! Entrevista com Janguiê Diniz, fundador e presidente do Conselho de Administração do grupo Ser Educacional - UOL Líderes

Faculdade pública x privada

Universidade particular tem dificuldade porque os piores alunos vão para lá, diz dono da Ser Educacional

Do UOL, em São Paulo
Keiny Andrade/UOL e Arte/UOL
Keiny Andrade/UOL Keiny Andrade/UOL

Rumos da educação

As instituições de ensino superior particulares também pagam ótimos salários a professores e contam com muitos doutores, assim como as universidades públicas. A diferença de resultados ocorre porque as públicas ficam com os melhores alunos. A afirmação é do fundador e presidente do Conselho de Administração do grupo Ser Educacional, Janguiê Diniz, em entrevista na série UOL Líderes. O grupo atende a mais de 152 mil alunos e é dono de instituições como UNG (Guarulhos/SP), Unama (PA) e Uninassau (PE e AL).

Ele critica o ensino superior gratuito e diz que o sistema só atende a quem já tem dinheiro. Diniz também fala sobre as mudanças trazidas por programas como o Prouni e o Fies para o ensino superior no Brasil e comenta as alterações que a reforma trabalhista pode trazer à contratação de professores.

O fundador do grupo, que trabalhou como engraxate e vendedor de frutas e sorvetes na infância, ainda conta como passou de procurador do Trabalho a empresário.

Ensino em instituição pública x particular

UOL – Há muitas críticas sobre a qualidade do ensino nas faculdades particulares. Qual a sua opinião?

Janguiê Diniz – Precisamos esclarecer duas coisas com essa pergunta: em primeiro lugar, eu acho que o Brasil só tem 17% da população com idade universitária no ensino superior; nós temos 8 milhões de jovens no ensino superior. O índice é muito baixo. Perdemos para todos os países da América Latina.

Oitenta e três por cento da população com idade universitária, de 18 a 24 anos, está fora [da universidade]. Isso é uma aberração. E o Plano Nacional de Educação diz que até 2024 temos de colocar pelo menos 33% da taxa líquida, ou seja, da população com idade universitária de 18 a 24 anos, no ensino superior. A Coreia do Sul tem 90%, os Estados Unidos têm 80%.

Só que grande contingente desses 83% não pode pagar, pertence às classes C e D e até à classe E. O que fazer? Precisamos de programas de inclusão social, porque um país, para sair de um estado de subdesenvolvimento para o de desenvolvimento, tem que educar o seu povo, do ensino básico ao ensino superior.

Não podemos deixar uma população de 207 milhões de brasileiros sem ser educada, sem ter um curso superior. Como fazer isso se grande parte dessa população não tem condições de pagar uma universidade? Temos que ter programas sociais como o Prouni [Programa Universidade para Todos].

O Prouni foi o principal programa do governo do PT. Durante 13 anos, o Prouni já colocou nas universidades 2,228 milhões de pessoas. As universidades federais, apesar de serem públicas, não conseguem atender a todo mundo.

Existe um grande erro no Brasil, que é o princípio da gratuidade do ensino público, previsto no artigo 206 da Constituição, que permite que pessoas ricas, que vêm das escolas privadas no ensino básico, dos melhores colégios, ganhem as vagas no ensino superior.

Enquanto isso, aquelas pessoas que estudam nos colégios públicos, que, infelizmente, são colégios de baixa qualidade, de má qualidade, essas pessoas não têm oportunidade de estudar no ensino superior público, nas universidades federais.

E essas pessoas vão para onde? Elas dispõem de quatro alternativas: a primeira é estudar muito, dia e noite, como eu fiz, porque eu não tinha outra opção de vida, para passar numa universidade pública –agora é tirar uma nota boa no Enem para passar no Sisu e escolher um curso bom, de alta demanda, numa universidade federal.

