! Entrevista com Theo van der Loo, presidente da Bayer no Brasil ? UOL Líderes

Negro não quer favor

Afrodescendente deseja oportunidade, diz chefe da Bayer, que propõe contratar negro mesmo sem bom inglês

Do UOL, em São Paulo
Marcelo Justo/UOL e Arte/UOL
Marcelo Justo/UOL Marcelo Justo/UOL

Preto no branco

O que uma empresa pode fazer para empregar mais negros, mulheres, LGBTs e pessoas com deficiência? E como fazê-los chegar a cargos de liderança? Em entrevista na série UOL Líderes, o presidente da Bayer no Brasil, Theo van der Loo, diz que a busca por essas respostas tem sido seu foco.

Depois de viralizar um post seu contando o caso de um recrutador que se recusava a entrevistar negros, o CEO afirma que é necessário ter mais boa vontade na hora da seleção. E que a falta de um curso de inglês ou o fato de uma pessoa não ter morado fora do Brasil não devem ser motivo para a exclusão de um candidato.

O chefe da Bayer fala sobre o alto uso de agrotóxicos no Brasil, alimentos transgênicos, riscos de anticoncepcionais e diz que, no futuro, o câncer pode se tornar uma doença crônica, tratada da mesma forma como a pressão alta.

Empresas têm de se esforçar para empregar minorias

UOL – Em que momento você percebeu que era importante falar sobre diversidade na empresa?

Theo van der Loo – Sou muito engajado em relação à inclusão e à diversidade. Muitas vezes as pessoas perguntam: ‘mas fazer diversidade é bom para o negócio?’ Eu digo sempre: esquece o business case, porque mal não vai fazer, com certeza.

Chegar para uma empresa e dizer ‘vamos ter inclusão e diversidade porque é bom para o negócio’ não vai conquistar corações e mentes. Você vai conquistar as pessoas, os empregados e a sociedade se mostrar que quer inclusão e diversidade porque é o justo, é o correto.

Eu, pessoalmente, não tenho dúvidas de que vai ajudar a empresa também no futuro.

O Brasil ainda tem muito a fazer nessa área. Nós temos aqui na Bayer cinco grupos de afinidade: gênero, que são as mulheres, PCD, para pessoas com deficiência, temos os LGBTs, os negros, afrodescendentes, e recentemente, começamos o grupo que se chama gerações.

Estamos formando esses grupos de afinidade para criar um ambiente na empresa em que possamos ter a inclusão e a diversidade de uma forma contínua, como algo que não vai depender somente de um CEO, mas que seja uma coisa perene.

Conheci muitas pessoas engajadas e diria que eu só me arrependo de uma coisa, de não ter feito isso muito mais cedo na minha carreira.

Mas não adianta eu falar de inclusão e diversidade, se eu não falar também de educação. Sem uma educação melhor, não vamos conseguir aumentar a inclusão e a diversidade.

Acredita que isso é entrave para os processos de seleção nas empresas?

Quando falamos de inclusão de deficientes, de mais mulheres ou de mais negros, muitos veem como exclusão de outros grupos. Na realidade, não é exclusão.

Obviamente não estamos demitindo pessoas para contratar outras, mas, quando houver vagas, queremos que os gestores façam um esforço maior para procurar candidatos que fazem parte do grupo da diversidade. É isso o que nós estamos pedindo, não é para excluir, é justamente para incluir.

Esse é um desafio muito grande que nós temos, o de convencer mais pessoas que contratam todo dia a procurar candidatos para a diversidade.

Muitas vezes achamos que não temos nada a ver com isso. Está tudo errado? [As pessoas acham que] alguém vai resolver o problema. Eu acho assim: posso influenciar esse processo. Se todo mundo fizer a sua parte, vamos conseguir avançar. Mas, se um gestor achar que alguém vai fazer, e eu não preciso fazer nada, aí não vai funcionar.

Se é uma coisa boa e justa, por que estamos aqui falando sobre isso, por que não estamos já fazendo? Porque é difícil. A verdade é que é muito difícil gerar uma mudança do dia para a noite.

