! Entrevista com Cristina Palmaka, presidente da SAP no Brasil ? UOL Líderes

Sua roupa vai contar tudo

Tecnologia já permite que empresa saiba até a hora de trocar seu tênis, diz chefe da SAP

Do UOL, em São Paulo
Simon Plestenjak/UOL e Arte/UOL
Simon Plestenjak/UOL Simon Plestenjak/UOL

Inteligência natural

A tecnologia permitirá que consumidores tenham à disposição produtos cada vez mais personalizados, afirma Cristina Palmaka, presidente da SAP no Brasil, empresa de software de gestão empresarial, em entrevista na série UOL Líderes.

Em sua opinião, novidades como roupas cheias de sensores e prateleiras que identificam o humor da pessoa na hora da compra devem se tornar comuns.

Neste cenário, a executiva analisa a questão da segurança dos dados disponibilizados pelas pessoas, fala sobre ética no uso da tecnologia na área da saúde e sobre os desafios que as transformações tecnológicas impõem ao Brasil, especialmente na educação.

Líder em um setor dominado por homens, ela diz qual caminho acredita que as mulheres devem percorrer para alcançar seus objetivos.

Sensores coletando seus dados

UOL – Que soluções tecnológicas já estão sendo utilizadas para fazer a diferença na vida das pessoas?

Cristina Palmaka – Fora do Brasil, temos vários casos de uso de conectividades para internet das coisas. A Under Armour, uma empresa de artigos esportivos, decidiu sensorizar [colocar sensores em] todas as roupas, calçados, todos os artigos esportivos, para poder coletar a maior quantidade de dados sobre quem está usando os seus acessórios: como está a sua frequência quando você está correndo, por quantos quilômetros aquele tênis já foi usado... Disso pode sair informação sobre um determinado montante de quilômetros percorridos e se já está na hora de trocar o calçado.

Isso começa a dar possibilidades diferentes de suporte para um melhor atendimento ao cliente, mas também na gestão da Under Armour, sobre como ela pode se posicionar de uma forma muito mais inovadora.

Você fala em roupa sensorizada, que vai pegar os dados da pessoa. Em maio deste ano entrou em vigor a regulamentação europeia de uso de dados. Como vê essa questão de segurança de dados?

Todo mundo que tenha negócio com a Europa tem de estar dentro desse guarda-chuva de privacidade. A SAP foi, de fato, uma das primeiras empresas que teve a sua certificação, por dois motivos: primeiro, por sermos uma empresa europeia, mas também porque tocamos dados muitos relevantes dos nossos clientes. Então, a segurança de dados sempre foi uma prioridade dentro do arsenal de atividades da SAP.

Segurança de dados sempre foi um tema importantíssimo, só que agora talvez tenha ficado mais visível. Nem todo mundo talvez tivesse se dado conta da relevância de saber onde estão os seus dados

O problema não está em os dados estarem em nuvem ou estarem no servidor, isso é pouco relevante, porque você pode ter um servidor dentro da sua organização, e ele ser hackeado. Não é a nuvem que é o problema, não é o servidor que é o problema. É você informar para quem quer disponibilizar.

Em muitos casos, você pode ser uma parte estatística e isso não tem nenhum impacto para você, como pessoa física. É isso o que a maioria das empresas tem feito. Essa massificação acontece, e isso não expõe a sua privacidade.

Nos casos em que se quer ter algum benefício ou melhor atendimento, você tem que dar a possibilidade para o seu fornecedor personalizar a sua experiência. Por exemplo, vamos imaginar que amanhã você tenha um problema de saúde e queira que seu médico seja informado quando a sua frequência passe um limite. Nesse momento você está abrindo os seus dados, mas de uma forma muito direcionada para obter um benefício ou até por uma questão de segurança. Então é preciso ser mais crítico e mais pontual sobre para quem você vai abrir essa informação.

Quem pode ver o dado, de que forma vai ver o dado quando você personaliza ou quando coloca como parte de uma estatística maior. Acho que essas são as novas discussões que a tecnologia vai trazer. As possibilidades são infinitas; agora o que a gente faz com isso, do ponto de vista de privacidade, do ponto de vista ético?