A segunda é tirar uma nota boa, não entrar numa federal, mas conseguir uma bolsa do Prouni para ir para um curso demandado, como medicina, direito, numa universidade privada.

A terceira é tirar uma nota regular e conseguir os cursos com pouca procura em uma universidade federal, como os cursos de licenciatura, por exemplo. O quarto caso, que é a grande maioria do que acontece no Brasil, é o jovem que vem de escola pública ter de trabalhar o dia inteiro para poder estudar, e aí ele pega o seu salariozinho para estudar numa faculdade privada.

Eu registro que o Prouni é um dos principais programas de inclusão social do governo do PT e é um programa que deve ser defendido, enaltecido e perenizado. O Fies [Fundo de Financiamento Estudantil] é outro.

É um programa de inclusão social que chegou ao ápice em 2014, com 730 mil bolsas, mas que infelizmente, por conta de contingência orçamentária, o governo resolveu reduzir para 100 mil contratos agora em 2018, transformando o programa de um programa social em um programa eminentemente financeiro e fiscal.

E complementando a pergunta: e essas pessoas que vêm da escola pública, vêm do Fies, isso não diminui a qualidade? Isso é uma realidade. Eles já vêm da escola pública mal formados no ensino médio. Nós das instituições particulares procuramos fazer mágica. Infelizmente, temos de trabalhar, pegar um aluno que vem de uma classe C e D, um aluno E, e tentar transformá-lo em B ou até em A.

Qual é a diferença de uma universidade federal para uma universidade privada? Não é a qualidade, não. A diferença é que nas universidades federais temos os professores que ganham muito bem, os melhores doutores, mas nas universidades privadas os professores ganham muito bem também, e temos também muitos doutores. A diferença é que nas universidades privadas pegamos os alunos de uma classe menos abastada, de uma renda per capita diferente, de uma classe C e D. Os melhores alunos vão para as universidades federais. Os piores alunos vêm para as universidades privadas, daí a diferença.

É claro que, se os melhores alunos estão nas universidades federais, as melhores notas vão sair nas universidades federais. E, mesmo assim, algumas universidades privadas têm melhores notas do que as universidades federais. Mas os melhores estão lá. Se os melhores estão lá, fatalmente a qualidade é diferente, porque nós pegamos o aluno de uma classe C e D e tentamos transformá-lo num aluno A ou B, enquanto as federais pegam um aluno A e às vezes o aluno sai B de lá.

Qual a porcentagem de alunos que o grupo tinha pelo Fies e como as mudanças recentes impactaram o grupo?

Chegamos a ter 40% de alunos no Fies quando o Fies estava no auge, em 2014. Mas é interessante registrar aqui que quando não existia o Fies, nós crescíamos a uma taxa de 10% ao ano, porque a empresa era uma empresa profissionalizada, que oferecia educação de qualidade e com um sistema de gestão moderno.

Agora estima-se que o grupo Ser Educacional vai ter cerca de 10% de seus alunos no Fies, e a maioria das instituições vai ficar nessa linha também, ninguém vai ter mais do que isso, ou até menos por conta do contingenciamento do governo federal.

Considera, então, que nem todo mundo que poderia fazer uma faculdade pelo modelo anterior vai poder fazer agora?

As regras são muito rígidas hoje. Antigamente, o limite salarial era de 20 salários mínimos, hoje é de três salários mínimos per capita. Antes, não existia limite de pontuação, hoje tem de ter 450 pontos [no Enem]. Então existe um paradoxo: quem tem renda de três salários mínimos, não tem nota, porque pouca gente que estuda em escola pública consegue uma nota superior a 450 pontos. Quem tem renda não tem nota e quem tem nota não tem renda.

Além disso, mesmo que o aluno consiga, não financia 100%. São questões paradoxais como estas que farão com que esse Fies seja parcialmente inócuo. Acho que, no futuro, haverá uma reformulação, e nós, eu como presidente da Abmes, que é a Associação Brasileira das Mantenedoras, e do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior [Particular], vamos trabalhar junto ao governo para que venha aperfeiçoando. Nós não chegaremos nem parcialmente às metas do Plano Nacional de Educação sem o Prouni e sem o Fies.

