! Entrevista com Mario Laffitte, vice-presidente de marketing e assuntos corporativos da Samsung na América Latina - UOL Líderes

Falta de PhD atrasa Brasil

Pouca oferta de profissionais com doutorado atrapalha desenvolvimento do país, diz chefe da Samsung

Mariana Bomfim Do UOL, em São Paulo
Marcelo Justo/UOL e Arte/UOL
Marcelo Justo/UOL Marcelo Justo/UOL

Mão de obra é barreira

A economia brasileira poderia crescer mais se a oferta de mão de obra qualificada fosse maior. Essa é a avaliação do vice-presidente de Marketing e Assuntos Corporativos da Samsung para a América Latina, Mario Laffitte, em entrevista para a série UOL Líderes.

Ele fala sobre os desafios que a Samsung enfrenta para operar no Brasil, o hábito que o brasileiro tem de pesquisar antes de comprar, as expectativas para um ano de Copa do Mundo e a importância da diversidade para as companhias.

País cresceria com mais profissionais qualificados

UOL - Quais os desafios de uma empresa de tecnologia no Brasil?

Mario Laffitte - A área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil é avançada. Temos um sistema fiscal e tributário que atraiu indústrias eletroeletrônicas para o país e que manda as companhias que operam aqui fazer investimento em P&D.

Para nós, os produtos que saem das fábricas brasileiras têm o mesmo nível de qualidade de qualquer outra fábrica, seja ela na Coreia do Sul, na China, nos Estados Unidos ou no Vietnã.

Nossos pesquisadores também têm o mesmo nível de formação que outros pesquisadores em outros locais do mundo. Aliás, há até um certo intercâmbio de pesquisadores.

Entrando nos desafios que encontramos aqui, é claro que o número de PhDs [profissionais especializados, com doutorado] não é tão grande quanto em outros países. Se tivéssemos um número maior de PhDs., esse é um tema que poderia gerar muito mais frutos para a Samsung e para o país.

Além da escassez de mão de obra qualificada, há algum outro entrave?

Há uma série de outras questões que poderiam ser aprimoradas no ambiente de negócios da América Latina, para melhorar a competitividade da nossa região. Posso citar logística, eficiência na execução de negócios, questões burocráticas e simplificações tributárias que seriam bem-vindas para fomentar o crescimento dos negócios. Não apenas para a indústria de tecnologia, mas para todas.

Com a crise no Brasil afetou o negócio da Samsung?

Não há dúvida de que o cenário global, com o fim do superciclo das commodities [matérias-primas], afetou muito as economias latino-americanas. No Brasil, nós temos questões circunstanciais mais contundentes. Afinal de contas, se você olha os números, nós passamos por dois anos que representam a maior queda do PIB, se não da história, de um bom período. 

O que você faz em ciclos mais desafiadores? Você faz um planejamento com mais cautela, que possa prever alguma redução de mercado, em que a gente possa minimizar as consequências tanto para o consumidor quanto para as nossas operações. Da mesma forma, quando vemos os ciclos voltando a apontar crescimento, também precisamos nos planejar para poder colher os frutos desse crescimento.

A questão é: crises acontecem, sejam cíclicas ou circunstanciais. As cíclicas são mais simples de você antever, pois há sinais, e você faz um planejamento. As circunstanciais são mais agudas, e é obvio que geram necessidade de mais agilidade, mais rapidez no planejamento estratégico para passar por esse momento. As crises agudas [circunstanciais], em geral, são mais curtas. As cíclicas são um pouco mais longas. Então, você tem que ter a gestão do seu negócio levando em consideração esses aspectos. Foi o que nós fizemos na América Latina, e é um dos motivos pelos quais tivemos dois bons anos.

A crise econômica e os casos de corrupção assustam as grandes empresas?

Sem dúvida. Qualquer complexidade do ambiente de negócios, em qualquer país que seja, gera um maior pensamento antes de você executar qualquer investimento. Isso vale tanto para o capital local quanto para o estrangeiro.

Empresas que já estão nos mercados latino-americanos têm um conforto de entender essa complexidade. Como estamos na região há muitos anos, temos uma capacidade de entendimento das circunstâncias econômicas e de desenvolvimento dos negócios nessa região. Isso gera um pouco mais de know-how [experiência] para a empresa. Mas complexidades nunca são atraentes para investidores. Investidores gostam de simplicidade, clareza e transparência.

No governo atual, do presidente Michel Temer, houve alguma mudança no ambiente de negócios?

No período mais recente, foi muito benéfica para os negócios a redução da taxa de juros a níveis bastante baixos, historicamente falando. Óbvio que isso é uma alavanca para o consumo. Com juros menores, o custo do capital é menor, e o parcelamento fica mais barato para o consumidor. E você também fomenta uma cadeia paralela à cadeia de eletroeletrônicos, que é a cadeia de mobiliário, de novas casas, de novos eletrodomésticos. Tudo isso gera um ciclo virtuoso de crescimento da economia.