O segmento da saúde é um segmento que certamente tem se beneficiado e vai se beneficiar ainda mais das possibilidades tecnológicas.

Nós sensorizamos toda a UTI cardíaca do InCor [em São Paulo]. São diferentes equipamentos sensorizados, e nós entramos na parte analítica, no software que consegue processar todas essas informações e trazer melhores condições para o médico tomar uma decisão, olhando o histórico do paciente, os exames, o que vem das máquinas.

Tomar uma decisão em tempo real é muito importante quando se tem um inventário, uma loja, mas fazer isso a favor da vida foi fantástico.

Agora, há muitas discussões éticas: o que fazer com isso, como vamos começar a intervir no DNA, em que momento vamos começar a imprimir órgãos humanos? Há uma questão ética que vai até além do tema de privacidade e que nós teremos de discutir, como sociedade, de uma forma muito mais ampla.

Como você está vendo o cenário sobre proteção de dados no Brasil? [Esta entrevista foi feita antes da aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais]

Eu tenho o benefício de participar do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão, e nós tocamos muito no tema da revolução digital e seus impactos.

Nós temos um modelo europeu que é bastante conservador no que tange à proteção de dados do consumidor, da pessoa física. A União Europeia colocou de uma forma bem mais conservadora do que o ponto de vista americano, mais aberto e olhando mais para a informação disponibilizada a favor dos negócios.

Então, temos dois contrapontos e temos de achar aquilo que faz sentido para o Brasil, para o nosso país.

O mais importante é trazer a discussão. Hoje, com todos os incidentes que aconteceram, as pessoas começaram a se dar conta da relevância do tema e do impacto quando a gente faz aquele “opt in”, aquele "sim, eu vou disponibilizar meus dados". [É necessário] colocar um pouquinho mais de atenção em quem você está autorizando a usar o seu dado e de que forma. Estamos num momento de aprender tudo que a tecnologia pode fazer.

Produtos personalizados

Tecnologia acaba com o emprego?

UOL – Estamos em um momento de desemprego alto, e muitos falam que alguns empregos não voltarão, porque não é uma questão só de crise econômica, é uma questão de transformação. Como avalia o impacto da tecnologia nessa questão?

Cristina Palmaka – Acho que o futuro do emprego será repensado, porque as sociedades vão se modernizando. A diferença agora é a velocidade com que isso está acontecendo. Os empregos se redesenharão, e muitos dos empregos como a gente conhece hoje deixarão de existir.

Como nos preparamos como nação? Como garantimos que esse analfabetismo que temos hoje não vire um analfabetismo digital? Como fazer para o Brasil não perder esse bonde? Dá tempo, se fizermos o investimento, as apostas corretas naquilo que deve ser feito, na preparação dessa base da educação.

Várias funções ou várias atividades deixarão de existir. Tudo que é repetitivo, tudo que é transacional, a máquina vai fazer melhor. Em processos que demandam muitos detalhes, muita análise de dados, [é possível] colocar algoritmos e a tecnologia para fazer isso, e serão feitos com muito mais eficiência, sem o lado emocional, sem a possibilidade de erros.

Temos de trabalhar onde o impacto humano pode fazer a diferença. Eu estava lendo outro dia quais são essas competências. Primeiro, a criatividade: é possível fazer muitas coisas com a tecnologia, pegar o que existe e disponibilizar de formas infinitas. Segundo, a empatia: é preciso entender o que o seu consumidor está falando, o que ele está querendo. Terceiro, a coragem de tomar as decisões corretas, de deixar de fazer coisas que realmente não devemos continuar fazendo, trazer essas discussões de privacidade e ética, fazer as apostas corretas.

Nesse universo, empresas como startups conseguem aflorar com ideias fantásticas, revolucionárias, e competir de igual para igual às vezes com empresas gigantes. Questionar o status quo é fundamental, e é preciso muita coragem para quebrar alguns paradigmas.

Estamos vendo isso acontecer em vários segmentos, porque temos a tecnologia à disposição. E a disrupção pode vir não do concorrente com o qual você está acostumado, mas de caminhos muito diferentes.