Temos hoje o sistema de cotas nas faculdades para negros. Nos Estados Unidos, o sistema foi feito para incluir a minoria. No Brasil, temos cotas para incluir a maioria da população. Isso diz que alguma coisa está errada. Como é que tem de fazer cota para incluir a maioria da população?

O que eu aprendi no caso dos afrodescendentes é que não querem nenhum favor. As pessoas negras com quem converso na empresa falam sempre: ‘nós queremos oportunidade, não queremos favores’.

Mas dizem que eles têm que ser muito melhores que os brancos ou os não negros para poderem ter uma oportunidade, para evoluírem. Têm que ser melhor, têm que se vestir melhor do que o branco, ou seja, tudo um pouco melhor.

Temos de ter essa consciência para poder realmente praticar inclusão e diversidade. E não só em relação aos afrodescendentes, estou falando de uma forma geral.

Sabemos que temos uma cota para PCDs, mas também não é uma coisa que funciona direito, porque algumas empresas têm dificuldade, em virtude da natureza do negócio.

Para uma empresa onde muita gente trabalha só ao telefone, por exemplo, talvez seja mais fácil incluir deficientes, mas, numa empresa em que as pessoas têm que se locomover muito, com vendedores que têm de circular pelo país inteiro, fica mais difícil.

O que as empresas precisam fazer para que, quando houver mais diversidade de funcionários, eles não fiquem estacionados na carreira e cheguem aos cargos de liderança?

Falar sobre esse tema já é um bom passo. É como uma propaganda: precisa continuar até convencer as pessoas, para que os empregados possam se apoderar desse tema e todos participem, não só alguns gestores.

Temos gestores aqui na Bayer que dizem: ‘eu tenho essa vaga e gostaria que fosse preenchida por uma pessoa do grupo da diversidade; vou esperar até vocês acharem uma pessoa’. Na área de recursos humanos, temos uma psicóloga afrodescendente que também ajuda nesse processo.

O preconceito existe. Sabemos que é uma coisa muitas vezes inconsciente, então tem de chamar as pessoas para a conversa, aumentar a conscientização sobre o preconceito e assegurar que tenha algum mecanismo para evitar que o preconceito aconteça na hora da contratação.

Às vezes também somos muito rígidos na contratação. A igualdade é quando tratamos todo mundo igual. Mas eu pergunto: se no passado, PCDs e negros nunca foram tratados como iguais, será que é suficiente começar a fazer isso a partir de hoje? Ou temos que, de certa forma, ajudar um pouco mais? Para que todo mundo tenha mais ou menos a mesma oportunidade e, no caso da falta de algum curso de inglês, ou de uma pessoa que não morou fora do Brasil, ela não seja excluída.

Para 250 vagas de estagiários, nós recebemos mais ou menos 65 mil inscrições por ano, e é um grande desafio fazer essa seleção.

No caso de uma pessoa afrodescendente, na hora da inscrição, ela pode colocar, se quiser, ser afrodescendente ou não. Isso facilita na seleção de candidatos afrodescendentes. Então, se o inglês não for perfeito, não vou ficar olhando os detalhes, vamos ver se tem potencial e se tem talento. Se falta alguma coisa, vamos tentar oferecer esse algo a mais aqui.

Quando comecei a tocar nesse tema, fiz um post no LinkedIn e foi muito interessante o feedback de pessoas que pediram para eu continuar. Eu não sou protagonista, obviamente, mas quero ajudar na causa. Há também algumas coisas que não posso falar, que é melhor uma pessoa negra falar, mas acho que há coisas que eu devo falar, porque, se eu falar, as pessoas vão ouvir.

O post que eu publiquei, se fosse escrito por uma pessoa negra, ia ser classificado de mimimi, mas, como foi uma pessoa branca que colocou, um CEO de uma empresa, falam ‘isso aqui é uma coisa um pouco diferente’. Tanto é que muitos jornais me ligaram.

Eu não tinha intenção de criar tanto alarde, mas aí vi que a coisa era muito pior do que havia imaginado, a realidade é essa. Eu me assustei no início, mas vi que havia começado uma coisa que não podia parar mais.