Qualidade dos alunos e das faculdades

Jovem resiste mais ao ensino a distância

UOL - As pessoas ainda têm uma ideia de que o curso a distância tem uma qualidade inferior ao presidencial, que o aluno é menos cobrado?

Janguiê Diniz – O ensino a distância (EAD) é uma questão cultural. Não é mais futuro, é presente, e isso no mundo inteiro. Aqui no Brasil já estamos com quase 20% do ensino brasileiro na graduação e pós-graduação na modalidade a distância. A cultura que não existia antes está começando a chegar às cabeças das pessoas mais maduras.

O jovem ainda tem certa aversão, mas como a vida do jovem hoje é trabalhar no celular, trabalhar nas redes sociais e, como o ensino a distância está chegando quase que exclusivamente através do seu computador, do seu celular, dos seus tablets, então o jovem já está despertando interesse para o ensino a distância.

Estimamos que nos próximos cinco anos, o ensino a distância no Brasil já esteja na cabeça dos jovens, e cerca de 40% de todo ensino de graduação e pós no Brasil será via EAD.

Essa visão de que o ensino a distância é de qualidade inferior é uma visão errada, porque isso já é comprovado, inclusive nas avaliações do Ministério da Educação, que quem se forma via EAD tem o mesmo nível e até, em certos casos, melhor nível do que o ensino presencial. [Em anos anteriores, o MEC concluiu que o ensino a distância foi bem, mas atualmente só há dados individuais, não comparando os setores como um todo; leia aqui] .

Até porque, para estudar a distância, você tem de ser autodidata, tem de ser proativo para poder aprender. Você tem os instrutores, os orientadores, mas você está quase sempre estudando sozinho. Por esse método, você aprende muito mais do que ir para uma sala de aula e ficar de forma reativa, de forma passiva apenas ouvindo um professor falar e estudar mais nos momentos de provas.

Quando você estuda sozinho, você tem um nível de aprendizado maior. Tem mais dificuldades, por isso que existe um grau de evasão maior, porque muitos não aguentam estudar sozinhos. Mas aqueles que conseguem e são perseverantes, são determinados, são persistentes, são obstinados em conseguir, em transformar seus sonhos em realidade, esses com certeza aprendem mais porque são proativos.

O que se perde com a falta de interação aluno-professor, entre alunos, troca de ideias?

Esse é um dos problemas da evasão, porque geralmente o aluno vai para o campus escolar não só para estudar, ele vai para relacionamento, para namorar, vai para trocar ideias, para se divertir. No ensino presencial, essas atividades diversas – uma amizade, participar de eventos, praticar esportes e uma série de coisas – fazem com que o nível de evasão seja infinitamente menor. No ensino à distância, como ele é solitário, o nível de evasão é maior porque carece dessas outras atividades que o ser humano, o estudante, busca, que é relacionamento, diversão. Então tem esse problema.

Estudar a distância é bom?

Reforma trabalhista não afetará qualidade de ensino

UOL - Considera que o setor de educação vai sofrer uma remodelação nos contratos com os professores, com adoção do trabalho intermitente, terceirização?

Janguiê Diniz – Essa reforma trabalhista é uma reforma gestada há muito tempo, já merecia ter sido implantada há muitos anos. Uma reforma trabalhista com a flexibilização do direito do trabalho e a desregulamentação, eu acho que é de extrema importância para o desenvolvimento das empresas brasileiras. Tínhamos uma legislação muito rígida, e ainda temos, mas houve certa flexibilização.