Você pode falar um pouco sobre o trabalho da SAP, clientes?

A SAP é uma empresa que trabalha com software de gestão empresarial. Estamos em mais de 150 países e estamos no Brasil há 23 anos. Apesar de sermos reconhecidos por atender grandes companhias, temos empresas de todos os tamanhos, de diferentes segmentos, da indústria, setor financeiro, setor de seguros, manufatura. Aqui no Brasil, somos muito fortes no agronegócio, até pela própria vocação do país.

O Boticário tinha a necessidade de garantir um bom atendimento, de uma forma mais eficiente. Eles nos procuraram, e fizemos um piloto com o conceito da prateleira inteligente. Imagina ter todo o conhecimento dos produtos que estão na gôndola, ter informação sobre o que está lá, poder abastecer isso dentro da cadeia, do centro de distribuição, ter informações sobre o produto, como ele está sendo utilizado, a velocidade em que é vendido, para evitar quebras no abastecimento.

No futuro, por que não colocar reconhecimento facial para entender qual é o ‘mood’ [humor] da pessoa quando está comprando?

Conceitualmente, é possível usar isso para várias outras possibilidades: entender como aquela pessoa se identificou com o produto, qual foi a reação a uma determinada embalagem.

Seus dados na roda

Estônia é exemplo de tecnologia

UOL - Que desafios ligados à tecnologia o próximo presidente terá que encarar logo, na sua opinião?

Cristina Palmaka – Gostaria muito que o líder do país olhasse essa agenda digital como parte da sua agenda de país. Não pode ser uma agenda de um governo, de um mandato, de um partido, tem que ser uma agenda de transformação digital do país.

E colocar isso como prioridade, preparar todas as relações para que isso aconteça, criar esse ambiente no qual a tecnologia possa fluir, com regras muito claras para a parte tributária.

Em segundo lugar, educação. Garantir que nossa população consiga reverter esse atraso na educação, trazer isso dentro das pautas das escolas públicas e privadas, mas de uma forma muito mais agressiva, como parte do calendário mesmo, parte de uma agenda de médio e longo prazo. Se olharmos os países que estão mais na vanguarda, eles têm agendas de vários anos.

Se pegarmos um país como a Estônia, são dez anos nessa jornada de ser um país totalmente digitalizado. Começou olhando a plataforma de prontuário médico como único lugar com todas as informações, e eu, como cidadão, tenho minha informação no hospital, no laboratório, tenho uma informação única. Isso foi extrapolando, e hoje é um país totalmente digitalizado.

Eles adotaram isso como uma empresa, têm até um CIO (Chief Information Officer, ou diretor de TI) dentro do governo, olhando a transformação digital, fomentando tudo isso.

Então, tem que ser uma agenda de país. E toma tempo. Até porque temos um atraso aqui para tirar. [É preciso] descobrir qual a vocação do Brasil, onde estão as nossas fortalezas. O agronegócio pode ser uma vocação, porque tem uma relevância não somente econômica, tem muita inovação.

E a corrupção? Prejudica negócios no Brasil?

Toda vez que se tira um investimento que poderia ser aplicado para o crescimento da infraestrutura, para trazer melhores condições de educação, qualquer que seja a má gestão de um recurso, está se deixando de aplicar naquilo que é muito melhor para toda a nação.

Eu acho que aqui a tecnologia também tem um papel importante, com processos mais robustos, governança melhor estruturada, melhor uso dos ativos que estão sendo somados por meio de uma massa enorme de pessoas para benefício de outras.

Tecnologicamente, poderíamos ter um país melhor governado e certamente colhendo benefícios para a nação muito melhores do que temos observado.

Para saber como a SAP lida com esse tema, eu queria lembrar que em 2015 você foi até a CPI da Petrobras, porque houve uma denúncia de sobrepreço nos produtos, e afirmou que o aumento era devido à expansão da estatal. Esse episódio trouxe algum aprendizado para a SAP?

