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Desemprego suspende sonhos

Falta de trabalho leva a parar faculdade, voltar a morar com os pais aos 30 e fazer bicos mesmo doente

Do UOL, em São Paulo
Marcelo Justo/UOL

Fila de 13 milhões faz desempregados improvisarem

Desde que perdeu seu emprego como porteiro, há quatro meses, o paulista Silvio Rodrigues da Silva, 52, tem que se virar para arcar com as contas do mês, um pacote bem básico que inclui o aluguel da casa onde mora sozinho, na zona leste de São Paulo, a luz e o telefone --a internet ele cortou para reduzir os gastos. A filha, de 20 anos, também teve de esperar: "Tive de cancelar a faculdade dela. Enquanto estava trabalhando, ajudava a pagar", disse.

Desde os 15 anos, era basicamente Beatriz Ribas quem sustentava a casa, onde mora com a mãe e os dois irmãos mais novos. Com problemas nas articulações, sua mãe, hoje com 40 anos, fazia limpezas e chegou a parar de trabalhar, mas retomou as faxinas desde que Beatriz perdeu o emprego de atendente numa clínica odontológica, há três anos. "A gente joga as contas para cima e escolhe qual vai pagar no mês", disse.

Silvio e Beatriz são um pequeno retrato do que acontece no mercado de trabalho brasileiro, que, apesar de ensaiar uma leve retomada na geração empregos, ainda tem um batalhão de 13 milhões de desempregados na fila de espera pela próxima oportunidade, segundo as estatísticas oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Centenas dessas pessoas se amontoaram sob chuva em uma longa fila na segunda-feira (6), à porta do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, no centro da capital, onde ocorria o segundo mutirão do emprego realizado pela entidade: eram mais de 4.000 vagas oferecidas em posições como vendedor, motorista, telefonista, padeiro, analista de sistemas ou atendente de telemarketing. Muitos dos interessados chegaram antes das 6h da manhã e ficaram por mais de seis horas na fila.

Conheça algumas dessas histórias a seguir.

Desempregado, porteiro tranca matrícula da filha na faculdade

Silvio Rodrigues da Silva, 52, ajudava a filha de 20 anos a pagar a faculdade de química em SP. Ela teve que parar: ele não tinha mais como contribuir com R$ 220 para a mensalidade

Ela busca emprego há 3 anos, e mãe doente volta a fazer faxina

Beatriz Ribas, 23, trabalhava em uma clínica odontológica, mas ela fechou. Por causa disso, sua mãe, que sofre com dores nas articulações, teve de voltar a trabalhar como faxineira

Não consegue se aposentar e tenta viver de bicos

Humberto Pinheiro, 61, diz que já poderia se aposentar, mas está com problemas no INSS. "Só me enrolam e nunca me encaminham a carta para eu receber a aposentadoria"

Estudante de filosofia volta a morar com os pais aos 30

Edson da Silva largou o trabalho administrativo em um supermercado para ser padre, mas os gastos com o curso de filosofia o obrigaram a voltar a morar com os pais aos 30 anos

A esperança na fila

Marcelo Justo/UOL Marcelo Justo/UOL

Filho quer faculdade, mas tem de trabalhar

Um ano e meio depois de deixar seu trabalho em um restaurante, onde era registrada, Lucélia Cristina, 40, pena para encontrar um novo trabalho. "Faço serviços em casas, bufês, festas, mas fixo, nada", disse. É com esse dinheirinho que sustenta a casa onde vive com os dois filhos, um de 16 anos e o outro de 14. Os meninos estão em uma escola pública e não pensam em deixar os estudos --o mais velho vai prestar Enem para engenharia, e o mais novo quer entrar em uma escola técnica. Com as contas apertadas, eles também passaram a buscar trabalho. "O mais velho estava trabalhando como ajudante geral em uma gráfica, mas a empresa quebrou, e agora ele também está procurando", disse. "Hoje não é mais como antes, que a gente conseguia deixar os filhos terminarem os estudos em casa. Agora eles têm de correr atrás."

Só um dos 4 filhos tem emprego em casa

Ivete Moreira, 55, mora em São Paulo com o marido e os quatro filhos, de 24, 23, 22 e 17 anos. "Só um filho meu está trabalhando", disse ela. Todos os outros da família estão sem emprego e à procura de um novo. O marido está fazendo bicos como pedreiro, e Ivete lava e passa roupa para outras casas. Há três anos, ela perdeu uma filha. Foi quando saiu de seu último emprego, para se recuperar do choque. Hoje tenta voltar ao mercado de trabalho, mas não consegue. "Está muito difícil mesmo, até agora eu só tentei e não consegui". Numa família de seis, com cinco sem uma fonte de renda segura, pagar as contas virou um grande malabarismo: "A internet já não temos mais", disse Ivete. "As outras [contas], água, luz, às vezes a gente fica sem pagar. Quando entra um dinheirinho, paga uma e a outra fica pendente, e aí vai trocando."

O número 1.170 da fila quer ser arquiteto

O sonho de Alex de Novais, 24, é estudar arquitetura. Até agora, porém, a faculdade vai sendo adiada. "Como não tenho trabalho, não dá para pagar", disse. Os cursos técnicos que já fez, de web designer e de mecânica, também não estão ajudando muito: "Está difícil encontrar trabalho nas duas áreas". Alex vive com os pais, em São Paulo, o que sabe que lhe dá um certo conforto para perseguir os estudos. Ainda assim, precisa ajudar nas contas da casa e, enquanto o sonho não se realiza, são os bicos que estão ajudando. "Eu estava trabalhando como Uber, mas não compensava. O que quero é me aprimorar e procurar um futuro melhor." Alex era o número 1.170 da fila do mutirão do emprego do Sindicato dos Comerciários, na segunda-feira (6). Pegou sua senha pouco depois das 5h da manhã. Ao meio-dia, ainda estava esperando sua vez.

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