! Entrevista com Otto von Sothen, presidente da Tigre ? UOL Líderes

Falta d'água veio para ficar

Venda de caixa d'água dispara com crise de abastecimento, ameaça que será constante, diz chefe da Tigre

Do UOL, em São Paulo
Simon Plestenjak/UOL e Arte/UOL
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Torneira seca

A água será um bem cada vez mais escasso, o que leva as pessoas a buscar meios seguros de armazenamento. A afirmação é do presidente da Tigre, Otto von Sothen, em entrevista na série UOL Líderes, na qual aponta o aumento na venda de caixas d‘água como um reflexo imediato desse comportamento na indústria.

Para ele, falta de saneamento é tão grave quanto a educação ruim, e os políticos não se preocupam com o tema porque são obras que não aparecem como pontes ou viadutos.

Falta de saneamento é um drama no Brasil

UOL – De que forma a recente crise de abastecimento de água influenciou a empresa e o setor?

Otto von Sothen – A forma mais imediata é no negócio de caixas d’água. Esse é um negócio que cresce de maneira vigorosa há bastante tempo. Nós tínhamos um negócio pequeno de caixa d’água que vem crescendo numa velocidade exponencial nos últimos anos e ainda não sabemos qual é o teto. As pessoas precisam de um mecanismo de armazenagem de água segura nas suas casas. Então, evidentemente, essa é a correlação mais óbvia.

A outra é o negócio de estações, que, para mim, são um mecanismo muito mais durável, muito mais sustentável no tempo, que permite a reutilização da água, não para o consumo humano, mas para reúso em banheiro, irrigação etc. No ano passado, esse negócio dobrou de tamanho na Tigre, evidentemente a partir de uma base pequena, mas dobrou, e a perspectiva é que este ano volte a dobrar.

Outro negócio que tem crescido bastante, também a partir de uma base relativamente pequena, são todos os equipamentos, seja de tubulação, equipamentos de irrigação, os aspersores na parte agrícola. É um negócio que continuou a crescer, mesmo durante a crise, e para o qual também ainda não encontramos o limite.

Tratamento de esgotos

A Tigre entrou no mercado de estações de tratamento para água e esgoto, que é o um mercado extremamente importante – a água hoje é certamente o bem mais escasso da humanidade e tende a, cada vez mais, ser escasso para frente. Nós compramos o controle de uma startup alguns anos atrás e hoje estamos nesse negócio de construção dessas estações.

Estamos muito ativos no mercado de indústrias de bens de consumo no qual tratamos o esgoto dessas empresas para que possam reutilizá-lo. Estamos em condomínios verticais, em shopping centers. O modelo é de compra dessas estações ou de aluguel, de leasing. E é um negócio que está crescendo muito fortemente, dobrando a cada ano.

Infelizmente, essa é uma realidade, a escassez de água veio para ficar. Os clientes com os quais temos trabalhado têm tido tipicamente uma redução na conta de água de 30%, 35%, e reutilização de 70% da água que eles estavam descartando. Então evidentemente ajuda bastante.

Por que ainda temos tantos problemas de saneamento no Brasil? Qual pode ser a contribuição da indústria para superar isso? 

Esse é o maior drama que eu vejo hoje no Brasil ainda. Metade das residências do Brasil não tem coleta de esgoto.

Estamos falando de 100 milhões de pessoas que não têm coleta de esgoto nas suas casas. E, das 100 milhões que têm, aproximadamente entre 30% e 40% desse esgoto não é tratado, ou seja, é coletado, mas não é tratado, o que é uma vergonha. Para mim, hoje, junto com a educação, talvez esse seja o maior drama do Brasil.

Você tem hoje uma coleta de esgoto no Norte do país que é menor do que 20%, ou seja, 80% da população do Norte não tem coleta de esgoto. O Instituto Trata Brasil coloca isso de uma maneira muito clara, não só em termos de país e de estado, mas também de município.

Mas também há muitos exemplos de prefeitos que fazem um bom trabalho, o que mostra que é possível.

O problema é que saneamento básico, na visão de alguns dos nossos governantes, não dá voto, porque é algo invisível. Não é como uma ponte, um viaduto, um calçamento de rua, uma escola, que é visível a olho nu.

O saneamento básico não é visível, mas é a causa de doenças que poderiam estar sendo evitadas. O custo na saúde pública para corrigir esses problemas é muito maior do que se investíssemos a sério na solução do problema.

O senhor vê esse cenário melhorando no futuro? Do que precisa para isso?

Vejo, na realidade, uma reversão importante, vejo a gente andando para trás. O orçamento público tanto federal, estadual como municipal, vem sendo reduzido para todo tipo de investimento, não só de saneamento básico, educação. Enfim, todos os orçamentos para investimento têm sofrido cortes importantes, porque o percentual que os governos têm destinado ao funcionalismo e às suas previdências têm subido de maneira importante.

Parcerias público-privadas seriam uma solução. A iniciativa privada está disposta a ajudar. A privatização de companhias de saneamento poderia ser uma solução, garantindo que essas companhias tenham metas de serviço, de qualidade para a população. O caminho poderia ser esse.