Isso vai ajudar todas as empresas do Brasil, inclusive as empresas educacionais, vai permitir que haja uma maior negociação entre patrão e empregado, tirando a negociação apenas na mão do poder judiciário. Isso vai fazer com que as empresas brasileiras possam evoluir e tirar um pouco da carga trabalhista em suas costas.

Acho que não só as empresas educacionais, mas todas as empresas do Brasil vão se beneficiar com a coragem do presidente Michel Temer, porque ele foi muito corajoso: o que os outros governantes não faziam com medo de perder voto, ele fez. E o Brasil precisava muito disso.

E sobre a adoção de contratos intermitentes, terceirização...

Nós ainda não estudamos se vamos fazer isso. Nós já tínhamos um modelo trabalhista muito enxuto, todos os nossos funcionários, colaboradores têm carteira assinada. Por enquanto, não estamos preocupados com isso.

De alguma forma essas mudanças no modelo de contratação envolvendo professores podem trazer prejuízo para o ensino?

Acho que não. O modelo de ensino depende muito de cada instituição, e se o professor é contratado no modelo A, modelo B ou modelo C, cabe ao professor transmitir a educação com a qualidade que lhe é inerente.

Cabe a ele; se ele aceita o modelo de contratação, ele não vai poder fazer corpo mole. Em tendo alguma instituição que contrata – a nossa não está fazendo isso, a Ser Educacional – por alguns modelos de contratação ou por terceirização, o que é permitido, ou por trabalho temporário, eu acho que não vai haver deficiência na educação não. Até porque o professor vai ter de se adequar ao modelo que foi contratado.

Entre os fatores que contribuíram para o crescimento do grupo estão as aquisições. O que está planejado para o futuro próximo e, mais especificamente, ainda há interesse na aquisição da Estácio?

Uma empresa, quando vai para a bolsa de valores, tem que continuar crescendo. Tem de manter o nível de qualidade exigido pelos seus stakeholders e, principalmente, pelos seus clientes, que são os alunos, no caso de uma empresa de educação.

Nós somos muitos bons em crescer organicamente, mas não basta crescer apenas organicamente, você tem de crescer por aquisição. Desde que fomos para a bolsa de valores, nós já adquirimos mais de 20 instituições. Adquirimos a Universidade da Amazônia, Unama, que hoje tem quase 20 mil alunos; adquirimos a Universidade de Guarulhos, UnG, que hoje tem cerca de 20 mil alunos também; adquirimos faculdades no Piauí, em Natal, Fortaleza, e temos planos de continuar com aquisição.

A Estácio foi uma tentativa que nós fizemos no passado, que infelizmente a concorrente fez uma proposta maior, mas que o Cade não aceitou. Hoje, não faz parte mais dos nossos planos. Tudo é possível acontecer, mas não é mais nosso foco. Estamos analisando outras instituições, mas a Estácio, por enquanto, não faz parte mais dos nossos planos, até porque já estamos em quase todos os mercados em que a Estácio está e isso fatalmente daria problema com o Cade. Então, resolvemos por enquanto evitar isso.

O que a decisão de abrir capital em Bolsa trouxe para o grupo?

Desde que eu criei a faculdade Maurício de Nassau, em Recife, que foi o embrião de todo o grupo, o meu objetivo era fazer com que a empresa fosse uma instituição profissionalizada. Tanto é assim que eu a criei já como uma empresa com fins lucrativos e já comecei a auditar, já comecei a profissionalizar. Também criei um conselho de administração desde o início.

Queria criar uma instituição com sustentabilidade, com qualidade no serviço oferecido e fazer com que ela se perenizasse. Nada é mais importante para perenizar uma empresa do que você colocar sócios. Foi então que, com sete anos de experiência, já auditada anualmente, já com conselho de administração instaurado, com conselheiros externos e independentes, nós resolvemos chamar um fundo de investimento que passou a ser acionista.