E com relação às reformas promovidas pelo governo?

As reformas são interessantes no sentido de gerar um ambiente de mais confiança do investidor e do consumidor. O varejo é muito baseado em confiança. O investidor não coloca seu capital no negócio se não tiver confiança no futuro, e o consumidor, se não tem confiança no seu emprego e na manutenção da sua renda e do seu poder aquisitivo, não compra. Então, as reformas têm um componente positivo, por gerar um ambiente de mais confiança em longo prazo no cenário econômico brasileiro.

O que o senhor proporia para melhorar o Brasil?

Como brasileiro, sou otimista e vejo um futuro melhor para nosso país. [Um futuro] em que a gente tenha um sistema mais transparente, em que a gente consiga ter uma cultura mais ética e que gere um mundo político mais alinhado com as ansiedades e expectativas da sociedade.

Pessoal com doutorado faz falta

Brasileiro vai assistir à Copa do Mundo também pelo celular

UOL - Quais investimentos para este ano no Brasil?

Mario Laffitte - É ano de um evento esportivo (Copa do Mundo) que chama atenção do público latino-americano e que movimenta o mercado, a cultura e a sociedade. Nele, a televisão tem um protagonismo muito grande, e a Samsung, como líder do mercado de TVs na região, vai manter essa posição, trazendo produtos e inovações para o país. Acreditamos que esse evento esportivo vai consolidar o consumo de vídeo e de imagem em pequenas telas, no smartphone, por conta até do horário em que os eventos vão acontecer na Rússia e ser transmitidos para cá. Como nossos celulares têm uma qualidade de imagem que atende a expectativa do consumidor, vai ser uma boa oportunidade.

O brasileiro vai assistir à Copa do Mundo em 2018 pelo celular?

Acho que vai ser a consolidação do multicanal, da multimídia. Obviamente, o televisor é o grande portal para consumir futebol. Mas não saímos de casa sem celular --saímos sem sapato, mas não sem celular. Com esse perfil que temos, principalmente nas grandes cidades, no momento em que estivermos fora de casa, o consumo do futebol no celular vai ser mais intenso que anteriormente.

Pesquisar muito antes de comprar

América Latina ficou muito tempo sem acesso à tecnologia

UOL - O que diferencia o brasileiro dos outros consumidores?

Mario Laffitte - Somos muito abertos a novas tecnologias, acho que isso permeia toda a sociedade latino-americana. Porém, é óbvio que nós somos diferentes. Essas diferenças vêm de questões históricas. O Brasil teve a colonização portuguesa, a Corte [portuguesa] vindo para cá [em 1808]. Tudo isso gerou uma série de impactos no que somos hoje. O próprio fluxo de imigrantes de outras culturas que o Brasil recebeu ao longo de sua história também gerou esse caldo cultural que é o que nós somos hoje. Mais do que isso, gerou mudanças no próprio consumidor brasileiro. Gostamos de simplificar e falar de um Brasil, mas na verdade somos vários países e culturas em um só. Recentemente, por exemplo, nós fizemos pesquisas sobre o processo de compra e identificamos que o consumidor brasileiro pesquisa praticamente o dobro do tempo antes de comprar um smartphone, em relação ao consumidor chileno, colombiano e mexicano.

Existe alguma dificuldade para explicar essas diferenças para a matriz, na Coreia do Sul?

É lógico que existe uma distância cultural entre a Coreia do Sul e a América Latina. Mas existe na Samsung da Coreia uma abertura, uma intensa troca de informações justamente para proporcionar esse entendimento. Mais do que isso, nós temos um modelo de operação em que fazemos reuniões periódicas, trazemos todos os países, sentamos à mesa e discutimos nossos negócios. Elencamos, do nosso lado, o que precisamos da matriz, e são nesses fóruns que decidimos e priorizamos os projetos mais importantes para a região.

Em que situação isso aconteceu, por exemplo?

Temos celular com dois chips, que é uma característica da região. Não estou nem falando de novidade, isso é coisa que já acontece há algum tempo. [Houve também] o desenvolvimento, há quatro anos, para o [mesmo] evento esportivo que teremos neste ano, um televisor com uma função futebol. Com o toque de um botão, a TV fazia toda a sincronização de imagem e cor para otimizar a experiência de assistir a um jogo de futebol na TV.

O que o brasileiro valoriza em relação à tecnologia?

O consumidor latino-americano é bastante exigente. É um consumidor que, ao longo da história, por uma série de razões e políticas locais, foi privado de ter acesso à tecnologia. Mas, nos últimos anos, tem tido acesso e aprendeu muito rapidamente a consumi-la.