A SAP é extremamente rigorosa nos seus processos internos, de compliance. Garantir que os processos sejam bem executados, é uma prática muito normal, fazemos isso com muita seriedade, porque estamos tocando dados. Então há toda uma governança bastante robusta no que tange ao cumprimento dessas normas.

O episódio da CPI para nós foi mais um ponto para mostrar essa transparência. Porque os contratos públicos são públicos. Toda a informação foi investigada, e foi mostrado que fizemos toda a cooperação junto à CPI em relação à contratação, aos valores que foram pagos, aos produtos que foram oferecidos. Nós não fomos como investigados, fomos justamente para colaborar no que tange à informação de uma denúncia que não procedia. O retorno que tivemos, principalmente durante a CPI, com os membros que lá tiveram comigo, foi até de agradecimento por esta transparência.

A Petrobras é um importante cliente nosso. Então foi disponibilizado aquilo que já é disponível. Para nós, foi um episódio para reforçar e realmente reassegurar que a gente estava fazendo a coisa da forma seguida pela lei. Talvez até além disso, porque nós seguimos a lei, mas seguimos também os nossos princípios de prática de governança e de compliance.

E estamos sempre avaliando o que mais deveríamos estar fazendo, não somente no que tange ao setor público, mas também no setor privado, para garantir que tenhamos muita transparência em todos os níveis, em todas as formas de fazer negócio, para trazer muita tranquilidade, não só nós dentro da organização, mas também para os nossos clientes e parceiros.

Tecnologia, saúde e ética

A SAP é assim

  • Fundação

    1972

  • Início da operação no Brasil

    1995

  • Funcionários diretos no Brasil

    2.000

  • Funcionários diretos no mundo

    88,5 mil

  • Clientes no Brasil

    11 mil

  • Clientes no mundo

    388 mil

  • Unidades no Brasil

    Três (São Paulo, Rio de Janeiro, São Leopoldo ? RS)

  • Unidades no mundo

    232

  • Principais concorrentes

    TOTVS, Oracle, Salesforce, Microsoft

Mulher precisa ter ambição e buscar espaço

UOL – Embora seja da área de gestão, você está num ambiente de tecnologia, onde é mais difícil ver mulheres tanto em cargos de programação quanto nos de liderança. Por que isso acontece? Vê alguma mudança?

Cristina Palmaka – Eu estou em tecnologia há muito tempo. A minha tese de mestrado foi sobre impacto da internet para os varejistas. Isso parece muito normal agora, quando a gente tem uma Amazon, mas lá nos anos 1990, 1995, isso não existia. Acho que foi o impacto da tecnologia nas nossas vidas que me seduziu e faz com que eu adore esse segmento.

Sobre a mulher no mercado, talvez não só na tecnologia, porque também há outras áreas com muita presença masculina: eu acho que passa primeiro por uma ambição das próprias mulheres. Tenho muitas mentoradas, e nós discutimos como podemos trazer essa ambição para as mulheres.

Às vezes a mulher está pronta, mas às vezes falta esse último passo, ter a ambição para aquela posição e lutar pelo seu espaço, entender que você é tão competente quanto qualquer homem, qualquer outra pessoa. Então, primeiro, se preparar, porque nada vem de graça, nada vem por acaso, nem deveria ser assim. Estar pronta e ir atrás daquele seu sonho.

Hoje na SAP nós somos mais ou menos 35% de mulheres, 27% em cargo de liderança, o que também é um percentual importante para acompanharmos, não somente ter mulheres, mas ter mulheres em todos os níveis.

E há a entrada dos jovens. Temos um programa como se fosse um programa de trainee, em que já tínhamos 60% dos participantes mulheres versus 40% de homens. A consequência natural será termos mais mulheres na base, crescendo e causando impacto.

A minha missão é criar um ambiente inclusivo. Para as mulheres, particularmente, minha direção é: trabalhem muito, preparem-se, coloquem os objetivos que vocês querem, as suas ambições, corram atrás desses seus sonhos, estejam abertas aos “trade-offs”, às trocas que terão que fazer nessa jornada, mas não deixem nada, nenhum pré-conceito, tirá-las dessa jornada de crescimento.

Simon Plestenjak/UOL e Arte/UOL

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