Nós tivemos como sócio um fundo de private equity que comprou um pedaço da empresa. Só que esse fundo tinha uma janela de saída: depois de cinco anos, ou eu compraria a parte deles ou ele venderia para outro grupo, ou a tínhamos de ir para a bolsa de valores. E ir para a bolsa de valores faz com que a empresa se torne ainda mais profissionalizada.

Tudo do grupo Ser Educacional ou de qualquer empresa na Bolsa de Valores é publicado. Você conhece faturamento, número de funcionários, sistema de gestão. E por ser uma empresa pública na bolsa de valores, o nível de gestão exigido pela CVM, Comissão de Valores Mobiliários, é muito alto. Então hoje a empresa nossa é uma empresa auditada, com governança corporativa, com fiscalização da CVM, com implementação de compliance, com regras de ética, entre parceiros, entre colaboradores, ou seja, é uma empresa altamente fiscalizada e altamente profissional, e nos orgulhamos muito disso.

Reforma trabalhista piora aulas?

O Ser Educacional é assim

  • Fundação

    2003

  • Funcionários

    11 mil diretos e cerca de 10 mil indiretos

  • Alunos

    Mais de 152 mil

  • Unidades

    72 presenciais e mais de 300 polos de educação a distância

  • Principais concorrentes

    Kroton, Estácio, Unip e Laureate

  • Receita líquida em 2017

    R$ 1,2 bilhão

  • Lucro líquido em 2017

    R$ 197,5 milhões

Engraxate na infância

UOL - Você foi engraxate quando era criança?

Janguiê Diniz – Sou um sertanejo nascido em uma pequena cidade na Paraíba, filho de pais sofredores, pais semianalfabetos que, com seis anos de idade, tiveram de sair lá, de Santana dos Garrotes, fugindo da seca, e tiveram de se mudar para o Mato Grosso em busca de sobrevivência.

Eu morei no Mato Grosso dos seis aos dez anos, e lá em Naviraí [hoje localizada no Mato Grosso do Sul] montei meu primeiro empreendimento, que foi uma caixa de engraxate. Via meus colegas de colégio indo à matinê todos os sábados, e eu não podia ir. Não tinha dinheiro, meu pai ganhava um salário mínimo trabalhando de peão de fazenda, minha mãe era do lar. Comecei a engraxar nas ruas, no comércio e comecei a ganhar o meu dinheiro. E todo sábado eu podia ir à matinê e ainda levava dinheiro para casa.

Aos nove anos de idade, eu mudei de empreendimento, porque via outros colegas de rua ganhando mais dinheiro do que eu vendendo mexericas. Fui ao Ceasa de lá, comprei as mexericas e sai vendendo de casa em casa. Realmente, durante um tempo, eu ganhava mais dinheiro do que como engraxate, só que na época, as mexericas eram sazonais, e eu não sabia. Aí perdi o empreendimento.

Aos dez anos montei outro empreendimento: comecei a vender picolé de casa em casa. Eu ia às sorveterias, comprava uma caixinha de picolé e saía vendendo. Dos dez aos 14 anos, trabalhei como garçom, vendedor de roupas em lojas, office-boy e locutor infantil.

Quando eu tinha 14 anos de idade, terminei o primeiro grau, que na época era o infantil e hoje é o ensino fundamental, e meu pai queria que eu fosse trabalhar nas fazendas. Falei que não, que queria estudar, então fui atrás de familiares meus para ver se podiam me ajudar. Meu tio, que era advogado, que nem me conhecia, me deu emprego de office-boy em Recife.

Eu queria ser médico na época, mas gostei de trabalhar com direito, porque ele era um advogado bom, e aí mudei a minha cabeça e resolvi estudar para ser advogado, com muitos sacrifícios, trabalhando de dia, estudando à noite, eu consegui passar no vestibular da Universidade Federal de Pernambuco.

No quarto ano de direito, montei uma empresa chamada Janguiê Cobranças e cheguei a ter 30 advogados trabalhando para mim antes de me formar. Só que, na época entrou uma crise econômica, e a empresa começou a entrar em dificuldade. Foi aí que resolvi fazer o concurso para a magistratura trabalhista.