Mas, de novo, há bons exemplos de bons prefeitos, fazendo um bom trabalho. Então, eu reforço que, quando se quer e há boa vontade, consegue-se. Mesmo hoje, mesmo nas condições bastante restritas de orçamento. Infelizmente, é a minoria.

Sem esgoto nem educação

Reforma trabalhista não tira direitos

UOL – Que mudanças prevê com a reforma trabalhista?

Otto von Sothen – Tudo o que venha ajudar a flexibilizar tem de ser visto com bons olhos.

O que eu acho bom na reforma trabalhista é que ela não tira direitos. As pessoas com contrato temporário têm os mesmos direitos das pessoas que estão com contrato CLT. A única diferença é o caráter temporário desses contratos, que depois de um tempo você tem de transformar.

Mas acho que permite essa flexibilidade, principalmente em momentos de incerteza. Quando o empresário não tem certeza se a economia vai melhorar ou não, esse é um instrumento útil. Você testa, emprega pessoas, mesmo tendo dúvidas se aquela retomada vai ou não acontecer.

Se a legislação for mais engessada, e você tiver de contratar com um distrato mais difícil, talvez você não faça isso, mesmo na dúvida. Então, acho que qualquer mecanismo que ajude a flexibilizar as relações, sem tirar benefícios, é muito bem-vindo. Nesse aspecto, a reforma foi muito positiva.

Confiança do consumidor voltou

Com relação à questão política, é uma bola de cristal. Todo mundo tentando fazer o seu negócio andar. Esse tem sido o foco, independentemente de se vai ser A, B ou C [o próximo presidente].

A coisa mais importante que voltou foi o índice de confiança. O índice de confiança do consumidor voltou, definitivamente. É como se o consumidor estivesse cansado: “Eu cansei dessa situação, cansei da crise, quero voltar a consumir, quero voltar a ter a minha vida”. O consumidor meio que decidiu virar a página, é um pouco a leitura que faço.

Isso tem se manifestado no consumo. Porque até então, o que eu via claramente, principalmente em 2016 e algo em 2017, é que o consumo havia caído mais do que a renda. As pessoas estavam muito ressabiadas, o consumo poderia ter andado mais. Elas estavam tão preocupadas em perder o emprego, que botaram o pé no freio.

Você vê que os índices de inadimplência da pessoa física não aconteceram naqueles índices trágicos que estavam sendo previstos. As pessoas, de fato, estavam muito com o pé no freio.

Não sei se, com a virada do ano, as pessoas meio que viraram a cabeça. Eu sinto que o consumo voltou, definitivamente o consumidor decidiu ‘vamos virar a página’. É isso o que faltava para o empresário confiar também.

Essa é um pouco a sensação que tenho, e nós estamos sentindo isso também, claramente, mesmo na construção civil que para mim é, de longe, o setor mais afetado. Estamos sentindo isso também. O bacana é que foi o consumidor que tomou essa decisão, não foi o empresário.

O setor de construção civil é um dos mais atingidos pela crise econômica. O governo também tem cortado investimento em infraestrutura. Qual o impacto no setor?

Infelizmente, tudo o que depende de crédito foi muito impactado, mais impactado do que os outros setores e tem voltado com mais lentidão. Os setores que dependem de crédito nos quais as parcelas cabem no bolso, esses já estão dando sinais de retomada.

Você pega a linha branca, por exemplo. O crescimento da indústria eletroeletrônica em 2017 já foi de 5%, a automobilística também cresceu quase 10%, algo de exportação ajudou, é verdade, mas a construção civil ainda não.

A Tigre cresceu em 2017 algo como 3%. Como fizemos isso? Crescendo a nossa distribuição, ganhando novos clientes, inovação. Lançamos uma série de novos produtos que estão indo muito bem, como uma tubulação antirruído muito importante para pessoas que moram em prédio e usam o banheiro à noite, para não atrapalhar o vizinho.

E diversificação de negócios e diversificação geográfica, entrando em outros países também. Essas coisas têm ajudado a Tigre a crescer mesmo em um cenário tão adverso.

Dito isso, em 2018, mesmo a construção civil deve voltar a crescer. Esperamos um crescimento do varejo da ordem de 5% ou 6%, o que já é muito bom.

Flexibilidade para contratar

Novos hábitos fazem até torneira mudar visual

UOL – A Tigre é conhecida principalmente por tubos e conexões. O consumidor conhece outros produtos?

Otto von Sothen – Tubos e conexões são a base, mas hoje temos uma série de outros produtos: acessórios sanitários, tampa de vaso sanitário, caixa de descarga, esquadrias para portas e janelas, ferramentas de pintura, pincéis para os pintores.

No eixo do conforto estético, a partir da constatação de que as pessoas estão cada vez mais em casa, seja porque a violência ganha espaço, e as pessoas preferem receber em casa, seja porque comer fora fica caro, elas querem embelezar o ambiente. E, então, o contexto de metais sanitários se encaixa perfeitamente.