Ele tem um nível de exigência alto e compra por perfil, não compra o primeiro que aparece. Ele pesquisa, busca entender o produto que está comprando. [Ele pensa:] ‘Eu preciso de um smartphone com alta capacidade de processamento porque eu coloco meu trabalho no meu smartphone, faço minhas transações bancárias no smartphone, até uso meu e-mail de trabalho no smartphone.’ Então, ele tem um uso intenso, precisa de um bom processador etc. Já se é um estudante, que não tem um uso tão intensivo e usa mais aplicativos de mídias sociais, é outro perfil.

Falando de smartphone, a Samsung tem uma oferta bastante ampla e consegue atender todas as necessidades do consumidor, seja um produto de altíssima capacidade de processamento, último de linha e com tela grande, ou um produto mais acessível para esse público estudante. Esse comportamento que eu descrevi com o smartphone se repete também nas nossas outras linhas de produtos.

E o que desagrada o consumidor brasileiro?

O brasileiro é um consumidor que não admite nenhum deslize na área do serviço, no atendimento e no pós-venda. Hoje em dia, não vivemos sem um smartphone na mão. Ao mesmo tempo, [o smartphone] é um dispositivo, uma máquina, então em algumas situações será necessário um reparo. O grande desafio é você ter um sistema que tenha os componentes à disposição, porque na hora que o consumidor precisa de um serviço no seu smartphone, ele quer de imediato.

Isso é um grande desafio para todas as grandes marcas, e é uma área à qual temos dedicado grande atenção. Temos uma rede de inúmeros pontos de serviço em todos os países da América Latina. Acredito que o ponto de venda vai ser cada vez mais um ponto de multisserviços, desde a venda propriamente dita até a área de serviço, mas também passando por educação, por uma consultoria sobre como usar o produto, já que os dispositivos são cada vez mais complexos.

Diversidade melhora negócio

A Samsung é assim

  • Fundação

    1969

  • Início da operação no Brasil

    1987

  • Funcionários diretos no mundo

    Cerca de 310 mil

  • Funcionários diretos no Brasil

    Cerca de 10 mil

  • Unidades no mundo

    38 fábricas, 34 centros de pesquisa e desenvolvimento e sete centros de design em cinco continentes

  • Unidades no Brasil

    Duas unidades industriais, em Manaus (AM) e Campinas (SP), três centros de pesquisa e desenvolvimento, um em Manaus e dois em Campinas, e um centro de design na sede da empresa, em São Paulo (SP)

Empresas devem ter gente "esquisita" para fazer a diferença

UOL - Como montar uma equipe que funcione?

Mario Laffitte - A diversidade é uma questão-chave para o sucesso das organizações, porque no fundo é muito fácil a homogeneidade acontecer dentro das empresas.

E eu acredito que é muito importante termos percursos diferentes, realidades diferentes para termos um caldo muito mais diverso na hora de discutir temas estratégicos ou soluções de problemas específicos.

Uma vez eu falei sobre diversidade num evento para empresários e disse: 'busquem esquisitos, você precisa ter pelo menos um esquisito em cada time na sua empresa para ter uma visão diferente, porque senão temos uma tendência de haver uma homogeneidade muito grande, em histórico de vida e profissional e, consequentemente, de pensamento e de como encarar os desafios de negócio e corporativo. E o mundo lá fora é diverso. As pessoas têm comportamentos diferentes.

Carreiras devem ser baseadas em resultado. Em qualquer posição dentro de uma grande corporação, precisamos focar em qual é o resultado que nosso trabalho está trazendo para dentro da empresa. Isso é fundamental se você quer crescer na carreira.

Uma dica de carreira?

A ética profissional (também é importante). Falamos em ética na política e nos negócios, mas ética no ambiente corporativo é um tema em conjunto com essa discussão social. Você ser uma pessoa ética, não apenas nas questões de compliance [regras para garantir que a empresa não infringe nenhuma lei] e de cumprir as leis, mas também com seus colegas, é extremamente valorizado hoje em dia.

O terceiro ponto é nunca parar de aprender, dentro e fora da empresa. É extremamente importante estar antenado com novas tecnologias, aproveitar todo e qualquer contato para aprender alguma coisa, perguntar e trazer ideias novas. A criatividade é fundamental para a solução de velhos problemas ou descobertas de novas oportunidades, e é lógico que a criatividade vem muito com o conhecimento e a experiência.

[E é importante] ser muito aberto à diversidade. O ambiente corporativo precisa ter uma diversidade, se não maior, pelo menos igual à diversidade da sociedade em que a empresa se insere. Ela é extremamente importante para que a empresa se conecte com a sociedade.

Marcelo Justo/UOL e Arte/UOL

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