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Papai Noel da crise

No Rio, aumenta procura por vagas de bom velhinho, mas shoppings devem pagar 20% a menos

Adriana Freitas Colaboração para o UOL, no Rio
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Historicamente, a empregabilidade de quem tem mais de 50 anos, barriga avantajada, sobrepeso, cabelos --e barba-- brancos costuma ser bastante reduzida, ainda por cima num cenário de crise.

Mas acontece exatamente o oposto se o candidato tem talento para ser Papai Noel.

No Rio de Janeiro, o segundo Estado com a maior taxa de desemprego no Brasil, de 15,4%, segundo a última pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatístca), a Escola de Papai Noel teve o dobro da procura por vagas e um aumento nas inscrições de cerca de 20% em relação a 2016.

Segundo o idealizador da escola, Limachem Cherem, muitos Papais Noéis saem do curso com uma vaga temporária já garantida num shopping, para receber de R$ 5.000 a R$ 15 mil, dependendo de quem contrata, por 40 dias trabalhados - o salário médio ficar por volta de R$ 6.000.

"No Rio, 20 shoppings vão contratar e outros de fora do Estado também entraram em contato conosco. Além disso, alguns alunos conseguem vagas em eventos e lojas por conta própria", conta Cherem.

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Espelho da crise

A procura do curso por candidatos que nada têm a ver com o perfil é um dos sintomas da crise. "Normalmente, selecionamos homens com mais de 50 anos, barba e cabelos brancos, que gostem de crianças, estejam bem de saúde e não tenham vícios. Quem não se encaixa é eliminado. Mas agora recebemos fotos de homens muito jovens e magros [querendo participar]", diz.

Outra questão é que os empregadores estão barganhando os pagamentos. Segundo conta, houve uma queda de cerca de 20% em relação ao valor do ano passado.

Além disso, a escola teve dificuldade para encontrar o veludo importado usado na roupa de Papai Noel. "Tivemos que comprar em São Paulo, porque não achamos mais por aqui."

Na última aula do curso mais recente (são quatro e um dia reservado para a formatura), o representante comercial David Silva, 67, vestiu a fantasia completa sem se importar com o calor. Os demais alunos vibraram com a caracterização e em uníssono cantaram músicas natalinas. "Esse dinheiro extra vai me ajudar pelo segundo ano consecutivo como Papai Noel", afirma Silva.

O diretor de teatro e professor de música Gedivan Albuquerque é o responsável por colocar a turma no tom e aumentar o repertório. "Gente, mais cadenciadamente, olhem o ritmo", ensina.

Na turma, 50 alunos se formaram no final de outubro. Eles têm aulas de música, representação, maquiagem e de como lidar com as crianças.

Para auxiliá-los, a escola também prepara as Noeletes, que têm entre 18 e 24 anos e ganham por volta de R$ 3.000 pelos mesmos 40 dias.

Muitas delas são jovens tentando seu primeiro emprego ou estudantes procurando uma renda extra. "É uma experiência diferente. Vou usar minhas férias na faculdade para ganhar um pouco de dinheiro", diz a estudante de odontologia Julia Fernandes Nogueira, 19.

Ela conta que espera fazer parte da estimativa do Clube de Diretores Lojistas, que prevê a contratação de 10 mil temporários para o fim do ano e para o verão na cidade.

O "bico" como assistente do bom velhinho será o segundo trabalho de Julia, que atuou como jovem aprendiz quando estava no ensino médio, mas ainda não começou a estagiar em sua área, como dentista.

Grana extra

Douglas Lucena, 63, vai ocupar o trono num shopping da zona oeste do Rio e calcula ganhar agora o equivalente a dez meses de trabalho como camelô. "Durante o resto do ano, vendo salgado, picolé e tudo o que precisar."

O comerciante aposentado Deoclécio Jacinto Pereira, 73, que vai trabalhar num grande shopping da zona norte, se mostra otimista quando o assunto é o mercado natalino. "Acho que para a gente não tem crise", diz ele, que vê no seu trabalho uma missão e um sinal divino. "Encontrei há anos uma bota de Papai Noel na rua e a partir daí decidi me vestir como ele. Primeiro, voluntariamente, depois profissionalmente."

O servidor público estadual Celso Tobias, 55, pediu licença-prêmio de três meses de suas atribuições como inspetor de segurança de administração penitenciária em Gericinó, na zona oeste, para ser Papai Noel. "A situação como servidor do Estado está muito ruim, ainda não recebemos o 13º de 2016, por isso preciso aumentar minha renda neste ano. Além disso, vou me aposentar daqui a dois anos e gostaria de atuar como Papai Noel quando parar de trabalhar."

O consultor de segurança Carlos Alberto de Souza Patrício, 65, fez pela primeira vez o curso neste ano e já conseguiu emprego num shopping da zona sul. "Já vinha com o desejo de ser útil no Natal, dar asas à imaginação das crianças, manter o sonho. Eu procurei conciliar essa vontade com a possibilidade de ganhar dinheiro, já que a crise no Rio fez cair o movimento nos outros tipos de serviço", explica.

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Esse dinheiro extra vai me ajudar pelo segundo ano consecutivo

David Silva, representante comercial

Vou usar minhas férias na faculdade para ganhar um pouco de dinheiro

Julia Fernandes Nogueira, estudante de odontologia

A crise em números

  • 20%

    foi o aumento das inscrições no curso para se tornar Papai Noel no Rio

  • 15,4%

    é a taxa de desemprego no Estado do Rio, segundo o IBGE

  • R$ 15 mil

    é o valor a que pode chegar o pagamento por 40 dias trabalhados em um shopping como Papai Noel

  • 20%

    é a redução de salário prevista para este ano nas vagas temporárias de Papai Noel

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Um Papai Noel veterano

Uma das inspirações para os colegas é o ex-camelô Alfredo Jorge Ramaciole, 64, que é o mais antigo Papai Noel de sua turma em atividade, com 19 de experiência. Ele hoje vive apenas do dinheiro que ganha incorporando o papel de bom velhinho em eventos, festas e se dá ao luxo de não trabalhar mais em shoppings, posição que avalia ser muito cansativa.

"Ganho cerca de R$ 30 mil nesta época e, para mim é Natal o ano todo, pois em abril mesmo fui chamado para gravar um comercial", conta. Depois de tanto incorporar o personagem, o ex-camelô não precisa mais frequentar as aulas. Ele vai ao curso apenas para servir de incentivo para os novatos.

Ramaciole faz parte do seleto grupo que tem a agenda cheia na noite de Natal. A produtora de eventos infantis, que organiza o curso, reúne 30 Papais Noéis desde a tarde do dia 24 de dezembro e organiza visitas em casas de família que duram cerca de 30 minutos. Cada visita custa em torno de R$ 1.000.

Nessas ocasiões, além da crise, dá para sentir um efeito da sensação de insegurança. Para que as famílias não sejam vítimas de assaltantes, os contratados --mesmo caracterizados-- precisam dizer ao interfone uma senha de segurança antes de entrar.

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