Nunca fomos uma empresa de design, nunca tivemos de nos preocupar com isso. Hoje, pela primeira vez, estamos tendo de olhar para isso e ver o que o arquiteto pensa. As torneiras começam a se encaixar nisso.

Homem vê preço, mulher analisa qualidade

Tipicamente, quem mais faz as compras são as mulheres, que são as que menos entendem da parte técnica e, portanto, mais precisam de ajuda no ponto de venda, seja do balconista ou nas lojas de autosserviços, os home centers, que vão ganhando a importância de uma gôndola que convide, que seja autoexplicativa.

Muitas vezes o casal vai junto, mas o homem geralmente é muito pragmático, escolhe pelo preço, e as mulheres não, elas procuram entender as propriedades, as particularidades, se aprofundam, querem de fato entender e estão dispostas a pagar mais por qualidade. São menos sensíveis a preço do que os homens, quando elas são consumidoras.

O homem, estando junto no momento de compra, nem sempre vai comprar o melhor produto. Às vezes o homem ganha e leva o produto mais barato. Mas, se a mulher estiver sozinha – e isso acontece com frequência –, temos dados que mostram que geralmente vai o produto de melhor qualidade, porque ela considera a casa como aquele lugar de que mais cuida e onde faz questão de ter as melhores coisas.

Como gestora de negócio, a mulher é tipicamente mais dura do que o homem. Fizemos pesquisas da mulher com os dois papéis. Ela como consumidora é a que mais paga. Mas a mulher como gestora [de obra] é tipicamente mais dura de negociar do que o homem, o que é meio paradoxal.

Consumidor mais confiante

A Tigre é assim

  • Fundação

    1941

  • Funcionários diretos no Brasil

    Cerca de 5.000

  • Funcionários diretos no mundo

    Cerca de 2.000

  • Unidades no Brasil

    11

  • Unidades no mundo

    12

  • Vendas

    Mais de 70 mil pontos de venda no Brasil

  • Produtos

    Mais de 15 mil itens

Líder precisa desenvolver o potencial das pessoas

UOL – Na sua opinião, qual é o caminho para se construir uma carreira bem-sucedida?

Otto von Sothen – Até os 40 anos, eu me considerava um executivo comum, com realizações, bons resultados, mas com um ego grande. Então, tive a sorte de ter uma pessoa que me ensinou: o meu chefe na época.

Eu morava na Venezuela, e nós estávamos em uma reunião com os operários, umas 200 pessoas. Ele estava falando sobre a importância de o operário ter uma atitude de dono, de trazer ideias que melhorassem a produtividade, o funcionamento das linhas. Foi então que um cara levantou a mão e disse: “Bacana o que você está falando, mas por que o gestor daqui não utiliza essas práticas, não deixa a gente fazer esse tipo de coisa?”

Aquilo foi um tapa na cara para mim, porque eu achava que estava fazendo tudo certo. Então, mudei a minha forma de gestão. Não foi do dia para noite, levou tempo, mas hoje, para mim, está muito claro que performance e propósito podem andar juntos.

A sua função como líder é, de fato, realizar o potencial das pessoas que estão com você. Fazendo isso, é possível conseguir resultados excepcionais.

Ego grande é um problema que muitas pessoas têm, não só executivos, mas qualquer pessoa de sucesso pode ter.

Brinco que aprendi a deixar o ego em casa. Você não pode achar que, como líder, é melhor do que os outros. Você apenas tem mais tempo de gestão, estudou mais, então tem obrigação de saber mais. Mas você não é melhor do que ninguém. Hoje, sou muito mais grato, muito mais humilde do que eu era 15 anos atrás.

Qual seria seu conselho para quem quer construir uma carreira executiva de sucesso?

A primeira coisa importante é atitude. Ainda fico impressionado quando vejo jovens brilhantes sem atitude, querendo ser servidos. Eles não vão trabalhar na Tigre, acho que não vão trabalhar em lugar nenhum.

Prefiro gente com sangue nos olhos, não estou preocupado com diploma, mas que, de fato, faça acontecer. A segunda coisa é simplicidade, humildade, é reconhecer que está errado, quando você estiver errado.

Esses princípios podem ser aplicados em diferentes países?

São princípios universais. A vantagem que eu tive por morar em muitos lugares é que aprendi muito a respeitar e a entender, procurar viver e a respeitar culturas diferentes. Morei na Venezuela, nos Estados Unidos, no Peru, morei quando criança na Itália, na Alemanha.

As pessoas são diferentes, têm hábitos diferentes, têm crenças diferentes, têm culturas diferentes, estão em estágios de desenvolvimento diferentes. Nem por isso são melhores ou piores, elas são apenas diferentes. Isso aumentou muito meu nível de tolerância.

Para mim, o princípio é: quando eu tenho uma relação com uma pessoa que talvez seja muito diferente de mim, seja no trabalho, seja no pessoal, a pergunta que sempre me faço é: o que essa pessoa faz é ilegal? Não. É imoral? Não. Então, eu posso conviver com isso.

Simon Plestenjak/UOL e Arte/UOL

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