Algumas pessoas também me mandaram mensagens dizendo: ‘Teo, você é muito corajoso’. Para fazer o certo e o justo, não tem de ter coragem. É fácil fazer o certo e o justo. Coragem é quando você é um dos poucos que faz, e eu ainda me sinto bastante sozinho nesse aspecto.

Há muitos colegas que aplaudem, mas dar aquele passo e a própria empresa começar a fazer, já é um pouco mais difícil.

Você mencionou que não poderia falar algumas coisas, teria de ser uma pessoa negra a dizer. Pode dar um exemplo?

No começo, eu não sabia como lidar com o tema. O que fiz foi conversar com os negros, conversar com LGBTs e com as pessoas com deficiência e com as mulheres. Quando começa a conversar, você fica mais à vontade para fazer as perguntas difíceis.

No caso dos afrodescendentes, convidei duas pessoas da minha confiança para tomar um café e perguntei 'o que que eu faço?' Me falaram, ‘continua o que você está fazendo, conversa com a gente’. Aí eu disse: 'mas eu não sei o que eu falo, se falo negro, falo afrodescendente, afrobrasileiro, preto' ‘Fala o que você achar melhor, mas fale da gente, fale COM a gente, converse com a gente'.

Aí que surgiu também o comentário, ‘nós não queremos favores, queremos só oportunidade para demonstrar nosso talento, nosso conhecimento’. Isso ficou muito marcado.

Qual é o cenário de diversidade hoje na Bayer e onde pretendem chegar?

Hoje, 36% são mulheres – algumas áreas são formadas 85% por mulheres, o que também não é bom, tem de ter em cada área um pouco de diversidade, porque faz bem para o negócio. Diria que, com relação às mulheres, estamos bem até o nível de gerente. Diretor para cima ainda falta, podemos fazer um pouco mais.

Com os deficientes, estamos quase cumprindo a cota. Temos muitos aprendizes que são deficientes, é um acordo que fizemos com o Ministério do Trabalho, junto com o Sesi, para fazer um treinamento com essas pessoas. Algumas ficam aqui e outras acabam indo para o mercado. Então, temos também um papel com os jovens aprendizes para eles ingressarem no mercado de trabalho, e a maioria são pessoas com deficiência.

Os estagiários que entram para a inclusão racial, temos atualmente 23% - a média até recentemente era de 17%, e queremos chegar a 35%, 40%, daqui a alguns anos, porque, se mais pessoas vão se formar na faculdade, automaticamente temos de ter também mais candidatos.

Temos poucos afrodescendentes no nível de gerente para cima. São poucos comparando com as mulheres, por exemplo. Temos muitos afrodescendentes nas fábricas. Sabemos que na alta gerência há muito pouco, talvez três ou quatro. É uma área em que vamos ter de avançar bastante.

No total, temos 21% de afrodescendentes, quase 5% de PCDs e 10% de LGBTs.

A batalha dos negros

Câncer pode ser tratado como pressão alta no futuro

UOL – A tendência da indústria é cada vez investir em medicamentos que têm um preço maior de venda?

Theo van der Loo – Nos últimos anos está ocorrendo uma mudança, porque, com a tecnologia, é possível avançar muito mais na pesquisa.

Na área de oncologia, temos muita inovação, muito mais do que tínhamos duas décadas atrás. O que está por vir vai ser uma coisa fenomenal, não só no caso da Bayer, mas também de outras companhias farmacêuticas investindo em mercados onde talvez haja menos pacientes – no caso de oncologia há bastante –, mas onde é preciso ter uma eficácia cada vez maior.

A expectativa é que no futuro até um câncer possa ser uma doença crônica, e possamos tratar os pacientes de uma forma crônica como a hipertensão.

Existem projetos ou investimentos específicos para doenças como aquelas ligadas ao mosquito?

No caso do zika vírus, o que a Bayer tem é aquele fumacê usado para matar o pernilongo. É da divisão agro da Bayer, que chamamos de ciências do meio ambiente. Temos um projeto social no Nordeste no qual ajudamos a comunidade local com treinamento e oferecemos vários produtos, inclusive os anticoncepcionais, para que a mulher possa planejar sua gravidez e não tenha surpresas. Procuramos divulgar cada vez mais conhecimento sobre o zika, para que as mulheres possam se cuidar, se prevenir e, dessa forma, garantir uma gravidez saudável.

