há muita tristeza dentro da perda, porque é um tratamento que você começa a fazer parte da família. Você acaba sofrendo muito quando há uma perda."

Conselho de médico para viver bem

"A gente já sabe tudo que precisa para ter uma vida longa e saudável: atividades físicas regulares, comer com responsabilidade. Pode comer tudo, mas com responsabilidade. Pode sentir o gosto das coisas muito boas, mas em pequenas quantidades. Não exagerar em nenhuma comida, mesmo as saudáveis. Beber com moderação, não é proibido bebida alcoólica, zero de fumo. Ter atividades macropolíticas que impliquem a diminuição da poluição do ar e a qualidade da água, porque são os fatores de maior impacto na saúde. Você não percebe quão ruim é respirar o ar de uma cidade como São Paulo."

Cuidar não só do corpo, mas da cabeça também

"Diminuir o estresse da vida diária, viver o presente. Dona Violeta Basilio Jafet, que morreu recentemente, com 108 anos, e foi a fundadora do hospital Sírio-Libanês, na área de relacionamento, ela dizia que existem três coisas para ter uma vida saudável: perdoar, esquecer e amar.

- Perdoar: porque nós todos erramos

- Esquecer: porque perdoar sem esquecer você estabelece uma relação de poder com o outro, que não é boa

- Amar: temos de basear os relacionamentos no afeto, mesmo os profissionais. Passamos a maior parte de nossa vida no ambiente profissional. Se não desenvolvermos afetividade no nosso entorno, vamos viver em conflito permanente e não vamos conseguir ter uma vida boa.

A saúde mental é fundamental. Não adianta só fazer exercício físico se não fizer um exercício de relacionamento na sua vida diária.

Um dos segredos da boa vida: viver o presente e se relacionar de uma forma muito mais colaborativa do que competitiva, entre instituições, entre empresas e entre pessoas."

Arte/UOL

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