O México é o quinto país com mais participações em Copas, com 16. É um povo apaixonado pelo futebol e intenso como o brasileiro na hora de torcer. Em termos de resultado, porém, pouca coisa além da persistência merece reverência. A fama de time que não faz frente aos gigantes persegue a seleção, que nunca passou das quartas de final, e só chegou lá quando atuou em casa.
Esse México que está na Rússia, no entanto, contraria a regra. Por que um time capaz de bater a toda-poderosa Alemanha não pode sonhar alto? "Não se ganha com o nome", disse Miguel Layún, logo depois da classificação para a sétima oitava de final consecutiva. Sempre eliminado nesta fase nas últimas seis edições, o time de Osório se escora no desempenho apresentado até agora e no histórico contra o Brasil de Neymar para, quem sabe, escrever uma história diferente.
Uma história "chingona"...
"Nós vamos colocar um mínimo de cinco jogadores ofensivos. Nós sabemos que todos são capazes de atacar e gerar perigo ao Brasil. Tomara que controlemos o jogo e fiquemos com a bola para igualar a quantidade de jogadores no último terço de campo"
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AP Photo/Junji Kurokawa O histórico é amplamente favorável ao Brasil: em 40 confrontos, foram 23 vitórias sobre os mexicanos, com dez derrotas e sete empates. No último encontro entre as seleções, em amistoso realizado no dia 7 de junho de 2015, a seleção, ainda sob o comando de Dunga, triunfou por 2 a 0, com gols de Philippe Coutinho e Diego Tardelli, no Allianz Parque, estádio do Palmeiras.
Mas o abismo encurta consideravelmente quando se leva em conta os confrontos recentes por torneios oficiais, quando os mexicanos passaram a alcançar resultados relevantes. Em duas décadas, as seleções se enfrentaram 12 vezes. Foram sete vitórias mexicanas, quatro derrotas e um empate.
Foi diante do Brasil, por exemplo, que o país alcançou as suas maiores glórias, como o único título em nível mundial, a Copa das Confederações de 1999, e a medalha de ouro olímpica, em Londres-2012. É uma história que tem até seus vilões, como Jared Borgetti, algoz da seleção em diferentes encontros. É como se a frase histórica, que "define" a seleção mexicana, sofresse uma adaptação. "Jogamos como nunca", mas não "perdemos como sempre".
AP Photo/Luca Bruno Dos 23 convocados por Osório para a Copa da Rússia, sete integraram o elenco campeão olímpico nos Jogos de Londres-2012. Poderiam ser oito, se o Manchester United tivesse liberado o atacante Chicharito Hernandez para jogar o torneio. A vitória sobre o Brasil por 2 a 1 na final acendeu um pavio que implodiu a passagem do técnico Mano Menezes, demitido três meses depois, e jogou ao descrédito uma geração que tinha como expoente a dupla Neymar-Ganso.
Motivo de orgulho em situações normais, a prata olímpica virou símbolo de fracasso. Dos 18 medalhistas, poucos conseguiram se manter no nível de seleção. Além de Neymar, o zagueiro Thiago Silva, o lateral-esquerdo Marcelo (ambos chamados nas vagas de veteranos, acima de 23 anos) e o lateral-direito Danilo são os remanescentes que disputam a Copa do Mundo da Rússia.
Neymar sobreviveu ao baque, mas os seus “parças” da época, não. Paulo Henrique Ganso ficou quatro anos sem ser convocado à seleção brasileira depois da Olimpíada. Em 2016, Dunga o chamou para a Copa América Centenário, mas com participação inexpressiva. Alexandre Pato e Lucas Moura também perderam prestígio e não vingaram como craques.
Outros jogadores simplesmente sumiram do radar, como o lateral-direito Rafael e o volante Sandro, dupla que se confundiu no lance do primeiro gol mexicano na final olímpica, marcado por Peralta com 29 segundos de partida, além do volante Rômulo e o goleiro Gabriel, titular na final olímpica.
A falta de dedicação nos treinamentos durante os Jogos Olímpicos de 2012 fez Paulo Henrique Ganso ganhar fama de "preguiçoso" na seleção. Chamou a atenção certa vez que o meia não participou de uma atividade com cobranças de pênaltis para ficar batendo papo no banco de reservas.
Imagem: Carlos Padeiro/UOL
O goleiro titular do Brasil nos Jogos de Londres seria Rafael (ex-Santos e Napoli), mas ele se lesionou. Neto, atualmente no Valencia e que quase foi chamado por Tite para a Copa da Rússia, assumiu a posição, mas não suportou a pressão e perdeu o lugar para o novato Gabriel, na época com 19 anos.
Imagem: Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Muita gente apostava que o ataque brasileiro na Copa de 2014 seria formado pelo trio que iniciou a Olimpíada de Londres como titular: Neymar, Alexandre Pato e Leandro Damião. Como se sabe, não foi o que aconteceu. Pato caiu em descrédito e ganhou fama de jogador desinteressado, enquanto o jejum de gols virou rotina na carreira de Damião.
Imagem: Divulgação/Mowapress
REUTERS/Max Rossi “Imaginemos cosas chingonas”. É difícil fazer uma tradução literal para o português, até porque envolve um palavrão em espanhol, mas significa algo como realizar “coisas do c...”.
Foi desta forma, com uma popular gíria local, que Chicharito Hernandez definiu as aspirações do México na Copa. Após a vitória sobre a Alemanha e a classificação para encarar o Brasil na fase decisiva, imaginar “cosas chingonas” virou mantra mexicano e inspirou até cântico de torcedores para findar a rotina de seis eliminações consecutivas em oitavas de final.
Com o peso do favoritismo nas costas, o Brasil chegou à Rússia para fazer do hexa mundial uma redenção ao vexame de quatro anos atrás. Para que a "geração do 7 a 1" atinja o topo e recupere o prestígio. São as “cosas chingonas” que Neymar e seus companheiros tanto desejam, ainda que não repitam a mesma frase do astro mexicano e não ignorem as qualidades adversárias.
“Estamos muito tranquilos. Todos os jogadores são de grande nível, de clubes sempre favoritos. Já estamos acostumados a essa pressão de favoritismo. Mas sempre com muito respeito, tranquilidade e humildade. Temos de jogar muito futebol para ganhar do México”, ressaltou o volante Casemiro.