Estamos até pensando em usar drones para ver onde há água parada e tratar esses focos.

Temos pesquisa, por exemplo, no caso do fumacê, para procurar um produto mais inovador que ataque o mosquito da dengue, por exemplo, e também do zika vírus.

Recentemente surgiram notícias e depoimentos de mulheres que usam anticoncepcionais e tiveram problemas sérios de saúde, ligados a trombose e a uma possível relação com a depressão. A indústria dá informação suficiente sobre os riscos desses medicamentos para a população?

Totalmente. Esse tema vem sempre à tona, são milhões de mulheres que usam diariamente o anticoncepcional no mundo inteiro, e os médicos, já na faculdade, sabem dos riscos e benefícios.

Pela vasta experiência que a nossa empresa tem, sabemos que o risco [de tomar anticoncepcionais] é relativamente pequeno comparando com os benefícios. As mulheres, ao terem uma gravidez indesejada na adolescência, acabam fazendo um aborto, que por si só já tem um risco enorme.

E, além do risco de saúde, o impacto psicológico é uma coisa que fica durante a vida toda, ou seja, até nesse aspecto, o uso da pílula, sendo bem feito, com a ajuda de um médico e acompanhamento médico, o risco é bastante calculado.

O médico pode avaliar melhor obviamente qual paciente deve ou não tomar a pílula. Isso é no mundo inteiro, não é só no caso do Brasil.

Repetindo a pergunta: a indústria dá informação suficiente, na sua opinião?

A indústria dá toda a informação nas bulas, nos sites, com toda a transparência, em relação ao risco-benefício de qualquer medicamento. A informação consta da bula e também, em alguns casos, do site da empresa, onde podemos falar diretamente com o paciente.

Acha que haveria espaço para outras formas de comunicação nesse sentido, como campanhas informativas?

No caso de anticoncepcional, de planejamento familiar, há muito espaço para isso, começando nas escolas. Uma adolescente bem informada vai ver que tem um arsenal enorme de opções. E não precisa ser pílula, podem ser camisinha e outras opções que ela tem para planejar a gravidez.

Muitas vezes falta informação. Seria muito bom para o país se fosse feito um pouco mais em relação a isso, nas escolas, por exemplo.

Haveria espaço também para a indústria dar mais informações sobre riscos na TV, nas redes sociais?

De forma geral, acho que o médico é o mais indicado, porque cada paciente é um caso à parte, ele tem de ver o histórico da paciente, a questão familiar, tudo isso. O médico é sempre a pessoa mais indicada para avaliar qual é o melhor método para a paciente.

Mas, normalmente, o que nós colocamos na internet é aquilo que podemos colocar, considerando a legislação aqui do Brasil.

De que forma a concorrência com genéricos e similares afeta o negócio de medicamentos?

Para ter genérico é preciso, primeiro, ter pesquisa, inovação, uma patente. Essa patente vai caducar e, a partir daí, há o genérico. Se não houver inovação, os genéricos vão acabar também. Então, obviamente, não somos contra isso, faz parte do jogo.

É o que eu digo: qualquer medicamento no mundo surgiu porque algum dia alguém correu o risco, investiu para desenvolver esse produto. Nós esquecemos, achamos que é um produto antigo.

Muitos antibióticos, por exemplo, não têm mais patente, mas, se algum dia alguém não tivesse corrido o risco de fazer essa pesquisa, não teríamos esse antibiótico aqui hoje. Vale a pena pensar sobre isso.

A existência dos genéricos ou similares não é um impacto relevante.

Obviamente que é uma briga no mercado, mas temos de conviver com esse mundo, correr atrás de mais inovação, porque, se fosse muito fácil, pararíamos de fazer inovação também.

Existe muitas vezes uma percepção de que quem faz pesquisa são somente as multinacionais. Isso não é mais verdade. Temos hoje muitas empresas nacionais sérias, que estão fazendo investimento em pesquisa. Talvez não chegue ao mesmo nível que o das grandes multinacionais, mas algumas já têm laboratórios e pesquisa até fora do Brasil para trazer inovação para cá.

