Vizinhos abrem espaço no muro para driblar a distância do isolamento social
A expressão "ir pro buraco" para muitos significa problemas, crises, tristezas ou coisas do gênero. Mas para os casais Verônica, 70, e Pedro, 73, e Maria, 79, e Mario, 85, moradores de Sarzedo, na região metropolitana de Belo Horizonte em Minas Gerais, ir pro buraco é exatamente o contrário. É o momento da amizade, da troca entre vizinhos, do companheirismo e da solidariedade. O buraco no caso foi aberto no muro que separa suas casas.
Desde o início da pandemia, os vizinhos, afastados pelo risco da doença, deixaram de lado as conversas com cadeiras nas calçadas no fim do dia. Aquele pulinho na casa ao lado para um apoio de qualquer espécie também ficou para depois. A saída? Fazer um buraco no muro e evitar a saudade, a sensação de abandono ou solidão. "Resolvi tirar um bloco do muro que já ajudava bastante", diz dona Verônica. E assim foi feito. Desde então, ir pro buraco é recorrer ao que chamam de "janela da amizade".
Há mais de 43 anos os vizinhos são praticamente uma família só. "Até as netas dela me chamam de Dinha", conta dona Maria que ganhou o apelido carinhoso por ser madrinha de uma das quatro filhas de dona Verônica. "Já no primeiro dia aqui eu fui pra casa dela fazer o almoço para servir ao povo que veio ajudar na mudança", lembra Dona Verônica, citando um remoto sábado do ano de 1977.
De lá para cá, foram muitas histórias. As duas lideraram os poucos moradores do então recente bairro a lutar por redes de água e energia elétrica, escola, meio de transporte, tudo. "Um dia, juntamos todas as mães com as crianças e fomos ao prefeito para pedir educação pros filhos", conta ela, lembrando que o alcaide argumentou não ter condição de construir uma nova escola no bairro. "Não queremos nova escola, mas educação. Alugue uma casa, contrata uma professora, dá um jeito", ordenou. Não tardou e o prefeito fez tal qual dona Maria sugeriu. "O que a gente se propunha a fazer ia lá e fazia", destaca dona Verônica.
Se perguntarem como conseguem manter a amizade de tamanha longevidade sem uma rusga sequer, as duas resumem em uma única palavra: respeito. Mas dona Verônica acrescenta que manter a privacidade preservada também ajudou. "Nunca fomos de passar o dia uma na casa da outra. Esse negócio não dá certo", sentencia. Mas solidariedade sempre teve de sobra. Certa vez, por conta de problemas de saúde e necessidade de apoio, elas criaram uma campainha que tocava na casa da outra. "A qualquer hora da noite, em caso de necessidade, era só tocar a campainha", lembra Dona Verônica. Hoje, com a tecnologia não usam mais a campainha, mas já trataram de incrementar a janelinha da amizade. Dona Maria criou uma haste de metal com um gancho na ponta. "Quando a gente quer levar alguma coisa e chama e ninguém reponde, deixa pendurado no gancho", resume. Na última semana, por exemplo, a família de Dona Verônica, que é bem mais numerosa, fez um churrasco no quintal. E não foi só o cheiro do assado que cruzou o muro que divide as residências. Travessas de arroz, salada e muita carne iam cheias e logo estavam prontas para ser reabastecidas. "É sempre assim. No Natal e no Ano Novo é igual", confirma Dona Maria. Foi por gestos assim que as duas famílias se tornaram praticamente uma só. E não tem pandemia que desfaça!
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Este conteúdo é de autoria de Fanta e não faz parte do conteúdo jornalístico do UOL