Fui quase dois anos magistrado do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região, só que, como magistrado, eu teria de morar no interior. Foi então que eu desisti de ser magistrado, pedi exoneração porque queria criar uma empresa educacional, e, se eu fosse morar no interior, não ia poder fazer o mestrado que queria, não ia poder fazer o doutorado, não ia poder criar o meu projeto educacional que era criar um curso para concurso.

Passei em 1992 para magistrado, fiz outro concurso, passei entre os primeiros colocados também, e eu não teria que morar no interior, podia escolher qualquer lugar do Brasil. Escolhi Recife, montei meu curso preparatório chamado Bureau Jurídico, que foi embrião do grupo Ser Educacional.

Depois, tive a ideia de criar uma faculdade. Sempre tive um sonho de criar uma faculdade de direito e, no início de 2003, dei entrada nos projetos no Ministério da Educação, em maio saíram as aprovações de seis cursos, inclusive direito, e, em agosto de 2003, criamos a primeira faculdade, chamada Faculdade Maurício de Nassau.

Daí em diante o grupo foi crescendo, e hoje o grupo Ser Educacional é o quinto grupo educacional no Brasil, com mais de 150 mil alunos, mais de 11 mil colaboradores, unidades em todos os estados da federação, mais de 300 polos de ensino a distância.

No ano passado o Ministério Público apresentou uma denúncia falando de o senhor ter desenvolvido carreira enquanto estava com o cargo público. Houve incompatibilidade?

Não, claro que não. Qualquer membro da magistratura, do Ministério Público pode ser empresário, pode ser cotista, acionista de qualquer empresa, pode ter 99% das empresas. De fato, eu era cotista e acionista, sempre meus irmãos foram e até hoje são os gestores das minhas empresas. Havia muita confusão, meu nome é José Janguiê. Meus irmãos Jânio Janguiê e Jonaldo Janguiê são os gestores, e até hoje Jânio é o presidente da empresa, nunca deixou de ser. Havia uma confusão das pessoas que confundiam José Janguiê com Jânio Janguiê.

Por conta disso, o Ministério Público entrou com uma ação judicial dizendo que havia incompatibilidade entre ser empresário e procurador, só que a Constituição prevê, a lei orgânica do Ministério Público permite que você seja sócio cotista ou acionista de qualquer empresa, só não pode ser o gestor principal. E eu não era, sempre foi meu irmão. Tanto é que a ação já foi julgada improcedente na justiça federal. Não foi nem aceita pelo poder judiciário.

Entraram com a ação civil pública com esse argumento, e o juiz, depois de analisar nossa defesa prévia, antes da contestação já indeferiu a ação dizendo que não havia cabimento, extinguiu-a sem apreciação do mérito. Quando as pessoas começam a se destacar, como é o grupo Ser, como eu, aí qualquer coisa é motivo para as pessoas atacarem. Mas isso já é ponto superado, passado, a ação nem foi recebida.

O que diria para quem quer empreender, mas tem medo de deixar o trabalho?

Claro que você inicialmente tem receio, mas, durante muito tempo, eu pegava parte do salário e investia no empreendimento. E quando vi que o empreendimento deslanchou e que eu tinha um tino empreendedor e que se transformou num empreendimento grandioso, socialmente também grandioso, resolvi pedir exoneração de professor da universidade federal, porque eu também não tinha tempo, não era justo eu ficar tomando a vaga de outro professor, e também pedi exoneração do cargo de procurador.

Pedi a exoneração de ambos, não recebo aposentadoria como muita gente faz, não recebo nada. Porque resolvi me dedicar exclusivamente e intensamente ao meu projeto de empreendedorismo educacional e graças a Deus está dando certo.

Keiny Andrade/UOL e Arte/UOL

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