A luta contra o câncer

Brasil precisa mais de agrotóxico por causa do clima

UOL - O Brasil é o maior consumidor de produtos agrotóxicos no mundo. Existe alguma alternativa sendo desenvolvida ou estudada? Há possibilidade de mudança para que os danos sejam minimizados?

Theo van der Loo – Uma das mudanças é o “precision farming”, que é o uso de satélite para identificar bem cedo onde existe alguma praga, alguma doença ou bicho afetando uma planta, para que seja possível tratar isso imediatamente e evitar que se alastre pela plantação. Essa é uma forma de reduzir o uso do agroquímico.

Procuramos sempre oferecer soluções para que o agricultor possa administrar a sua terra da melhor forma possível, com o menor uso de agroquímico e ter o melhor resultado possível.

O que a imprensa não fala, muitas vezes, é que o Brasil é um país tropical, com um clima mais propício a ter mais doenças no campo e com duas ou três safras por ano. Europa e Estados Unidos têm só uma safra por ano, e o próprio clima já mata um monte de bicho. Aqui no Brasil não. Então o desafio é muito maior em relação a isso. O uso maior de agroquímicos é justamente porque nós temos duas safras por ano.

Existem países onde o uso de agroquímico por metro quadrado é muito maior do que no Brasil, então tem de relativizar um pouco.

O agroquímico tem de ser usado corretamente, como um remédio, ou seja, a pessoa que está aplicando o agroquímico tem de se cuidar, tem de tomar a precaução que colocamos na bula dos agroquímicos. Da mesma forma, quando o produto é aplicado, tem de ser da forma correta, com a dosagem correta.

Temos um laboratório em São Paulo onde analisamos o resíduo que fica nas plantas, e, quando tudo é bem feito, o agroquímico cumpre com a sua promessa.

Quando oferecemos um produto para registrar, temos de ter toda essa pesquisa feita para poder ter a aprovação.

É só tentar ponderar um pouco, não criar um alarme muito grande. Quando tudo é feito com responsabilidade, podemos controlar tudo porque efetivamente isso foi pesquisado. É por isso que gastamos bilhões por ano em pesquisa.

Por que isso não acontece na prática, é falta de informação do produtor? Quem tem de dar informação para o produtor?

Eu não sei se não acontece na prática. Temos pessoas dedicadas no campo são os “stewardship”, que vão justamente falar com os agricultores como usar o produto corretamente, fazendo treinamento.

Há a bula no agroquímico e também há uma prescrição, quer dizer, o agrônomo, ele tem de fazer uma prescrição do que vai ser usado para aquela planta. Existe um controle para isso. Acho que a falta de informação pode ser um dos motivos porque também existe essa ideia preconcebida em relação aos agroquímicos.

Não existe uma alternativa ao agroquímico ainda, ou seja, um produto que possa substituí-lo no futuro sem causar os mesmos danos?

Há muita pesquisa, e obviamente vamos trazer ao mercado cada inovação. É como o medicamento, tem de analisar o risco e o benefício. Ficarmos sem uma safra de soja seria fatal para o mundo todo.

Então, quando existe um produto desse tipo, na hora em que a safra chega até o consumidor, se tudo for feito corretamente, esse risco já foi pesquisado. Então não é assim como as pessoas pensam, como é colocado às vezes na imprensa.

Sobre a dependência do produtor da semente transgênica decorrente da patente. É possível evitar essa dependência, para que o produtor possa ter outras alternativas e para que não tenha um custo tão alto?

É um tema também polêmico. Nós queremos a pesquisa, queremos a inovação, mas não queremos pagar por isso. É por isso que temos patente. E essa patente tem uma data de vencimento. A partir daí a pessoa pode usar o que foi inovação sem pagar nenhum royalty por isso. Mas acredito que, para manter o modelo, ter a inovação de que precisamos, também é preciso ter uma política adequada de proteção de propriedade intelectual.

Isso tem de ser pago de alguma forma, senão as empresas não estariam pesquisando. Então há esse balanço. É uma questão muito polêmica, mas acho que tem de reconhecer o que é inovação.

O Brasil já está entre os grandes mercados dos transgênicos, da semente geneticamente modificada. Como vê essa tendência, uma vez que a Bayer está abrindo mão dessa parte de sementes para fazer a fusão com a Monsanto [esta entrevista foi feita antes da aprovação da fusão nos EUA]. Qual é a tendência de uso desse produto, que, assim como a Monsanto, gera muita divergência? [A Bayer decidiu não usar o nome Monsanto]

Não sou cientista especializado nessa área, mas sabemos que ainda há pouca evidência em relação aos transgênicos. Obviamente, há muita controvérsia, mas ainda não há muita prova contundente em relação a isso.

O que sabemos é o seguinte: a demanda por alimentos até 2050 vai aumentar muito, vamos ter 10 bilhões de pessoas no mundo inteiro, se não avançarmos com a tecnologia, vai faltar comida.

Os transgênicos acabam ajudando bastante nisso. Se a população estiver disposta a pagar mais por um produto, um não transgênico, como é o caso da Europa, que insiste muito no não transgênico, sempre vai haver um mercado para isso. Mas a área que é possível usar para plantar não aumenta na mesma proporção da população. Então temos um desafio.

Usamos muito pesticida?

A Bayer é assim

  • Fundação (mundo)

    1863

  • Início da operação no Brasil

    1896

  • Funcionários no mundo

    99 mil

  • Funcionários no Brasil

    4.500

  • Unidades no mundo

    301 subsidiárias

  • Unidades no Brasil

    4 (três no estado de São Paulo e uma no estado do Rio de Janeiro)

  • Faturamento no mundo

    2017: 35 bilhões de euros (R$ 151,6 bilhões); 2018 (previsão): deve repetir o faturamento de 2017 (35 bilhões de euros)

  • Lucro em 2017

    7,336 bilhões de euros (R$ 31, 8 bilhões)

  • Principais concorrentes

    Dupont, Dow, Syngenta, Monsanto, Novartis, Pfizer, Sanofi, Janssen, Roche, Johnson & Johnson

Não é Aspirina, mas agronegócio que lidera ganhos no Brasil

UOL - A Aspirina talvez seja o produto mais conhecido da Bayer. Qual é o peso do medicamento hoje para a companhia?

Theo van der Loo – Realmente a Aspirina é um marco da Bayer na área da saúde. Eu falo que é a ‘Coca-Cola’ dos medicamentos. Ela é uma referência, mas não é mais tão importante como era quando a Bayer começou a se envolver mais na área de saúde humana.

A Bayer começou na área química e pouco a pouco foi migrando para a área da saúde. Atualmente, estamos ligados unicamente a ciências da vida, saúde humana, saúde animal e saúde das plantas, o agronegócio. Então a Aspirina fica como aquele marco do passado, uma referência.

Os investimentos da empresa estão sendo mais concentrados em que aspecto?

Globalmente, 75% do faturamento da Bayer vem da área da saúde e 25%, do agronegócio. Na área de pesquisa e desenvolvimento investimos 4 bilhões e meio de euros, mais de 10% do faturamento global. A maior parte desses investimentos está na área de farma. A Bayer tem quase 14 mil pessoas dedicadas a pesquisas e desenvolvimento.

No caso do Brasil, é um pouco o inverso. Sessenta e sete por cento do faturamento de 2017 veio do agronegócio, e o restante da área da saúde.

Porque o Brasil é um país de agricultura, é o segundo país mais importante para a Bayer no segmento de agricultura. No total, somos o quinto país mais importante para a Bayer no mundo, mas, especificamente no agronegócio, somos o segundo país.

Na área farmacêutica, somos o décimo país, na área de consumo, o 13°, e na área de saúde animal, o oitavo país, ou seja, o Brasil é um país muito importante para a Bayer. Estamos aqui no Brasil há 122 anos, somos a empresa farmacêutica mais antiga no mercado, e a nossa tendência é realmente continuar presente.

Marcelo Justo/UOL e Arte/UOL

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